Eu não queria me levantar, eu queria ficar embaixo das cobertas desabafando com minhas dores emocionais em meu diário, que aliás nunca me julgou apesar das maluquices que ja escrevi nele, meu diário sempre foi um bom amigo.
caro leitor, não me entenda m*l eu admiro todos os médicos que já encontrei na vida, acho uma linda profissão só não consigo me ver nela.
Sinceramente, eu não acreditava em milagres, mas antes de sair da cama implorei ao anjo da guarda, uma fada madrinha ou qualquer entidade espiritualizada que me ajudasse, queria que algo acontecesse, qualquer coisa, que me trouxesse a diversão de viver meus sonhos mais uma vez. e talvez alguem tenha me escutado porque naquele dia as coisas começaram a mudar.
Tome seus remédios antes de ir - minha mãe me avisou.
Fiz a minha melhor cara de nojo, eu sempre odiei remédios, mas precisava deles, quando meu pai morreu eu tive uma crise emocional muito séria e acabei sendo internada em uma insituição psiquiátrica por duas semanas, foi aonde recebi meu diagnóstico de autismo grau 1 e transtorno de ansiedade generalizada. Precisei me acostumar a depender de remédios para conseguir ter qualidade de vida outra vez, eles são meus amigos de certa forma mas mesmo assim os odeio. Nunca pararia de tomar, porque não quero enfrentar a dor emocional que eu ja sofri, não desejo ao meu pior inimigo, só que não me sinto eu mesma com eles, uma parte de mim morreu com meu pai. A parte que gostava de viver e se divertir, agora só restou uma sombra em crise constante, tentando sobreviver um dia da cada vez.
Minha melhor qualidade é o que eu chamo de teimosia, mas minha psicóloga insiste em chamar de determinação, com o apoio e aconselhamento de familiares eu estava mais inclinada a terminar meu curso mesmo que não fosse o sonho da minha vida, eu ja tinha gastado tempo demais me dedicando a medicina para desistir agora, e nunca acreditei mesmo na baboseira de “largue tudo e siga seus sonhos”, me prendi a realidade e decidi que só por mais um dia eu ia me dedicar inteiramente a nobre tarefa de ajudar a salvar vidas.
Bom dia - eu fui cumprimentando meus colegas na sala de aula, quando outras pessoas iam chegando eu as saudava também.
Éramos um grupo unido de estudantes que se tornaram amigos após passar tantos anos juntos na faculdade. Logo estávamos conversando sobre as férias e qual seria nosso futuro no novo semestre, até que o professor chegasse.
a aula foi especialmente interessante pois aquelas disciplina falava sobre pediatria, que seria o caminho que eu acabaria seguindo. Sim, é uma das vertentes mais difíceis de clinicar da medicina, mas eu sempre me identifiquei mais com as crianças que com adultos, talvez minha identificação seja porque elas são sinceras e eu aprecio essa qualidade.
acabei escrevendo a letras de uma música em meu caderno quando deveria ter escrito as anotações da aula, mas ja estava acostumda, minha melhor amiga sempre me emprestava o caderno dela perto da prova para mim conferir o que eu tinha perdido. Meu professor estava acostumado com a minha falta de atenção nas aulas e já não se preocupava, de alguma forma quando eu ia fazer as provas eu sempre sabia a resposta certa, talvez porque meu subconsciente absorve a maioria das informações quando eu não consigo prestar a atenção de forma consciente.
Eu nem vi o tempo da aula passar , e minha amiga Acabou chamando a minha atenção quando a aula terminou, eu e rebeca estavamos saindo da sala quando o professor paulo me chamou.
-Helena! por favor espere eu gostaria de falar com você - ele arguiu.
Eu e rebeca trocamos um olhar que geralmente significa “Lá vem…” Mas virei me na direção do professor com meu sorriso falso mais simpático e respondi:
Claro professor do que o senhor precisa?
Eu tenho uma proposta para te fazer.
Helena congelou, um homem fazendo uma “prioposta para uma mulher nunca era boa coisa.
é sobre a possibilidade de fazer sua residência antecipada, trabalhando como assistente de um médico amigo meu.
E como isso funcionaria? - confesso que estava levemente curiosa.
