Capitulo 15

1000 Words
Eu puxei meu braço com força, e dessa vez ele deixou escapar, mas o calor dos dedos dele continuava queimando na minha pele. Fiquei ali, massageando o local, sentindo meu coração martelar frenético contra as costelas. A insolência dele era um tapa na minha cara, mas o jeito que ele me encarava, sem medo nenhum das consequências ou do Augusto, me deixava em curto-circuito. O Augusto me tratava como propriedade guardada; o Caçador me tratava como se eu fosse um prêmio que ele já tinha decidido reivindicar. — Apenas ande atrás de mim e fique em silêncio. Você está me irritando — ordenei, tentando recompor minha máscara de gelo enquanto entrava no shopping. — Atrás não, morena. Do lado. — Ele caminhou ao meu lado, o fuzil curto escondido sob o casaco tático, a mão sempre perto da cintura, pronto pro estalo. — Eu não perco o rastro do que eu quero caçar. E eu já te falei: tu é a minha relíquia hoje. Entramos no shopping e o luxo das vitrines de grife parecia opaco perto do incêndio que estava começando entre nós dois. A cada passo, eu sentia a presença dele me sufocando, aquele corpo rígido e treinado se movendo em perfeita sincronia com o meu, como se estivéssemos numa dança perigosa. Minha paciência tinha estourado; eu não era acostumada a ser peitada por soldado, muito menos de forma tão íntima e vulgar. Parei em frente a uma vitrine espelhada, usando o reflexo para encarar aquele rosto de mármore. — Eu exijo respeito, Renan. Não me chama de "morena", me chama de senhora ou de patroa. — Falei baixo, com a voz carregada de uma autoridade que eu tentava desesperadamente recuperar. — Você é um funcionário, recebe o soldo do meu marido. Não esquece que a mão que te alimenta é a mesma que pode mandar te enterrar no alto do lixão antes do sol se pôr. Em vez de recuar diante da ameaça, ele deu um passo que eliminou qualquer rastro de ar entre nós. Senti o calor do peito dele contra o meu braço, uma parede de músculos. Ele se inclinou, a boca chegando perigosamente perto da minha orelha, o hálito quente fazendo cada poro do meu corpo se arrepiar contra a minha vontade, uma traição física que eu não conseguia controlar. — Se tu soubesse o que eu quero fazer com você agora, patroa... — O tom dele era um sussurro sombrio, rouco, uma vibração vulgar que viajou direto pela minha espinha. — Garanto que o teu maior medo não ia ser o meu desrespeito. Ia ser o quanto tu ia gostar de perder o controle nas minhas mãos, de sentir o que é um homem de verdade sem precisar de fuzil de ouro pra se sentir grande. Meu coração deu um salto violento, quase saindo pela boca. Eu tremia por dentro, uma mistura de fúria e uma curiosidade proibida que me aterrorizava. Mantive o olhar fixo no dele pelo reflexo, tentando não demonstrar o quanto aquela audácia estava me desestabilizando. — O Augusto vai adorar saber que você está dando em cima da mulher dele. — Rebati, tentando usar o nome do meu marido como um escudo, embora o escudo estivesse rachando. — Basta uma ligação minha e você não sai vivo desse estacionamento. Ele não perdoa traição, Renan. Ele vai te caçar até no inferno. O Caçador soltou uma risada curta, seca, desprovida de qualquer humor. Ele me olhou de cima a baixo com um desdém que era puro desafio, uma arrogância de quem já aceitou o próprio destino e não teme nada que venha de um homem como o Augusto. — Tu pode ligar, Samira. Mete a mão no celular e faz o informe. — Ele se aproximou ainda mais, os olhos cinzentos brilhando com um veneno novo. — Mas se liga na visão de quem conhece a mente do patrão: no mundo que a gente vive, o Augusto é paranoico. Se o circo pegar fogo, eu vou negar. Vou dizer que é você que tá me tentando, que tá dando em cima de mim só pra provocar o patrão porque tá carente, porque ele te troca por p*****a no baile. Quem tu acha que ele apaga primeiro? O soldado de elite que nunca falhou e que segura a guerra pra ele, ou a boneca de luxo que ele acha que pode substituir por qualquer outra novinha do morro em dez minutos? Eu senti meu rosto esquentar de raiva e de uma vergonha que eu não sabia explicar. O pior de tudo, o que mais doía, era saber que ele tinha razão. O Augusto era c***l o suficiente para acreditar que a culpa era minha, só para não admitir que foi traído pelo seu melhor homem. Ele me mataria só por eu ter sido "cobiçada". — Você é um desgraçado... um animal — sussurrei, a voz falhando por um milésimo de segundo, revelando a minha vulnerabilidade. — Eu sou o cara que tá vendo o que tem por trás dessa seda toda e desse ouro, Samira. Eu vejo a tua fome. — Ele se afastou minimamente, mas manteve a mão no meu quadril por um segundo a mais do que o necessário, um toque possessivo, pesado, que queimou através do linho como brasa. — Agora para de latir e entra na loja de uma vez. O tempo tá passando e o teu dono tá esperando o informe no rádio. Faz as tuas compras, gasta o dinheiro dele, mas não esquece quem é que tá aqui sentindo o teu cheiro. Ele se afastou e indicou a porta da loja com um gesto de cabeça, voltando instantaneamente para a postura de segurança impecável, mas o estrago já estava feito. Entrei na loja com as pernas trêmulas, o cheiro dele ainda impregnado em mim. Eu era a rainha do Turano, mas naquele momento, eu me sentia como a caça que acabou de perceber que o predador não quer apenas matá-la, ele quer devorá-la por inteiro.
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