Acontecimentos

2011 Words
– Quem é essa que está com você, Miguel? – questionou a jovem senhora de pé no meio do pátio. – Uma amiga. – respondeu sorrindo. – Se ela for morar junto contigo, preciso cobrar a mais pelos dois, você conhece as regras! – reclamou. – Como é que é?  – disse Luciana. Ainda bem que o m*l entendido foi logo resolvido pelo nosso não tão elegante anti-herói. – Pera, ela não vai morar comigo, mas quer um lugar pra ficar durante um tempo. – explicou. – Porque não me disse logo? – respondeu a senhora caminhando em direção à eles. – Porque você não m... – Miguel foi empurrado por ela. A senhora abraçou a Luciana como se fosse uma filha, uma neta ou alguém próximo dela. – É da terrinha? – questionou. – Eu? É... Sou de Pernambuco. – Sou de Olinda, pode ficar à vontade, ok? Meu nome é Jurema, mas pode me chamar de Dona Jura. A jovem senhora a abraçou pegou sua mochila e jogou nos p****s de Miguel. – Ajude a menina, faça alguma coisa. Acredite ou não, isso é mais carioca do que feijão carioquinha. Essa receptividade amigável e a representatividade nordestina no subúrbio carioca retrata bem o que as pessoas deste estado vivem. O mormaço acumulado ao longo do dia parece pré-aquecer os transeuntes da cidade. Estamos naquele momento do dia que "se chover mais, é melhor", pois mesmo chovendo, ainda está quente. Ninguém está de casaco ou usando botas, mas todos querem que chova. – Você pode ficar aqui, quarto duzentos e trinta e sete. – disse Dona Jura. – Bela escolha de número. – comentou Miguel. "Será possível?" – ponderou Luciana. – Porque comentou sobre o número do quarto? – questionou ela. – Você não entenderia. – respondeu Miguel entrando no quarto e colocando a mochila dela na cama. – Vou deixar vocês a vontade, ok? Mais tarde voltou para acertar o preço. Como é indicada do Miguel, pode ficar de graça por hoje se ficar mais do que dez dias. – Ficarei ao menos dois meses. – respondeu Luciana. – Ótimo, até a janta então. – Obrigado Senhora. – De nada querida. – Dona Jura se retirou. O trio se despediu e Luciana pode enfim voltar sua atenção à Miguel com o assunto mais aleatório possível. – Porque disse "bela escolha" quando Dona Jura disse que estaria no quarto duzentos e trinta e sete? Miguel que estava sentado na beira da cama, respondeu. – É uma referencia ao filme 'O Iluminado', pelo menos o do Kubrick, pois o remake e os demais, eu não assisti. – Eu só li o livro, não gosto das adaptações. – Você que é feliz. – replicou. – Mas no livro é duzentos e dezessete, você sabe, né? – respondeu Luciana triunfante. "Tola". – imaginou Miguel. Nosso anti-herói perverso se levantou apenas para debochar da cara de Luciana. – Atendendo a um pedido do próprio dono do hotel onde 'O Iluminado' foi filmado, que realmente temia que as pessoas não alugassem mais o quarto duzentos e dezessete por causa dos fantasmas e assombrações do filme, o número do apartamento foi alterado para duzentos e trinta e sete. – Por quê? – questionou Luciana. – Porque o duzentos e trinta e sete é um quarto completamente inexistente no hotel em que o filme foi gravado. – implicou. – E como diabos um mero segurança sabe dessas coisas? Miguel se aproximou perigosamente dela que ficou de costas para a parede, completamente rendida para nosso personagem. – Tem coisas sobre mim que você desconhece, então, mocinha, não julgue o livro pela capa, ok? Miguel saiu do quarto, seus quinze minutinhos de descanso já estavam cansados de terem acabado. "Aquele i****a é tão inteligente assim? Ou ela só é um daqueles curiosos da internet?" – ponderou. – Vai ver só é um i****a mesmo. – comentou consigo mesma. Luciana trancou a porta e se jogou de cara na cama. Após alguns segundos relaxando, ela se virou de barriga para cima e encarou