— Você acha que isso vai dar certo?
— Me diz quando eu tenho uma ideia que não dá certo?
Ela protela um pouco e eu reviro os olhos.
— Aquela vez, lá no México que você disse que nós podíam...
— Era uma pergunta retórica! Não era para relembrar algo que aconteceu há tempos! — Resmungo. — E, a propósito, já não era para você ter ido embora? — Olho fixamente para a câmera e escuto a risada da Melina soar nas caixinhas de som.
Faz alguns minutos que cheguei da casa do Gabriel, depois de mostrar os meu termos e o fazer assinar aquele "contrato".
Olhá-lo e não desejar ter aqueles braços fortes e delineados pelo terno caro, me rodeando com força e os lábios avermelhados provocando arrepios no meu pescoço... Ah.
Porque sempre tem que ter algo difícil no meio das minhas coisas?
Quando eu recebi o trabalho, pensei que seria a coisa mais fácil do mundo. E realmente espero que seja. Só quero tirar uma boa casquinha de tudo aquilo antes de fazer o certo. E uma "casquinha" significa um contrato de duas semanas de sexo.
Não sexo comum, eu quero algo diferente.
Os sete prazeres.
Uma situação que se encaixe em cada pecado capital.
Porque, se é para ir pro Inferno com tudo que fiz e faço, que seja com um sorriso no rosto e satisfeita com as lembranças. E essa festa de hoje a noite, — que eu praticamente o obriguei a fazer — é parte do plano.
Vocês achavam que eu não tinha um plano, não é?
Eu sempre tenho um plano.
— Suba aqui, Karson. — Olho para a câmera acoplada no teto do meu quarto e suspiro, soltando todo o ar que consigo. Eu não podia descansar nenhum pouquinho? Estava esparramada na minha cama, pensando em o que e como vou fazer. Planejamento é tudo na vida de uma pessoa como eu. Por mais que, às vezes, não os siga. — Karson?
Bufo como uma adolescente birrenta, me dirigindo ao box do banheiro. Aperto o botão atrás da saboneteira e relaxo os ombros, olhando para o ambiente subir de andar. Assim que para na frente do escritório da Melina, saio.
Só queria estar pensando em quão louca estou sendo em me meter nessa história toda.
Estaciono na frente da enorme mesa de vidro, encarando a loira que sorria largo.
— Não me olha com essa cara de tédio, Karson. — Reclama e eu só ergo as sobrancelhas, coçando um pouco os olhos. Eu realmente precisava dormir, vou parecer um trapo na festa e isso não pode acontecer. — Eu tenho uma cois...
Meu celular começa a espernear loucamente e eu reviro os olhos ao ver o número oficial do Gabriel no visor.
Ainda bem que ele aprendeu a lição e não me ligou daquele celular entupido de mulher.
— O que é? — Era para soar grossa mesmo.
— É para eu te buscar de que horas e onde? — Porque ele está soando tão desconfiado? — Em?
— Nenhuma e em nenhum lugar, eu vou sozinha. — Digo como se fosse óbvio.
Não é óbvio?
— É perigoso chegar aqui só, Emma. — explica como se eu fosse uma criancinha de 3 anos. — Eu vou te buscar.
— Primeiro, você não sabe onde eu moro. — Enumero, rindo. — Segundo, eu não vou te dizer e vou chegar sozinha. Você tem uma festa para cuidar, vá se ocupar com algo que não seja eu, Blake. — Concluo e desligo, sentindo o olhar claro de Melina queimando em mim. — Continua...
Ela solta o ar e eu cruzo os braços, sorrindo minimamente.
— Eu tenho uma coisa para você e uma ideia para sua entrada. — Começa e eu enrugo a testa. Melina se meter no meu trabalho era raro, tinha que ter pensado algo muito bom para expor. — Você precisa impressionar todos aqueles traficantes, contrabandistas, assassinos... — Ergo as sobrancelhas pela necessidade absurda que ela tinha de ressaltar que o lugar vai estar entupido de maus elementos — E sei que quer enlouquecer um exportador e assassino em especial. — dá ênfase na palavra "assassino" e eu rio baixo. Gabriel nunca havia matado ninguém.
