Naiara . . .
Perlla: Tu tá ligada que eu sei das
paradas aqui do morro! Sei a lei, vivo
a lei, aliás, sou um dos pentes fixos do
Nem. - Assenti.
Naiara: Sei sim prima, mas não
entendo onde quer chegar.
Perlla: Olha Nai, eu juro que não
quero por você nesse caminho, a
escolha vai ser totalmente sua.
Pausou. - Mas essa seria a única forma
que tu conseguiria ajudar seu pai. Tu
receberia uma grana boa, ia fortalecer
muito!
Naiara: Fala logo Perlla, tô curiosa.
Perlla: Você poderia se entregar para
um traficante.
Meu coração acelerou quase saindo
pela boca. Automaticamente, meus
olhos se arregalaram e minhas mãos
ficaram trêmulas.
Nunca havia pensado nessa hipótese,
nunca. Aliás, eu sempre julgava Perlla
por se envolver com marginais, sabia
que aquilo acabava como futuro de
qualquer uma. Querendo ou não,
a partir do momento que você se
envolve com um bandido, você come
do mesmo prato que ele, sofre e é
julgada. Independente de você ser
Somente a mulher e não ter nada a ver,
sempre irão te julgar negativamente,
sempre irá sobrar para você. Não tem
lado bom, não tem prós e isso é o que
me deixa mais preocupada.
Naiara: Prima, eu não sirvo para
isso. Você sabe bem.. - Gagueijei. - Isso
acabaria com tudo. Com os meus
sonhos, com minha reputação e com
minha vida pessoal com Deus. Tu sabe
0 quanto zelo por isso, seria meu fim.
Perlla: Acontece prima, que se você
não fizer isso, não tem jeito de ajudar
seu pai. O tratamento é caro, os
remédios são caros. - Suspirou. - Pensa
nisso, se mudar de idéia me chama. -
Assenti, ela me deu um beijo na testa e
foi embora.
As palavras da minha prima caíram
como peso sobre mim. Eu tentava
considerar a idéia, nas hipóteses,
tentava imaginar como seria. Mas eu
não conseguia imaginar, aliás, só de
pensar nisso já me dá um certo arrepio
na espinha.
E pelo papai, para salvar ele..
Essa frase ecoava na minha mente.
E difícil para caramba saber que não
vai existir mais futuro, não vai existir
minha reputação e muito menos os
respeitos das pessoas para comigo.
Imagino os olhares a minha volta, os
julgamentos, tudo. Mas era pelo meu
pai, por sua melhora. Sei que tudo iria
de m*l a pior, porém se for para salvar
a vida do meu herói, eu faço qualquer
coisa. Eu me humilho, me torno quem
eu menos queria só para ver ele
exalando vida.
Sim. Eu, Naiara, vou mne entregar para
um traficante. Vou sofrer, vou sentir na
pele. Vou chorar, me sentir humilhada
e pisada mas irei cumprir com minha
palavra. Tudo para ver meu pai bem,
ver a alegria surgindo em seu rosto
novamente. Famlia é tudo nessa vida,
é base, é apoio e eu não aceitaria que
essa doença do papai destruísse o
nosso laço.
Não sou boba. Sei muito bem que
se meu pai viesse a falecer, iria
desestruturar tudo. Minha mãe iria
entrar em uma depressão profunda
e meu irmão iria se entregar para
esse mundo do tráfico. Não quero ver
minha família sofrer e não irei ver.
Se for preciso que eu me entregue
para um traficante para nada disso
acontecer, assim irei fazer.
**
Limpei as lágrimas que insistiam emn
descer. Encarei meu celular, pensei
duas, três, quatro vezes até ligar para
Perlla. Engoli o choro e finalmente
apertei em seu número.
Perlla: Oi prima
Naiara: 0i. Pensei em tudo o que me
disse... Vou me entregar mesmo prima,
queria que me ajudasse com isso tudo.
Sabe que eu não levo o menor jeito
para essas coisas, aliás, ninguém leva
né!
Perlla: Ah.. claro que eu te ajudo meu
amor, saiba que estou muito orgulhosa
de você, não por isso, porque sei que se
fosse por vontade própria, não estaria
nem fazendo... Mas sim pelo seu pai!
Naiara: Uhum... Quando você pode
vir me ajudar? Quero o quanto antes!
Papai tem que começar o tratamento
logo.
Perlla: Amanhã to brotando aí.
Naiara: Tá bom, beijo, te amo.
Perla: Te amo.
Desliguei a chamada e me joguei na
cama. Não quis jantar, nem nada,
estava sem fome. Não parava de
pensar um minuto em tudo o que está
acontecendo e em tudo que vou passar.
Tento me acOstumar com a idėia mas
simplesmente não dá.
Em meio a pensamentos, acabei
me deitando e peguei em um sono
profundo.
***
Acordei de manhã cedo. Perlla disse
que apareceria aqui pela manhã.
Tomei meu banho e vesti uma roupa
confortável. Fui para a sala e beijei o
rosto do meu irmão que tomava café.