o teto. Admirou o minúsculo e desajeitado quarto em que se encontrava. Trata-se de um quarto incrivelmente pequeno que só tem uma cama bem no centro, a porta, uma janela até que bem grande que dá de cara para um muro com uma grande plantação de banana que se escora nele. No quarto, não existe televisão, somente um puff para apoiar coisas ou se sentar e uma cômoda para botar roupas, mas que não deve caber muita coisa. Mesmo assim, Luciana estava encantada, mesmo que extremamente bobo, ela estava completando um sonho. Passar um tempo na cidade grande enquanto flerta com seu sonho de ser escritora.   Ponto de vista de Luciana. Houveram muitos dias em que eu não aguentava a minha própria companhia, outros tantos dias que eu já não sabia o que estava fazendo, eu apenas funcionava no automático e sem perceber estava estudando para um propósito muito grande, tão grande que estava enraizado em mim e eu não conseguia vê-lo como real. E por mais que nos meus sonhos ele fosse real, ainda parecia intocável, inacessível e até mesmo inimaginável. – uma pequena lágrima começou a ameaçar sua integridade e pose. Mudo realmente mudou quando escute uma música que dizia: 'A resposta é que eu vivo de milagres, dessa vez vai ser mais um milagre, eu não sei como Deus irá fazer, mas eu sei vai ser perfeito como tudo que ele faz'. – no exato momento que cantarolou a última palavra, o choro desceu. Eu passei a escutar todos os dias várias vezes ao dia, ela me deu ânimo, me deu um gás a mais, mas somente depois que entendi que eu só precisava ter fé e confiar. Depois de compreender, ficou mais fácil. Não foi a melhor coisa do mundo, mas sem dúvidas, foi a coisa a se fazer. Sempre orei e pedi pelo melhor caminho a seguir, eu não questionava qual seria mas pedia a Deus que me guiasse da melhor possível, e assim, ele fez. E mesmo que tenha demorado, mesmo que eu já estivesse esgotado, eu continuava dando o meu melhor. E em todas às vezes que eu fazia um trabalho meia boca, apenas por pensar que já não tinha forças, sei que ele me deu suporte, secou minhas lágrimas e minhas dores. – Luciana começou a pensar em seus parentes mortos e em tudo o que já havia passado para estar naquele momento no Rio de Janeiro. Incertezas, ansiedade, desespero, confiança baixa, coração apertado, tudo isso numa só cabeça, e tudo que sempre me diziam era que eu precisava ter paciência, precisava esperar o MEU tempo certo e não o que eu queria. Eu simplesmente amo estudar, seja as estruturas, os arquétipos, o roteiro ou os diálogos, amo ficar horas lendo, mas isso cansa de todas as formas, seja psicologicamente ou fisicamente falando. – Luciana retirou do bolso sua cartela típica de comprimidos para dor de cabeça. Eu abdiquei de muitas coisas, como pessoas, encontros, festas e curtições por esse sonho. Sempre fui a amiga que não saía de casa porque tinha que estudar, a menina que não namorava porque tinha um sonho, a menina da família que estava ocupada e não podia curtir e escrevia demais. Passei mais tempo na presença de livros do que rodeado por pessoas. Minha família nunca foi tanto de me apoiar, cada um tinha o seu jeito de ver o mundo e a sua própria maneira de conquistá-lo também, mas sempre faziam o que podiam para me ajudarem, pois sabiam que eu estava ali lutando de verdade para vencer aquela guerra. Queria que eles sentissem a felicidade que eu senti ao sair do sertão Pernambucano para desembarcar no Rio de Janeiro eles. Sinto que Deus me abençoou da melhor maneira, pois há exatos dois mil quinhentos e vinte e cinco dias entre o primeiro livro que li, eu estou aqui para transformar meu sonho de ser escritora profissional, REALIDADE! – nem preciso dizer que Luciana estava maravilhosamente radiante, né?   