Capítulo 3

1015 Words
Acordei antes do sol. Não porque estivesse descansada, mas porque meu corpo não confiava naquele lugar o suficiente para dormir profundamente. Tudo ali parecia silencioso demais, organizado demais, como se a casa respirasse junto com os homens que a protegiam. Sob o nome do Don. A frase voltou assim que abri os olhos. Levantei devagar, caminhei até o banheiro e encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos denunciavam o que eu tentava esconder: medo, sim — mas também algo mais perigoso. Raiva. A raiva de quem foi empurrada para um jogo que não escolheu jogar. Teresa apareceu pouco depois, trazendo roupas. — O Don pediu que usasse isso — disse, estendendo um vestido escuro, simples, elegante demais para ser apenas uma escolha estética. — Ele escolheu até isso? — perguntei. Ela hesitou. — O Don prefere evitar interpretações erradas. Sorri sem humor. — Ele não confia nem na própria noiva. — Ele confia no controle — respondeu, sincera demais. Vesti o vestido em silêncio. Caía perfeitamente. Como se tivesse sido feito para mim — o que só tornava tudo pior. Quando terminei, Teresa prendeu meu cabelo de forma simples, deixando o pescoço exposto. O toque foi delicado, quase maternal, mas seus olhos carregavam pena. — Não demonstre fraqueza hoje — aconselhou. — Eles respeitam quem não baixa a cabeça. — Eu não costumo baixar — respondi. Ela assentiu. — Ótimo. Vai precisar disso. Fui levada até o andar principal da casa. Homens ocupavam o espaço como peças bem posicionadas. Alguns conversavam baixo. Outros observavam em silêncio. Todos me analisaram no instante em que apareci. Nenhum disfarçou. Eu era a novidade. Matteo estava ao centro, conversando com dois homens mais velhos. Quando me viu, interrompeu a fala sem pedir licença. — Venha — disse, estendendo a mão. Olhei para ela por um segundo. Não por timidez. Por desafio. Então aceitei. O contato foi breve, firme. Controlado. — Senhores — ele anunciou — esta é Isabella Romano. Minha noiva. O silêncio que se seguiu foi pesado. Avaliador. Como se cada homem ali estivesse decidindo o que eu representava: ameaça, fraqueza ou oportunidade. — Um prazer — murmurei, porque ficar muda seria pior. Alguns assentiram. Outros sorriram de forma enviesada. — Tão jovem — comentou um deles, com um olhar que me percorreu sem pudor. A mão de Matteo apertou levemente a minha. — O suficiente — respondeu ele, frio. — E sob minha proteção. O aviso estava dado. Seguimos para a área externa, onde carros aguardavam. Matteo me conduziu até o banco do passageiro e fechou a porta pessoalmente. Um gesto calculado. Visível. Ele queria que todos vissem. O trajeto foi curto, mas tenso. Nenhum de nós falou nada. A cidade passava pela janela como um cenário que eu já não reconhecia. Parámos diante de um restaurante fechado para o público. Segurança em excesso. Homens posicionados em cada entrada. — O que é isso? — perguntei. — Uma reunião — respondeu. — Hoje, você aprende quem são nossos aliados. E quem não são. Engoli em seco. Lá dentro, o ambiente era carregado. Homens de terno, expressões duras, vozes baixas. O tipo de lugar onde decisões custavam vidas. Matteo me manteve ao lado dele o tempo todo. Não como carinho. Como declaração. — De Luca — disse um homem alto, aproximando-se. — Não sabia que estava noivo. — Não estava — Matteo respondeu. — Agora estou. O homem me olhou com interesse demais. — Ela sabe onde está se metendo? — Ela aprende rápido — respondeu Matteo por mim. Sorri, mantendo a postura. — Não subestime quem você ainda não conhece — falei, olhando diretamente para o homem. O silêncio voltou a se espalhar. Matteo me lançou um olhar rápido. Não de repreensão. De avaliação. Durante a reunião, ouvi nomes, territórios, números. Aprendi rápido a ficar em silêncio nos momentos certos. Observei olhares atravessados, tensões m*l disfarçadas. A máfia não era uma organização sólida. Era um campo minado. Em certo momento, um dos homens se inclinou para Matteo. — Não teme que ela se torne um ponto fraco? Meu coração disparou. Matteo não hesitou. — Quem acha que minha noiva é um ponto fraco… não entende quem eu sou. O olhar dele caiu sobre mim. — Nem quem ela pode se tornar. A frase ficou presa em mim. Quando saímos, o ar parecia mais pesado do que quando entramos. — Você falou demais — ele disse, assim que entramos no carro. — E você falou por mim — retruquei. — Eu falei por nós. — Não somos “nós”. Ele virou o rosto lentamente em minha direção. — Ainda não — concordou. — Mas será. — Você não pode controlar tudo, Matteo. Um leve sorriso surgiu. — Posso controlar o suficiente. — Eu não vou ser sua fraqueza. — Ótimo — respondeu. — Porque fraquezas morrem rápido nesse mundo. Voltamos para a casa em silêncio. Mais tarde, sozinha no quarto, minhas mãos tremiam levemente. Não de medo apenas. De adrenalina. De consciência. Eu tinha sido vista. E isso me tornava perigosa. Quando a noite caiu, ouvi passos familiares. Matteo entrou sem aviso. — Você foi observada hoje — disse. — Eu sei. — Alguns gostaram de você. Outros não. — E você? Ele me encarou por longos segundos. — Ainda estou decidindo. — Eu não vou ser decorativa — falei. — Nem obediente. — Eu não preciso de uma boneca — respondeu. — Preciso de alguém que sobreviva ao meu lado. — Então pare de me tratar como propriedade. Ele se aproximou, parando perto demais. — Enquanto carregar meu nome… você é minha responsabilidade. — Isso não é o mesmo que posse. — No meu mundo, é. O silêncio se esticou entre nós. Denso. Carregado. — Eles vão tentar me usar contra você — falei. — Eu sei. — E se conseguirem? O olhar dele escureceu. — Então eles morrem. Saímos daquele confronto sem vencedor. Mas algo havia mudado. Eu não era mais apenas a dívida paga. Eu era uma peça no jogo. E, gostando ou não, Matteo De Luca acabara de me colocar no tabuleiro.
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