Pelo menos foi o que consegui investigar naquela ficha.
— Eu sei...
Puxa uma sacola vermelha com um laço e me entrega com um sorriso.
Quando abro, quase caio para trás.
— Isso vai caber em mim? — chio.
— Como uma luva, querida... — Me fita com um olhar carregado de sabedoria — E, acho que você precisa daquilo também. — aponta e eu passo perto de infartar assim que vejo meu velho violino, descansando no sofá branco. — Vai ser assim, olha você vai...
***
— Emma, essa não pode ser você...
Jogo a cabeça para trás, rindo muito. Eu também não acharia que sou eu. O que o reflexo me mostra não é uma mulher, é um furacão. O vestido n***o que ela havia me dado delineava cada canto do meu corpo e ainda era adornado por um belo par de luvas em conjunto com uma f***a que começava da metade da coxa, deixando uma das minhas pernas de fora. Melina teve o cuidadoso trabalho de escovar meu cabelo e colocá-lo para o lado, facilitando o contato do meu queixo com o violino e sem que os fios me atrapalhem na "entrada".
— Esse vestido valeu cada centena que custou. — Diz, me fazendo rodopiar e eu só consigo gargalhar. Fazia tempos que não me arrumava dessa forma, os trabalhos estavam burocráticos e eu não tinha ido em campo há alguns meses. Parece que estou de volta. — Já sabe o que fazer, certo? — Melina pergunta e eu levanto o outro lado do vestido, o que não tem f***a, exibindo a cinta liga com o apoio da pequena arma de calibre 22. Na minha cintura tinham algumas das minhas facas prediletas.
Só por precaução.
Sempre tenho um plano.
— As malas estão prontas? — olho ao redor, procurando algum indício das minhas coisas. Ela assente, com ares de preocupação, me limito a suspirar. — Não se preocupe comigo, só vão ser duas semanas.
— Naquela casa...
Sorrio.
— No fim, você terá o que quer e até, quem sabe, uma promoção, loira. — Bato meu ombro no dela, vendo-a revirar os olhos. Melina não queria uma promoção, ela queria a minha segurança, já passamos por várias barras juntas até ela largar o trabalho em campo e se tornar minha chefe. Graças a ela ainda estou aqui, nesse mundo, viva e inteira para lhe dar cabelos brancos e rugas precoces. — Fique calma, qualquer coisa, eu ligo.
— Cuidado para não ser pega. — Me abraça e eu retribuo o gesto, impossibilitada de chorar para não preocupá-la ainda mais. Eu sabia que meu futuro é mais incerto do quê a bolsa de valores, mas não preciso deixar isso claro para a Mel. Ela provavelmente me trancaria nessa casa, jogaria a chave fora e passaria o trabalho para outra pessoa.
Solto-a, colando meus lábios em sua bochecha.
— Pode deixar, chefa.
E saio, arrastando minhas duas malas e quase as derrubo quando vejo o que me espera do lado de fora. A risada de Melina ao meu lado, me faz encará-la em descrença. Não era possível.
— Isso é para mim? — pergunto, chocada demais para acreditar.
O Porshe Boxster 911 era mais que um colírio para os olhos, era um sonho embalado com motor e na cor preta, deixando-o ainda mais belo.
— Meu Deus, se eu pudesse eu casaria com esse carro.
Ela ri alto.
— Limpa a baba, Karson! — bate no meu ombro e eu até me desestabilizo, por pouco não caindo. É um porshe novo, para mim. Não estou conseguindo lidar com isso. — Um agrado da Diretoria para você.
Me aproximo, acariciando a lataria daquela belezinha.
— Afinal, é como você disse...
Levanto o olhar para encará-la e fito aquele sorriso largo e branco.
— Você é Emma Karson.