O homem continuava parado no alto da colina.
Mesmo de longe, eu conseguia sentir seus olhos sobre mim.
Havia alguma coisa diferente nele.
Não era apenas a postura.
Não era apenas a maneira como todos ao redor pareciam respeitar sua presença.
Era a energia.
Forte.
Dominante.
Quase sufocante.
Por alguns segundos, esqueci completamente que estava cercada por pessoas.
Só conseguia olhar para ele.
Então ele começou a descer.
Um passo.
Depois outro.
Quanto mais se aproximava, mais eu conseguia enxergar seus traços.
Era jovem.
Muito jovem para carregar aquele tipo de autoridade.
Alto, ombros largos, cabelos escuros e olhos tão intensos que pareciam enxergar através de mim.
Ele não sorria.
Não parecia interessado em me conhecer.
Parecia estar tentando descobrir o que eu era.
Quando chegou perto o suficiente, alguns dos homens ao redor abaixaram a cabeça.
Ninguém precisou dizer quem ele era.
Eu já sabia.
Adrian.
O futuro Alfa soberano dos Lunares.
Ele parou diante de mim.
Seu olhar percorreu meu rosto.
Depois meus cabelos.
Parou por um instante na mecha vermelha que agora destacava meu cabelo.
E voltou para meus olhos.
— Então você é Selene.
Não gostei da maneira como ele disse meu nome.
Como se já tivesse ouvido histórias demais sobre mim.
— E você é Adrian.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sabe quem eu sou?
— Parece que todo mundo aqui sabe.
— Isso não respondeu minha pergunta.
Cruzei os braços.
— Sim. Eu sei quem você é.
Ele me observou em silêncio.
— E você sabe quem eu sou?
— A filha do Alfa.
A resposta veio fria.
— A híbrida.
Meu maxilar travou.
De novo aquela palavra.
— Meu nome é Selene.
— Eu sei.
— Então use.
Os olhos dele estreitaram.
— Você chegou hoje e já está desafiando todo mundo.
— Não estou desafiando ninguém.
Olhei ao redor.
— Só estou cansada de ser tratada como se fosse alguma coisa que deveria ser temida.
Adrian se aproximou um pouco.
— Talvez porque seja.
Meu coração bateu mais forte.
— Você nem me conhece.
— Conheço o suficiente.
— Não conhece nada sobre mim.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você é uma híbrida que não consegue se transformar, não conhece nossas leis e não sabe nada sobre este lugar.
Dei um passo à frente.
— E ainda assim você veio até aqui para falar comigo.
Um silêncio caiu entre nós.
Pela primeira vez, percebi uma pequena mudança no olhar dele.
Irritação.
Talvez surpresa.
Não me importei.
— Você é sempre assim? — ele perguntou.
— Assim como?
— Difícil.
Quase sorri.
— Você acabou de me conhecer.
— Já foi o suficiente.
— Então talvez seja melhor não continuar me conhecendo.
Passei por ele.
Ou tentei.
Adrian segurou meu braço.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Olhei para a mão dele.
Depois para seu rosto.
— Solta.
Ele não soltou imediatamente.
— Você deveria aprender a respeitar quem está acima de você.
— E você deveria aprender a não tocar em quem não te deu permissão.
Seus olhos escureceram.
Ele soltou meu braço.
— Cuidado, Selene.
— Com o quê?
— Comigo.
Eu o encarei.
— Não tenho medo de você.
Algo mudou no rosto dele.
Por um instante, pensei que fosse raiva.
Mas havia outra coisa.
Uma curiosidade que ele tentou esconder.
Antes que qualquer um de nós pudesse falar novamente, Kael apareceu.
Seu rosto estava sério.
— Selene.
Olhei para ele.
— Você demorou.
— Precisávamos conversar.
— Sobre o quê?
Kael olhou para Adrian.
Depois para mim.
— Sobre você.
Meu estômago apertou.
— O que tem eu?
Adrian ficou ao nosso lado.
Kael respirou fundo.
— Existe uma tradição antiga entre os Lunares.
— Que tradição?
Ele hesitou.
Aquilo não me agradou.
— Kael.
— Para que um Alfa seja reconhecido como soberano...
Ele parou.
Adrian completou:
— Ele precisa cumprir uma antiga união.
Olhei para ele.
— Que união?
Ninguém respondeu imediatamente.
Senti meu coração acelerar.
— Que união?
Kael finalmente falou:
— Um casamento.