Saindo do ponto de vista de nossa personagem maravilhosa, voltamos ao repugnante anti-herói mau caráter. Pois no instante em que se aproximou do frigorífero, Nossa indelicada Marcely estava lá. – Onde tu tava porr@? – afrontou com raiva Miguel respira fundo, sabe que as palavras que o vento leva, formam pessoas que prometeram ficar e que precisa lidar e conviver, insistir e persistir com sua jornada até o fim dos últimos dias de sua breve existência. – Boa tarde pra você também. – replicou. – O caralh@#$%! Nem todos ficarão do nosso lado e realmente, poucos destes que estarão, de fato se importam com alguma coisa além do próprio umbigo ou o próprio par de s***s. Me entende? Este é o caso de Marcely, que é tão repugnante, que sequer a chamarei de antagonista, ela é no mínimo, o bobo da corte. – Sério? Vai dar uma de doida sempre? – E que cheiro de put@#$ é esse? A ignorância de Marcely começou a chamar tanto a atenção dos clientes quando de seu chefe, que, ríspido como sempre, deu uma boa encarada em Miguel. – Para de gritar, você está chamando muita atenção. – sussurrou enquanto a puxava pelo pulso. – Mas que m***a, esses bostas nunca viram um casal discutir? – Nós não somos um casal. – É CLARO QUE SOMOS VOCÊ ME ENGRAVIDOU! – esbravejou. Todos olharam. – FALA BAIXO PORR@#$! O nada mole casal indelicado começou outra discussão calorosa. Os acontecimentos presentes na vida desta dupla são realmente escatológicos, desde o início, sempre tiveram uma relação conturbada entre baixos e mínimos, nada de altos ou momentos bons. E é aquilo, se tem uma coisa que o Sherek nos ensinou é que um burro com um dragão, dá filhote na certa. Da última vez que se encontraram, Marcely engravidou, na mesma semana em que Zoe perdeu a visão e Miguel a abandonou. A justiça tarda, mas não falha. Mas vamos deixar este rolo um pouco de lado, pois Marcely que está fazendo questão de se exibir com uma barriga flácida para fora da camisa, está fazendo um barraco enorme, para um lugar menos movimentado. O bairro do Maracanã, que vira um verdadeiro aquário quando chove. – Tá chovendo muito? – questionou Oliver. – Não no momento, mas a rua está completamente alagada, tem um verdadeiro rio no meio da pista e isso está causando um engarrafamento escroto. – respondeu Anne. – O que vamos fazer? – Dependemos do Uber para chegar aqui e nos levar até a reunião. – Logo essa, a primeira reunião pós-hiato deve ser a pior, não? – ponderou Oliver. – Concordo, não sei o que esperar da minha própria escrita após muito tempo, se tivesse sido boa, creio que iriam responder por e-mail, mas se a própria Gerente de Aquisições da Editora, em pessoa decidiu marcar uma reunião presencial, coisa boa não deve ser, concorda? – Não mesmo. – completou Oliver. – Por quê? – Vai ver o seu livro é tão bom que querem te parabenizar. – brincou. – Não seja bobo. – respondeu Anne. Foi difícil, mas o Uber logo chegou, e em boa hora, diga-se de passagem, pois o temporal voltou a cair, e com ele, toda a insegurança da Anne. – E se eles pedirem fotos promocionais comigo? – Normal ué, você é a autora, e não qualquer você é a Anne. – Mas e a minha cicatriz? Como vou aparecer em público assim? Como vou estampar a contracapa de um livro como estou? – voltou a ponderar. Anne, mesmo que tenha superado várias coisas, ainda é um pouco complexada demais para certas coisas. – Meu amor, você é a autora de inúmeros sucessos, além de gerar várias séries com o que escreve, sabe? Como eles não vão querer você estampada em todos os lugares? – Verdade, não? – sorriu. Anne se virou para o seu lado e começou a encarar o lindo cenário metropolitano e chuvoso que passava muito lentamente do lado de fora. "Mas é justamente isso que me preocupa". – imaginou.
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