CECÍLIA STEIN
Assim que chegamos na entrada do morro vejo duas mulheres andando mais a frente. Uma senhora e uma mulher de cabelo claro. Apresso o passo e me aproximo delas.
Elas viram o rosto sorrindo na nossa direção porém um pouco desconfiadas.
Ceci: Oi... desculpa, é que... meu carro foi roubado hoje e o GPS apontou que ele tá aqui. Vocês sabem se tem alguém que eu possa falar?
Elas se entreolham e uma arqueia a sobrancelha, a outra aponta com o dedo um local mais acima.
- Tenta ali pra cima. Costuma ficar uns rapazes perto do bar do Moringa. Mas vai com cuidado, moça - a senhora fala e me abre um sorriso.
Agradeço retribuindo o sorriso e vou na direção indicada por ela. Meu tênis escorrega um pouco na calçada inclinada mais sigo subindo.
Quando viramos na direção apontada, vejo uns caras encostados no muro, um deles com um fone enfiado numa orelha e uma garrafinha de bebida na mão. O outro tá mexendo no celular. Mas assim que nos aproximamos, eles gritam nos encarando.
— Qual foi das duas aí? — um grita lá de cima.
— Manda teu vulgo aí, pô. — outro fala, de bracos cruzados.
Ceci: Cecília... e a minha amiga aqui é a Bárbara.
— E tão colando aqui pra quê? — o que tava com a garrafa na mão pergunta.
Ceci: Vim buscar meu carro que foi roubado hoje no Leblon por dois moleques. E o sinal do GPS tá dando aqui. Então eu vim buscar ele de volta. - falo seria, tentando segurar o nervosismo.
Eles se entreolham e começam a rir. Alto. Gargalhando mesmo.
Ceci: Qual a graça? - levanto o queixo, cheia de marra por fora, mas por dentro a perna dando sinal de que vai falhar.
Babi me cutuca, tremendo, e sussurra um "não fala nada pelo amor de Deus" que só eu ouço.
O cara que tava encostado no muro larga a garrafa, se afasta, e começa a andar na nossa direção. A luz do poste revela o fuzil pendurado na lateral do corpo dele, preso por uma alça que balança devagar enquanto ele caminha.
Bate o pavor. Bate o medo real. Parece que tudo que eu ignorei pra vir até aqui despenca de uma vez. Minha bixiga enche, a boca seca, e o medo do meu pai vira o menor dos meus problemas agora.
- Abaixa tua bolinha, patricinha. Aqui não é shopping não, morô? Passa o telefone tu e a tua amiga.
Dois outros já encostam rápido, um deles passando a mão na minha cintura, me revistando como se a criminosa fosse eu e não eles. Reprimo um "não encosta em mim" porque também não sou burra.
Entrego o celular, Babi também. Ele pega, pede a senha. A gente passa. Eles começam a mexer.
- Ihh, olha as fotos dessa aqui, mano - diz um, mostrando o visor pro outro. - Cês são blogueira, é? - pergunta com um sorriso na cara.
Babi: Parece que conseguimos ser roubadas duas vezes em menos de vinte e quatro horas.- sussurra no meu ouvido. Me fazendo apertar os lábios segurando o riso.
Nisso um loiro com uma tatuagem de palhaço gigante no peito atravessa a rua já metendo o olhão na Bárbara.
- iPhone 16, roupa de marca... cês tão fazendo o quê aqui no Cruzeiro Alto? Tão perdida? - fala sério, sua beleza e meio duvidosa mais a voz é bonita.
Babi: Eu... quer dizer .. Ela .. foi roubada... eu só vim junto. A... gente... só veio recuperar o carro dela. - fala toda enrolada, tropeçando nas palavras como se a língua tivesse escorregado do céu da boca.
A vontade de rir é tão grande que eu mordo a parte de dentro da bochecha só pra me controlar. A cara dela ta impagável. E pra melhorar, o loirinho meteu um olhar nela que, sinceramente, se fosse medido em intensidade, dava pra fritar um ovo no chão só com o calor.
Ele olha pra ela como se fosse comer a menina vestida. Esse deve ser do tipo que arranca a embalagem com os dentes penso enquanto seguro o riso. A bichinha chega a travar. Literalmente. Nem pisca a coitada. Tá branca. Quase desmaiando. Tadinha.
Ela é virgem e toda certinha, queria tá na mente dela agora. Acho que o máximo de perigo que ela enfrentou na vida até hoje foi atravessar fora da faixa.
- Tem coragem, hein. Brotar aqui no escuro, meter o louco com bandido... é poucas que faz essa p***a. - fala sem tirar os olhos dela - Mas aqui, princesa, ninguém recupera nada não - me devolve o olhar e me encara frio - Todo dia alguém perde. Hoje foi tu. Na próxima, fica esperta pra não perder denovo.
Fala e sai me dando as costas começando a andar pra onde veio.
Sério, meu sangue ferve.
Ceci: Vontade meter uma pedra nesse cabeçudo - falo entre os dentes, baixinho.
Era só pra Babi ouvir porém ele escuta e volta.
- Engraçadinha pra c*****o, hein? Tô rachando de rir. - fala todo estourado, e só o seu tom de voz já me arrepia da nuca até a alma. - Também tô com vontade de estourar teus miolos. E aí??
Então ele tira a arma da cintura. Sabe aquele segundo que tudo desacelera? Tipo cena de filme quando o tempo congela? Foi isso. O clique da arma foi tão alto que pareceu ecoar dentro do meu cérebro, e meu corpo congelou. Literalmente. Só senti minhas pernas bambearem e os braços se erguerem por instinto, como se pudessem me proteger de alguma coisa. Como se adiantasse alguma coisa.
Fecho os olhos na hora. Sério. Na minha cabeça já ta tudo pronto: o enterro, minha irmã desmaiando, o Tino Junior anunciando que encontraram o corpo de uma menina que foi morta na Favela do Cruzeiro Alto enquanto tentava recuperar o seu carro roubado.
Ele pega os celulares e devolve pra gente.
- VAZA DAQUI ANTES QUE EU MUDE DE IDEIA! E METO UMA RAJADA NA TUA CARA! - ele berra tão alto que o ar quente da raiva dele bate no meu rosto.
Eu e a Bia saímos andando sem pensar, tropeçando nos próprios pés, com o coração socando no peito igual sirene de ambulância. Queria chorar... mas só consigo andar.
Babi: E agora amiga? - pergunta andando apressada junto comigo.
Ceci: Não sei!