Fiquei imóvel.
— Um casamento?
— Sim.
Olhei de Kael para Adrian.
Depois novamente para Kael.
— E o que isso tem a ver comigo?
O silêncio foi a resposta que eu mais temia.
Meu peito apertou.
— Não.
Kael tentou falar.
— Selene...
— Não.
Dei um passo para trás.
— Não.
Adrian permaneceu imóvel.
— Você ainda nem sabe o que—
— Eu sei.
Olhei diretamente para ele.
— É comigo.
Adrian não respondeu.
Aquilo confirmou tudo.
Soltei uma risada nervosa.
— Isso é uma piada.
— Não é — Kael respondeu.
— Vocês me trazem para cá, me dizem que sou uma híbrida, que existem pessoas que me odeiam, que existem coisas que eu nem consigo entender...
Minha voz começou a tremer.
— E agora querem que eu me case com um homem que conheci há cinco minutos?
Adrian deu um passo à frente.
— Eu também não pedi isso.
Olhei para ele.
— Ótimo.
— Não pense que eu estou feliz com essa situação.
— Eu não pensei.
Ele franziu a testa.
— Então estamos de acordo em alguma coisa.
— Não estamos de acordo em nada.
Kael passou a mão pelo rosto.
— Vocês precisam entender que essa tradição existe há gerações.
— Eu não me importo com a tradição!
Minha voz ecoou pelo lugar.
Algumas pessoas se afastaram.
— Eu não escolhi ser híbrida.
Olhei para Kael.
— Não escolhi ser sua filha.
Depois olhei para Adrian.
— E muito menos escolhi ser sua futura esposa.
O silêncio foi absoluto.
Adrian me encarou.
Seu rosto estava completamente fechado.
— Não somos obrigados a gostar um do outro.
— Ainda bem.
— Mas existem consequências se essa união não acontecer.
— Para você.
— Para todos.
— Isso não é problema meu.
Adrian deu mais um passo.
— Talvez seja.
Meu coração acelerou.
— Por quê?
Ele ficou em silêncio.
Kael respondeu:
— Porque, segundo a tradição, apenas um descendente ligado à linhagem de um Alfa pode ocupar o lugar de Alfa soberano.
Olhei para Adrian.
— E você precisa de mim?
— Preciso da filha de Kael.
— Então você não precisa de mim.
Adrian me encarou.
— Não?
— Não.
Apontei para meu próprio peito.
— Você precisa de um símbolo. De uma tradição. De uma garota que tenha o sangue que vocês precisam.
Ele ficou em silêncio.
Aquilo pareceu incomodá-lo.
— Talvez.
— Então encontre outra.
— Não existe outra.
Meu coração parou por um instante.
— Como assim?
Kael respondeu:
— Você é a única.
Aquela frase pesou mais do que todas as outras.
A única.
De repente, tudo fez sentido.
Os olhares.
Os cochichos.
O medo.
A maneira como todos me observavam desde que cheguei.
Não era apenas porque eu era filha de Kael.
Era porque eu era a única híbrida.
E, aparentemente, meu sangue carregava algo que aquela matilha precisava.
— Então é por isso que me trouxeram para cá.
Kael se aproximou.
— Eu trouxe você para protegê-la.
— E agora querem me usar.
— Não.
— Parece exatamente isso.
Kael ficou sem resposta.
Adrian olhou para ele.
— Eu não vou obrigá-la.
Olhei para Adrian.
— Não?
— Não.
— Então acabou.
Ele me encarou.
— Não é tão simples.
— Para mim é.
Virei-me.
Comecei a andar.
Não sabia para onde.
Só sabia que precisava sair dali.
Mas depois de alguns passos, parei.
Uma sensação atravessou meu corpo.
A mesma de antes.
Uma presença.
Muito próxima.
Olhei para a floresta.
Entre as árvores, por um breve instante, vi dois olhos.
Vermelhos.
Meu coração disparou.
Piscaram.
E desapareceram.
Ninguém parecia ter percebido.
Ninguém além de mim.
Levei a mão ao peito.
Aquela presença estava novamente ali.
E, pela primeira vez, uma certeza surgiu dentro de mim.
Aquele casamento não era a única coisa que havia sido escondida de mim.
Havia algo naquela floresta.
Algo que me conhecia.
Algo que esperava por mim.
E eu começava a desconfiar de que a minha chegada àquele lugar não tinha sido apenas um retorno.
Talvez tivesse sido um chamado.