Meu amigo miguel tem uma pequena clinica em uma cidade do interior, como ele é o único médico da cidade acaba se sentindo sobrecarregado com a quantidade de pacientes, e me pediu se não indicava alguém que aceitasse ajudá-lo. Eu conversei com o reitor e ele concordou em assinar um pedido de residência antecipada para o aluno que aceitasse ir.
Eu acabei me distraindo por alguns segundos pensando na possibilidade de me mudar daquele lugar barulhento e bagunçado, trabalhar menos horas por dia e conseguir me dedicar ao que eu realmente amo.
-Talvez você queira conversar com sua mãe antes de tomar uma decisão. Decidi conversar com você primeiro pois sei que gosta de se dedicar a atividades artísticas e por acaso a cidade de flor alegre é conhecida como o berço dos artistas.
Pronto, eu me empolguei mais ainda.
Eles tem uma lenda que o próprio elvis visitou a cidade. E a maioria dos pacientes são crianças e essa é sua melhor área.
Ele levou alguns segundo para concluir o que pretendia falar e entendi o motivo: ele não queria me ofender ou me magoar. Professor paulo foi um dos principais pontos de apoio que eu encontrei na faculdade quado precisei de ajuda, então ele sabia dos meus momentos mais escuros emocionalmente e era como um mentor que a vida tinha me dado.
e talvez seja bom para você mudar de ares, tentar algo novo.
Eu levei apenas alguns segundos para decidir, na verdade eu deveria mesmo ter falado com minha mãe, só que em todo caso a decisão sempre foi minha mesmo. Quando eu decido fazer algo eu sempre faço.
Sim - talvez eu tenha dito empolgada demais - eu vou.
Tem certeza? - ele me perguntou com uma expressão de quem sempre quis meu bem.
sim, tenho. quando eu tenho que estar lá? - perguntei já planejando toda a minha vida para a mudança.
-Segunda da próxima semana, considerando que estamos em uma quinta feira você tem três dias, é o suficiente.
Eu ja estava totalmente empolgada com a ideia de poupar dois anos da minha vida em um hospital barulhento que só me geraria crises sensoriais e eu ainda ia morar em uma cidade que tinha provavelmente uma centena de artistas, ou menos, ou mais. Eu ainda não sabia o tamanho da cidade mas logo iria descobrir que aquela era a melhor e mais louca cidade do país inteiro. Na verdade internamente eu estava dando pulinhos de felicidade, mas fingi plenitude. Rebeca nem acreditou quando contei a ela, mas prometeu me ajudar com as malas.
Eu nem vi os dias passarem, a ansiedade era tamanha que eu m*l conseguia registrar o que acontecia ao meu redor. Tudo passou como um flash, eu estava animada e com medo e a mistura dessas emoções me fez pensar que talvez essa não fosse uma boa ideia. Sair do conforto da casa da minha mãe para morar em uma cidade estranha, trabalhando com uma pessoa que eu nunca tinha visto ou falado, em um ambiente em que haveria mil motivos para mim distrair da medicina e me deixar levar pela produção artística.
Minha mãe resistiu a ideia no começo, mas eu estava determinada. Ficou sem falar comigo por dois dias inteiros, mas eu sabia que era medo, não imagino uma mãe que se acostume rapidamente a um ambiente sem o filho, se o mesmo passou com ela por toda sua vida até o momento. No terceiro dia veio conversar comigo, acabamos chorando e nos abraçando e tudo ficou bem outra vez.
Raquel estava mais animada que eu para toda a ideia da viagem, de alguma forma ela descobriu quem era o médico que seria meu chefe, e estava em êxtase:
Ja me imagino chamando ele de cunhado. - sempre nos consideramos irmãs.
Eu não precisei ver a foto dele para achar aquilo um absurdo:
-Raquel, PARA! Como se eu fosse me atrever a pensar assim do meu chefe.
Ela fez um sinal com a mão para mim para de falar e me estendeu o celular. d***a ele era bonito mesmo, mas e daí, aquele médico era o passaporte dela para a formatura antecipada, por absoluto interesse ela decidiu o tratar com o mais absoluto respeito, com o mesmo apego emcoional de uma pedra de gelo e pensar apenas nos pacientes.
O dia da viagem estava quase chegando.