Naiara: Faz tempo que não te vejo
irmão, á uns dois dias! Nem parece que
moramos na mesa casa.
Ruan: Faculdade Nana... Muito
trabalho, muita prova, pressão de
conseguir terminar os períodos..-
Assenti.
Ruan cursava administração em uma
faculdade boa do Rio De Janeiro. Ele
ganhou maior pontuação do Enem do
ano passado. Era o orgulho da nossa
família, o primeiro que conseguiu
chegar na faculdade.
Naiara: Ea Ingrid? Como ela está? -
Perguntei e ele deu um sorriso bobo.
Meu irmão estava apaixonado mesmo,
essa menina fisgou ele de vez.
Ruan: Está bem. Estamos muito bem...
Sorri.
Ouvi me gritarenm de lá de fora.
Presumi ser Perlla e fui até lá
correndo. Mas uma coisa que ela sabia
fazer era gritar! Essa peste parecia que
tinha um microfone na guela, Deus me
livre.
Naiara: Jjá pode parar de gritar! Tá
achando que sou o que? Surda? - Ela
beijou o meu rosto e riu.
Perlla: Sem babado nenhum.. Revirei
Os olhoS por conta da sua gíria.
Chamei minha prima para ir até o meu
quarto e tranquei a porta. Não podia
correr risco de alguém saber que estou
planejando tudo isso, tudo iria por
água a baixo.
Perlla: Tudo no esquema prima. Falei
com o sub que é até um chegado meu,
não tanto, mas é! Ele topou na boa. -
Mordi os lábios. - Mas ele deixou bem
claro que é só pente e rala, tá ligada?-
Arregalei os olhos.
Naiara: Com que cara vou olhar para o
Perigo Perlla? Meu Deus! Ele sabe que
eu sou filha do pastor, conhece tudo,
já foi lá na igreja fiscalizar, me salvou
daquela vez do homem que iria me
assediar.
Perlla: Perigo vê milhares de pessoas
por dia! Duvido que ele lembre de
você. Tu tem é sorte que eu não escolhi
o Nem! Só porque ele é meu. - Balancei
a cabeça negativarmente.
Naiara: Prima..você sabe que é a
minha primeira vez! Não sei como
toca-lo, Como vou fazer... Como vou
agir? Tenho medo... E se doer muito?
- Perguntei nervOsa, ela segurou na
minha mão a apertando firme.
Perlla: More! Primeira vez dói para
caralho para qualquer uma! Seja sendo
com um bandido ou não. - Riu. - Seja
natural cara! Se ele permitir beijar,
beije, isso distraí a hora do vamo ver,
deixando tudo mais envolvente e
natural.
Naiara: Não sei se consigo...
Perlla: Claro que consegue! - Sorriu. -E
eu trouxe um presentinho. - Balançou a
sacola preta que estava em suas mãos.
Ela me deu, abri aquela sacola dando
de cara com um plástico transparente.
Dentro dele parecia ter um tipo de
roupa íntima, abri o mesmo, era uma
lingerie vermelha, minúscula. Fio
dental, meio transparente. Fiz uma
careta.
Naiara: Tá sabendo que não vou usar
isso né?
Perlla: Naiara, prima querida, você
quer usar o que? Essas calcinhas cor
de pele horrorosas? Pelo amor de Deus
minha prima! Vamos evoluir. - Revirei
OS olhos.
Naiara: Chata!
Para a minha tristeza e nervosismo,
ainda recebi a notícia de que iria ter
que me encontrar com o Perigo hoje.
Eu já me tremia todinha, meus queixos
batiam. A ansiedade estava aflorada
em mim. Odiava essa idéia! Odiava
esse plano.
Acabei faltando aula pois Perlla
pediu. Ela fez escova no meu cabelo,
minhas unhas e ainda me obrigou
a me depilar. Só sei que ela falava
várias coisas comigo, mas eu estava
tão avoada, tão longe dalí que não
conseguia nem ouvir o que ela dizia.
Nada faz sentido, sinto que perdi
minha verdadeira essência, tudo
que eu me orgulhava se foi, em um
instante.
Pus a lingerie vermelha, o macacão
que ela havia comprado para mim e
calcei uma rasteirinha de pedrinhas.
Deixei meus cabelos lisos e negros
solto, não passei nada no rosto,
somente um pouco de rímel, nada
mais. Perlla insistiu em passar mais
coisas mas eu não deixei.
Eu disse para mamãe que eu iria para
uma célula na igreja de uma amiga e
saí de casa com a Perlla. Ela me disse
que a casa do Perigo era no alto do
morro, bem longe da minha. Fomos
andando. No caminho fui orando,
falando com Deus, para acalmar meu
coração quanto a isso, nem percebi
quando chegamos em frente.
Na mesma hora eu me tremi todinha.
O arrependimento bateu e minha
vontade era de dar meia volta e ir
embora daquele lugar. Mas não é tão
fácil assim. Existe obrigações e uma
pessoa que depende de mim para
viver, para melhorar. E eu faria isso
pelo meu pai, somente por ele! Deus
iria me ajudar, nada é por acaso. . .