A casa dormia, mas eu não. O relógio no corredor marcava quase três da manhã quando desci as escadas em silêncio, sentindo o frio do mármore subir pelos pés descalços. O vestido de noiva ainda pairava na minha mente como uma ameaça branca e silenciosa. Dois dias. Em dois dias, minha vida deixaria de ser apenas minha — se é que ainda era. A cozinha estava iluminada apenas pela luz fraca sob os armários. Abri a geladeira mais por impulso do que por fome. Meus olhos encontraram o bolo de chocolate da degustação do buffet, perfeitamente embalado, intocado desde a tarde. Claro. Até o bolo parecia mais bem cuidado do que eu. Cortei um pedaço generoso e me apoiei na bancada, levando o garfo à boca. Doce demais. Intenso. Confortante. O tipo de coisa que a gente come quando quer esquecer que es

