Capitulo 5

1080 Words
Cheguei à porta bufando, parecendo que tinha corrido uma maratona usando um roupão de seda. Olhei pelo olho mágico. O meu destino tinha nome, sobrenome e uma jaqueta de couro que eu queria muito arrancar dele, mas não agora. Rocco. Encostado na parede do corredor, com o capacete embaixo do braço e os óculos escuros. Dentro do corredor do prédio! O cara achava que morava num editorial da Vogue. Bonito. Ridiculamente, absurdamente bonito. O tipo de beleza que deveria ser punível por lei porque irritava a minha capacidade de raciocínio lógico. — Droga... — bufei. Passei a mão no cabelo, no rosto, e só então percebi que ainda tinha farelos de croissant grudados na minha bochecha. Limpei tudo com a manga do roupão, tentando disfarçar. Olhei meu reflexo no espelho da entrada. Pijama por baixo, roupão por cima, cabelo de quem foi atacada por um ninho de mafagafo, olheiras que davam inveja em qualquer panda. Cara de doente. Pelo menos a mentira colava visualmente. Abri a porta apenas uns cinco centímetros, o suficiente para ele ver a minha cara de desolação. — Rocco... — forcei uma voz fraca, um sussurro de quem está nos últimos suspiros. — O que você está fazendo aqui? Ele abaixou os óculos até a ponta do nariz e me lançou aquele sorriso torto. Aquele sorriso deveria ter um imposto próprio, de tão caro que custava para a minha sanidade. — Trouxe remédio — ele disse, balançando a sacola da farmácia. — E sopa. Dizem que cura qualquer gripe. — Sopa? — murmurei, tentando não rir da audácia. — Trouxe até refrigerante. — Você veio mesmo... — falei, me sentindo meio i****a. — Claro. Eu sou um homem de palavra, Tati. — Eu falei que era contagioso. — Também falou que estava morrendo. — Exatamente. — Então alguém precisava cuidar de você, ou você ia acabar se afogando na própria baba. Antes que eu pudesse inventar mais um argumento, ele empurrou a porta com o ombro. Não foi uma invasão agressiva, foi aquele tipo de invasão de quem é dono da casa. Ele entrou, fechou a porta e começou a escanear a minha sala como se estivesse avaliando o imóvel. Meu coração bateu tão forte que eu achei que ia saltar pela garganta e sair correndo pelo corredor. Os olhos dele passearam pelo sofá, pela televisão, e finalmente pararam na bandeja. Silêncio. O sangue gelou nas minhas veias. Lá estava ele. O banquete francês, impecável, organizado, claramente não condizente com uma pessoa que estava "morrendo de virose". Rocco caminhou até a mesa. Ele não disse uma palavra. Pegou um croissant, olhou para mim, olhou para o pão, olhou para mim de novo. — Ué... — ele mordeu. Devagar. Mastigou olhando diretamente nos meus olhos, com uma tranquilidade que me deixava em chamas. — Interessante. — O quê? — perguntei, engolindo em seco. — Achei que você estava morrendo. — Estou. — De barriga cheia, pelo visto. Fechei os olhos. Pronto. Acabou. Minha carreira de mentirosa tinha terminado ali. Minha reputação de "mulher ocupada e doente" estava em frangalhos. — É que... — comecei a balbuciar, tentando salvar o pouco que restava da minha dignidade. — Humm? — Isso... — apontei para o croissant, como se ele fosse uma peça de museu. — É terapêutico. — Terapêutico? — Sim. Receita médica. Ele soltou uma risada que me deixou com mais raiva ainda. — Tatiana, você inventa umas mentiras muito criativas, preciso admitir. — Obrigada. — Isso não foi um elogio. — Eu aceitei como um, então conta. Ele deu outra mordida, parecendo que estava saboreando a minha desgraça tanto quanto o pão. — Muito boa essa... terapia. Cruzei os braços, tentando não parecer a mulher desesperada que eu realmente era. — Você está comendo meu remédio, sabia? — Estou salvando sua dieta. — Eu não faço dieta. — Percebi. Revirei os olhos com tanta força que quase vi o meu cérebro. Ele deixou a sacola de remédios na mesa e começou a caminhar em minha direção. Devagar. Sem pressa alguma. Ele parava, olhava ao redor, e continuava. Quando finalmente parou na minha frente, ele ergueu a mão e encostou os dedos na minha testa. Eu fiquei imóvel, rezando para que a minha temperatura não estivesse subindo por puro nervosismo. — Estranho... — ele murmurou. Depois tocou meu pescoço. — Sua pele está fria. Meu coração deu um salto. — É... porque... — eu estava tentando pensar em uma desculpa física, algo sobre a circulação, mas o meu cérebro tinha entrado em greve. — Mas seu pulso... — os dedos dele permaneceram ali, pressionando suavemente, sentindo as batidas descompassadas. — Está acelerado. Forcei um sorriso nervoso. — Efeito colateral. — Da gripe? — Não, da... — pensei rápido, quase explodindo. — Da virose turbo. Ele arqueou uma sobrancelha, parecendo genuinamente curioso com a minha nova patologia inventada. — Virose turbo? — É a nova variante. Acabou de sair. Super contagiosa, super rápida, causa uma fome absurda por coisas francesas. — Ah... — ele cruzou os braços, me analisando com aquele olhar que parecia ver através das minhas camadas de mentiras. — Então ela faz a pessoa comer café chique, ficar perfumada e usar roupão de seda? Ele se aproximou mais, cheirando meu cabelo discretamente. Eu quase desmaiei. — Exatamente. É uma doença muito cara. Ele riu e, sem me pedir permissão, caminhou tranquilamente até o meu quarto. — Ei! — gritei, seguindo ele. — Onde você vai? Nem olhou para trás. Empurrou a porta, entrou e, quando eu cheguei lá, ele já estava sentado na minha cama, testando a maciez do colchão. Depois, simplesmente se jogou para trás, com as mãos atrás da cabeça, como se aquele apartamento fosse dele. — Confortável... — ele comentou, olhando para o teto. — Rocco, levanta agora! O que você está fazendo? — Cuidando da paciente. O repouso é a parte mais importante. — Da porta para fora, Rocco! — Prefiro daqui. Tem uma vista melhor da paciente. — Você não pode invadir meu quarto! — Posso. Acabei de invadir. Cruzei os braços, irritada, mas ao mesmo tempo querendo rir da situação patética em que eu estava. Eu tinha mentido para dois homens, inventado uma doença, recebido um café da manhã de luxo e agora estava com um motoqueiro teimoso deitado na minha cama, às sete da manhã, enquanto o meu namorado magnata provavelmente ia ligar a qualquer momento. Eu definitivamente precisava de um terceiro celular. Para ligar diretamente para um terapeuta.
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