PRÓLOGO: A JOIA DO IMPÉRIO E O CANTO DO LOBO
O silêncio no topo do Complexo do Turano nunca era um silêncio de paz. Era um silêncio de espera. Aquele tipo de quietude pesada que precede o estalo do fuzil ou o grito de quem vacilou com a lei do morro. Lá embaixo, a favela pulsava: o radinho chiando na cintura dos vapores, o ronco das motos cortando os becos e o eco distante de um proibidão que anunciava que a noite seria de estralo. Mas ali, dentro da mansão blindada que coroava a parte mais alta da comunidade, o som era outro. Era o som do gelo batendo no cristal do copo de uísque de mil reais e o tilintar das joias de ouro maciço que pesavam no pescoço de Samira.
Ela encarava o espelho de moldura vitoriana no quarto principal, mas não via a mulher poderosa que o asfalto temia e o morro respeitava por obrigação. Ela via uma prisioneira adornada. O vestido de seda vermelha abraçava suas curvas como se fosse uma segunda pele, moldado exatamente para o prazer de um único homem. Augusto, o vulgo Imperador, não aceitava nada menos que a perfeição absoluta. Para ele, Samira não era uma esposa, uma parceira ou um amor; ela era um estandarte. O símbolo vivo de que ele tinha vencido a vida, o crime, a polícia e o destino. Ela era a prova de que o Imperador podia ter o que quisesse, a hora que quisesse.
— Tá olhando o quê, Samira? Tá procurando um defeito onde eu já disse que não tem? — A voz do Imperador ecoou, grossa, vindo da porta.
Ela não se virou de imediato. Pelo reflexo, viu a silhueta maciça do homem que comandava o Turano com punho de ferro e um fuzil de ouro. Ele estava de regata preta, exibindo as tatuagens que contavam a história de cada guerra que ele sobreviveu. O cordão de ouro com o pingente de coroa brilhava contra o peito suado, e a pistola de ouro, personalizada com o vulgo dele, estava enfiada no cós da bermuda tactel. Ele caminhou até ela com o passo pesado de quem é dono do chão que pisa. As mãos grandes e calejadas pousaram nos ombros dela, apertando a carne com uma força que sempre beirava a agressão, camuflada de carinho.
— Olhando o quanto eu mudei, Augusto. Olhando pra essa mulher que tu montou como se fosse um quebra-cabeça. — ela respondeu, a voz baixa, mantendo a postura de primeira-dama que ele tanto exigia.
— Tu não mudou, Samira. Tu foi lapidada. — Ele inclinou a cabeça, enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando o perfume importado misturado com o cheiro da pele dela. Era um rastro de possessão que a fazia arrepiar, mas não era o arrepio do desejo; era o instinto de uma presa sentindo o bafo do predador. — Tu é a minha rainha. E rainha de rei nenhum vira estatística. Por isso que a partir de hoje, a visão mudou. O morro tá em brasas, os alemão tão tentando uma entrada por baixo, pelo acesso da mata, e eu não vou deixar tu exposta nem um segundo.
Samira finalmente se virou, os olhos castanhos queimando com uma faísca de revolta que ela tentava apagar há anos.
— Mais segurança, Augusto? Pelo amor de Deus! Já tem dez soldados plantados na minha porta 24 horas por dia. Eu não consigo nem ir na varanda sem parecer que tô indo pro banho de sol em Bangu 1. O povo do morro já olha pra mim como se eu fosse um fantasma dentro dessa casa.
O Imperador soltou uma risada seca, um som sem nenhuma alegria, que ecoou pelas paredes de mármore.
— Soldado é bucha de canhão, Samira. Soldado se emociona, soldado se vende por qualquer dez mil ou por uma raba de asfalto. Tu precisa de elite. Tu precisa de alguém que pense antes de atirar, mas que não erre o tiro quando decidir que alguém tem que cair. — Ele caminhou até a varanda, olhando para o mar de luzes da favela lá embaixo, onde ele era o deus absoluto. — Renan tá subindo. O Caçador. O cara é o meu melhor elemento, a minha sombra na guerra. A partir de agora, ele vai ser a tua sombra. Onde tu pisar, ele pisa. Se tu for pro banho, ele fica na porta. Se tu for dormir, ele fica na contenção do corredor. Se tu respirar, eu quero que ele sinta o cheiro do teu fôlego.
O nome "Caçador" bateu nos ouvidos de Samira como um trovão antes da tempestade. Todo mundo no Turano conhecia a fama do cara. O braço direito do Imperador, o homem que não tinha família, não tinha amigos, não tinha medo e, segundo os boatos dos becos, tinha arrancado a própria alma pra não sentir pena de ninguém. Ele era o tipo de sujeito que entrava no meio do fogo cruzado da Core só pra buscar uma carga extraviada e saía sem um arranhão, com o cigarro ainda aceso na boca.
