Prólogo

736 Words
A Filha da Lua de Sangue Antes das grandes matilhas. Antes dos territórios divididos. Antes que os alfas fossem reconhecidos como aqueles que comandavam os lobos... havia uma lenda. Uma lenda tão antiga que poucos ainda se lembravam de sua verdadeira origem. Os anciãos a chamavam de A Profecia da Lua de Sangue. Dizia-se que, uma vez a cada muitos séculos, a Lua de Sangue desceria sobre a floresta para testemunhar o nascimento de uma criança que jamais deveria existir. Uma criança gerada pela união de dois mundos proibidos. Um mundo humano. E um mundo de lobos. Durante gerações, os anciãos ensinaram que humanos e lobos jamais deveriam se unir. Não por tradição. Não por honra. Mas porque existia algo naquela união que nem mesmo os mais antigos conseguiam compreender. Segundo a lenda, uma criança nascida daquele amor carregaria uma força diferente de tudo o que os lobos conheciam. Ela não seria apenas humana. Também não seria uma loba. E não precisaria de uma transformação para provar quem era. A Lua reconheceria sua existência antes mesmo que ela pudesse pronunciar a primeira palavra. E quando chegasse o momento certo... os lobos ouviriam um chamado que nenhum Alfa seria capaz de silenciar. Por isso, os antigos tinham medo. Alguns acreditavam que aquela criança seria capaz de unir as matilhas. Outros acreditavam que destruiria tudo o que os alfas haviam construído. Mas havia uma parte da profecia que quase nunca era contada. Uma parte tão perigosa que os anciãos proibiram que fosse repetida. «Quando a Lua de Sangue encontrar sua filha, a floresta despertará. Os lobos se curvarão ao chamado, e o poder que dorme há séculos voltará a caminhar sobre a Terra.» Durante séculos, nada aconteceu. Nenhuma criança nasceu. Nenhum sinal apareceu. A lenda começou a desaparecer. Até aquela noite. --- A chuva castigava a pequena casa escondida entre as árvores. Dentro dela, uma mulher lutava para trazer sua filha ao mundo. Ela estava exausta. Assustada. Mas não desistia. Do lado de fora, a floresta permanecia estranhamente silenciosa. Nenhum pássaro. Nenhum grilo. Nenhum uivo. Como se todos os animais esperassem alguma coisa. A mulher fechou os olhos quando outra contração atravessou seu corpo. — Por favor... Sua voz saiu fraca. Ela levou uma mão ao ventre. — Proteja meu bebê. Era apenas uma oração. Ou talvez um pedido para algo que ela mesma não compreendia. Então, de repente, o céu mudou. A Lua surgiu entre as nuvens. Vermelha. Intensa. Grande demais. Na mesma hora, os lobos de diferentes territórios ergueram a cabeça. Alguns começaram a rosnar. Outros recuaram. Houve quem sentisse medo sem saber explicar o motivo. Os Alfas também sentiram. Uma presença. Distante. Mas poderosa. Antiga. Como se alguma coisa tivesse acabado de atravessar o limite entre dois mundos. Dentro da casa, a mulher gritou. E, segundos depois... o choro de um bebê rompeu a noite. O som atravessou as paredes. Atravessou a floresta. E pareceu alcançar lugares que nenhum ser humano poderia imaginar. Em várias matilhas, lobos uivaram ao mesmo tempo. Um após outro. Como se respondessem a um chamado que ainda nem havia sido feito. A mulher recebeu a criança nos braços. Por alguns segundos, apenas a observou. Pequena. Frágil. Silenciosa depois do primeiro choro. Então percebeu algo. Uma pequena marca havia surgido na pele da recém-nascida. Não parecia uma marca comum. Tinha o formato delicado de uma lua atravessada por um traço que lembrava uma estrela. A mulher prendeu a respiração. Seu coração disparou. Ela não sabia o significado daquela marca. Mas, em algum lugar muito distante, alguém sabia. No fundo da floresta, onde nenhuma matilha ousava entrar, dois olhos antigos se abriram. Um corpo enorme se ergueu lentamente entre as árvores. O Guardião havia despertado. Depois de séculos de silêncio. Depois de séculos esperando. Ele finalmente sentira a presença daquela que deveria proteger. Seu olhar se voltou para a direção da pequena casa. E, pela primeira vez em muito tempo, uma voz ecoou dentro de sua mente. Ela nasceu. O Guardião permaneceu imóvel. Então baixou a cabeça. Como se reconhecesse uma presença que conhecia desde antes de seu próprio despertar. A Lua voltou. Naquela noite, nenhuma matilha sabia o que havia acontecido. Nenhum Alfa conhecia a identidade da criança. Nenhum ancião ousava acreditar que a antiga profecia finalmente havia começado. Mas a floresta sabia. A Lua sabia. E o Guardião também. Porque naquela noite... a filha da Lua de Sangue havia nascido.
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