Eu descobri que estava sendo vendida no mesmo dia em que minha mãe parou de me olhar nos olhos.
Não houve gritos, nem confissão dramática. Só o silêncio pesado na sala pequena demais para um problema tão grande. A televisão ligada sem som, o relógio marcando horas que não avançavam e meu pai sentado no sofá, com as mãos trêmulas, como se já estivesse morto.
— Isabella… — minha mãe começou, mas a voz falhou.
Meu nome soou estranho. Como se já não fosse mais meu.
— O que aconteceu? — perguntei, mesmo sentindo o estômago afundar.
Meu pai respirou fundo. Um gesto inútil. Não existe fôlego suficiente quando se deve à máfia.
— Nós erramos — ele disse. — Erramos feio.
Eu ri. Um riso curto, nervoso.
Errar, pra mim, era esquecer uma conta ou perder um emprego. Não aquele clima de velório antecipado.
— Erraram como?
Silêncio.
Foi aí que eu entendi.
Quando você cresce na Sicília, aprende cedo a reconhecer certos sinais. O medo não precisa ser explicado. Ele se infiltra nas paredes, na forma como as pessoas evitam dizer nomes, na maneira como portas são trancadas mesmo durante o dia.
— Não… — balancei a cabeça. — Não me diz que vocês se meteram com…
— Não diga o nome — minha mãe sussurrou, como se ele pudesse ouvir.
Tarde demais.
Matteo De Luca.
O Don.
O homem que não aparecia em fotos, não dava entrevistas, não precisava levantar a voz para ser obedecido. O nome que fazia comerciantes fecharem mais cedo e policiais olharem para o outro lado.
— Quanto? — perguntei.
Meu pai não respondeu.
— Quanto vocês devem? — insisti, agora com a voz mais firme do que me sentia.
— O suficiente — ele disse, finalmente — para não haver saída.
Eu me levantei de um salto.
— Sempre há saída.
Ele me olhou com um desespero tão cru que me fez parar.
— Não quando o prazo acaba hoje.
O chão pareceu inclinar.
Hoje.
— O que ele quer? — perguntei, já sabendo que dinheiro não resolveria.
Meu pai demorou demais para responder.
Minha mãe chorava em silêncio.
E então ele disse:
— Ele aceitou uma alternativa.
A palavra alternativa me gelou mais do que qualquer ameaça.
— Que alternativa?
Meu pai fechou os olhos.
— Você.
O ar saiu dos meus pulmões.
— Não — falei, rindo de novo, agora quase histérica. — Não, isso é doentio. Eu não sou moeda.
— Para eles, é — minha mãe murmurou.
Eu quis gritar. Quebrar algo. Correr.
Mas o que eu fiz foi ficar parada, porque, no fundo, eu já sabia. Famílias como a nossa não enfrentam homens como Matteo De Luca. Elas sobrevivem… se tiverem sorte.
— Ele quer o quê? — perguntei, cada palavra doendo. — Uma noite? Um acordo sujo?
Meu pai balançou a cabeça.
— Um noivado.
A palavra caiu como uma sentença.
— Ele vai quitar a dívida. Proteger nossa família. Em troca… você ficará sob o nome dele.
Sob o nome do Don.
— Eu não concordei com isso — falei, sentindo a raiva subir.
— Nós também não concordamos quando fizemos a dívida — ele respondeu. — Mas agora é tarde.
Eu encarei aquele homem que me criou e, pela primeira vez, não vi um pai. Vi alguém pequeno demais para o próprio erro.
— Quando? — perguntei.
— Hoje à noite.
Claro.
O Don não espera.
O carro preto parou em frente ao prédio como um aviso fúnebre.
Dois homens desceram. Ternos escuros, expressões vazias. Não precisaram dizer quem eram. Um deles abriu a porta traseira e me olhou direto nos olhos.
— Isabella Romano — disse, como se estivesse confirmando uma entrega.
Eu não respondi.
Minha mãe tentou me abraçar. Eu permiti. Por ela. Não por mim.
Meu pai não conseguiu chegar perto.
Entrei no carro sem olhar para trás.
Não porque eu fosse forte.
Mas porque, naquele momento, já não havia nada a salvar.
O caminho foi silencioso. O tipo de silêncio que pressiona os ouvidos, que faz seus pensamentos gritarem.
Eu observava a cidade pela janela. Ruas que eu conhecia desde criança, agora pareciam território inimigo. Cada esquina me afastava mais de quem eu era.
O carro parou diante de uma casa grande, cercada por muros altos. Não era um palácio. Era pior. Era funcional. Fria. Um lugar feito para controle.
Fui conduzida para dentro.
O cheiro de madeira, couro e algo metálico me atingiu. Sangue, talvez. Ou poder.
Esperei em uma sala ampla. Sofás escuros. Quadros abstratos. Nenhum retrato. Nenhuma memória exposta.
Ele não precisava provar quem era.
O som de passos veio do fundo.
Meu corpo inteiro se tensionou.
Quando Matteo De Luca entrou na sala, eu entendi por que todos o temiam.
Ele não era exagerado. Não gritava autoridade. Ele a carregava como uma segunda pele.
Alto. Postura relaxada demais para alguém tão perigoso. Terno impecável. Olhar escuro, calculista, que passou por mim como se estivesse avaliando um objeto… e então parou.
Seus olhos ficaram em mim por um segundo a mais.
— Isabella Romano — ele disse, com voz baixa, controlada.
Meu nome nunca soou tão distante.
— Don De Luca — respondi, com um respeito que não pedi para sentir.
Um canto da boca dele se moveu. Quase um sorriso. Quase.
— Sente-se.
Eu obedeci. Odiando a mim mesma por isso.
Ele se acomodou à minha frente, cruzando as mãos com calma. Não havia pressa. O tempo sempre trabalhou a favor dele.
— Seu pai me deve — ele disse. — Muito.
— Eu sei.
— Dívidas precisam ser pagas.
— Eu não sou uma dívida — respondi, encarando-o.
Algo brilhou em seu olhar. Interesse? Irritação? Não soube dizer.
— Não — ele concordou. — Você é a solução.
Meu estômago se revirou.
— Eu não aceitei isso.
— Não precisava — ele respondeu, simples. — Seu consentimento não fazia parte do acordo.
A honestidade brutal me atingiu mais forte que qualquer ameaça.
— O que exatamente você quer de mim? — perguntei.
Ele se inclinou levemente para frente.
— Você será minha noiva. Viverá sob minha proteção. Meu nome. Minhas regras.
— E se eu disser não?
Ele me encarou por longos segundos.
— Então sua família deixa de existir como a conhece.
Simples assim.
— Você é um monstro — falei, a voz falhando.
— Sou um Don — ele corrigiu. — Há diferença.
Eu respirei fundo, lutando contra as lágrimas.
— Isso não é um conto de fadas.
— Eu sei — ele disse, sem emoção. — Contos de fadas mentem.
Ele se levantou e estendeu algo sobre a mesa. Um anel.
Não havia pedido. Não havia escolha.
— Bem-vinda à minha vida, Isabella Romano — disse. — A partir de agora, você está sob o meu nome.
Eu encarei o anel, sentindo o peso de algo muito maior do que metal.
Quando coloquei no dedo, algo dentro de mim se quebrou.
E Matteo De Luca observou… como se soubesse que aquele era apenas o começo.