— Ele é um bicho, Augusto. Um animal que tu treinou pra matar. Tu vai colocar um bicho desses dentro da nossa i********e? — Samira sentiu um frio estranho na espinha, uma premonição que fez suas mãos tremerem de leve.
— Ele é o meu bicho, Samira. Treinado pra morder quem eu mandar e lamber a mão de quem eu autorizar. E ele vai cuidar do que é meu com a vida dele. Se tu perder um fio de cabelo, é a cabeça dele que rola. Ele sabe disso.
Minutos depois, o clique seco do ferrolho da porta de entrada e o som das botas táticas no chão de porcelanato anunciaram que o destino tinha chegado. Samira estava na sala principal, sentada no sofá de couro legítimo, fingindo ler uma revista de moda, mas seus sentidos estavam todos travados na entrada.
O homem que atravessou o portal não parecia um soldado comum do tráfico. Renan, o Caçador, não usava camisas de time ou correntes espalhafatosas. Ele vestia uma calça tática preta desgastada e uma camisa de malha fria que marcava os músculos rígidos e fibrosos. O fuzil AR-15 estava atravessado nas costas, pendurado pela bandoleira com uma naturalidade que mostrava que aquela arma era uma extensão do seu corpo. Ele não tinha joias, não tinha ostentação, não tinha sorriso. A única coisa que brilhava nele eram os olhos: duas pedras de gelo cinzento que pareciam mapear cada centímetro da sala em busca de uma ameaça, de uma rota de fuga ou de uma fraqueza.
— Tá entregue, Patrão. Missão dada é missão cumprida. — Renan falou, a voz rouca, num tom grave que não era de submissão, mas de um respeito profissional gelado.
— Visão, Caçador. Chegou na hora certa. — O Imperador se aproximou e bateu no ombro do segurança com força, num gesto de camaradagem que Renan m*l sentiu. — Essa aqui tu já conhece de vista, mas agora o papo é outro. Essa é a Samira. Minha vida, minha relíquia, o meu ponto fraco que eu não admito que ninguém toque. A ordem é curta e grossa: se alguém encostar nela, tu apaga a árvore genealógica do infeliz. Se ela tentar sair sem me avisar, tu me liga na hora. Se ela tossir diferente, eu quero saber. Tu é os meus olhos onde eu não estiver. Entendeu o papo reto ou quer que eu desenhe?
O Caçador finalmente desviou o olhar do Imperador e fixou em Samira. Foi como se o oxigênio do cômodo tivesse sido sugado por um vácuo. Ele não olhou pra ela como os outros soldados olhavam — com aquele medo reverencial ou com uma cobiça escondida por trás dos óculos escuros. Ele a olhou como quem analisa uma presa de alto valor. Um olhar que despia a seda vermelha, que atravessava a pose de primeira-dama intocável e enxergava, lá no fundo, a mulher que gritava por socorro em silêncio.
— Entendido, Imperador. — Renan respondeu, sem desviar os olhos dela nem por um milésimo de segundo. — A senhora tá segura comigo. Onde ela for, o perigo não entra.
Samira sentiu um calor súbito subir pelo pescoço, tingindo sua pele de um rosa que ela tentou esconder baixando o rosto. Não era segurança o que aquele olhar prometia. Era algo muito mais sinistro e, ao mesmo tempo, terrivelmente atraente. Era o tipo de olhar que prometia o inferno, mas um inferno que parecia mil vezes mais vivo que o céu de plástico e tédio que o Augusto tinha montado pra ela.
O Imperador, cego pela própria arrogância e achando que o Caçador era apenas uma ferramenta de guerra, deu um beijo possessivo e estalado na testa de Samira, ajustou o fuzil na bandoleira e saiu para a boca de fumo principal. As portas se fecharam, e o silêncio que ficou na sala era tão denso que dava pra ouvir a respiração de cada um. Só ficaram os dois. A mulher do dono e o homem que deveria ser sua sombra oficial.
Samira se levantou, tentando recuperar a autoridade que o olhar dele tinha roubado.
— Pode ficar no posto lá fora, Renan. O monitoramento das câmeras é lá na guarita lateral. Eu não pretendo sair hoje, nem amanhã, nem nunca, pelo visto.
O Caçador não se moveu em direção à porta. Em vez disso, ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele era alto, imponente, e o cheiro dele — uma mistura bruta de tabaco, pólvora, metal e um perfume amadeirado que parecia impregnado na pele — invadiu o espaço pessoal dela.
— A ordem do Patrão foi pra não sair do teu lado, Samira. — Ele falou o nome dela com uma lentidão que parecia uma carícia proibida, fazendo o nome soar novo nos ouvidos dela. — "Lá fora" é longe demais. Eu só trabalho com o que eu posso tocar.
— Tu tá querendo dizer que vai ficar aqui dentro? No meu espaço? Comigo? — Ela cruzou os braços sobre o peito, uma tentativa falha de se proteger do magnetismo dele. — Tu esqueceu quem eu sou, Caçador? Eu sou a mulher do homem que te tirou da lama e te deu o cargo que tu tem hoje. Se eu der uma palavra, o Augusto te joga no micro-ondas sem pensar duas vezes.
Renan deu mais um passo. Agora, ele estava tão perto que Samira conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele, uma fornalha de adrenalina e testosterona. Ele se inclinou, falando baixo, quase roçando os lábios no ouvido dela, enquanto a mão dele, calejada pelo gatilho e marcada por cicatrizes de guerra, roçou "sem querer" no tecido fino da seda vermelha no seu quadril.
— Eu sei exatamente quem tu é, Samira. Tu é a mulher que o Imperador acha que possui porque botou um anel no teu dedo e um exército na tua porta. Mas posse... posse é uma ilusão de quem é fraco. — Ele soltou uma risada sombria, um som que vibrou dentro dos ossos dela. — Tu pode ter o corpo de alguém num contrato, numa cama, num morro inteiro... mas a vontade? A entrega? Isso só pertence a quem tem coragem de caçar de verdade. E eu sou um caçador que não volta pra casa com a mão vazia.
Ele se afastou antes que ela pudesse ter qualquer reação, voltando para uma posição de guarda perfeita perto da porta, o rosto voltando a ser aquela máscara de gelo inexpressiva. Samira ficou ali, parada no meio da sala cinematográfica, o coração batendo tão forte que ela achou que o Caçador pudesse ouvir o ritmo frenético.
A dúvida começou a queimar como ácido na mente dela, corroendo as certezas que ela tinha construído pra sobreviver ao lado de Augusto.
O Imperador a amava, ou apenas amava o fato de ela ser a única coisa que ele não podia comprar com dinheiro, mas sim com medo? Ele era seu protetor ou o carcereiro que pagava o seu salário? E o Caçador... ele era o perigo de que ela precisava se esconder desesperadamente, ou era a libertação sombria que ela estava secretamente esperando durante todos esses anos de tédio e ouro?
Ela olhou para o segurança. Renan agora encarava o nada, o perfil rígido, a mão descansando sobre a arma com uma i********e assustadora. Ele parecia a personificação da lealdade absoluta. Mas Samira sabia, sentia no fundo da sua alma marcada, que naqueles olhos de gelo a lealdade ao Imperador era apenas uma fachada conveniente. A verdadeira guerra não era pelo controle do Complexo do Turano ou pelas rotas do tráfico. A verdadeira guerra tinha começado ali, naquela sala de mármore, entre a honra de uma esposa que não aguentava mais e a obsessão de um homem que já tinha perdido tudo e não tinha mais medo do inferno.
Samira caminhou em direção às escadas, sentindo o peso do olhar do Caçador queimando em suas costas a cada degrau, como se ele estivesse marcando o território dele nela. Ela sabia que, a partir daquela noite, o sono não viria mais. Porque, pela primeira vez em anos, ela não se sentia apenas "a mulher do chefe". Ela se sentia uma caça. E o pior de tudo, a dúvida aterrorizante que a faria trair cada juramento era a percepção de que ela estava louca para ser encurralada.
No Turano, a lei era escrita com sangue: traição se pagava com a vida, sem conversa. Mas enquanto ela entrava no quarto e fechava a porta, ouvindo o clique seco da bota do Caçador se posicionando no corredor, do lado de fora do seu santuário, Samira só conseguia pensar em uma coisa proibida.
Se o amor do Imperador era uma prisão de luxo, talvez o pecado com o Caçador fosse a única forma de se sentir viva de novo.
A guerra estava declarada, não no asfalto, mas dentro da mansão. O império de Augusto estava prestes a sofrer a maior invasão de todas: uma que vinha de dentro, movida pelo desejo que o fuzil não podia parar. O Caçador já tinha feito sua escolha. Ele tinha mirado. E o Turano ia descobrir que, quando ele mirava, o estrago era permanente.
E aí, minhas relíquias... O jogo começou no Turano e a chapa tá quente!
De um lado, o IMPERADOR: O dono do morro, o poder absoluto, o homem que dá o mundo pra Samira, mas tranca a gaiola com cadeado de ouro.
Do outro, o CAÇADOR: O perigo que mora dentro de casa, o homem que não segue leis e que já avisou que não aceita ser apenas uma sombra.
A Samira tá num beco sem saída, e agora eu quero saber de vocês: De qual lado vocês estão nessa guerra de possessão?
🔥 #TimeImperador: Pelo poder e pela proteção do dono do morro?
🎯 #TimeCaçador: Pelo fogo do proibido e pelo olhar do segurança?
Comentem aí quem vocês acham que vai ganhar essa caçada?