O Primeiro Sinal

925 Words
Selene voltou para casa naquela tarde sem contar a ninguém o que havia acontecido na floresta. Não falou sobre o lobo. Não falou sobre as pegadas. Muito menos sobre as vozes que havia escutado dentro da própria cabeça. Ela sabia que ninguém acreditaria. E, de alguma forma, havia uma parte dela que também não queria acreditar. Mas, quando fechava os olhos, ainda conseguia sentir o pelo daquele animal sob seus dedos. E aquela palavra continuava presa em sua mente. Ainda não. Quem havia falado? Por quê? Selene não sabia. Naquela noite, tentou dormir cedo. Não conseguiu. Virou-se de um lado para o outro até desistir e sentar na cama. O pequeno pingente de Lua estava sobre seu peito. Ela o segurou. — Se você pudesse falar comigo... — murmurou. — O que me diria? Nenhuma resposta veio. Mas, pela janela, um uivo atravessou a noite. Selene ergueu a cabeça. Dessa vez, não sentiu medo. Sentiu outra coisa. Uma espécie de chamado. Como se o som estivesse tentando alcançar alguma parte dela que ainda permanecia adormecida. --- Na manhã seguinte, Selene acordou antes de todos. Algo estava errado. Ela não sabia explicar. O céu estava limpo. A vila estava silenciosa. Nada parecia diferente. Mesmo assim, seu corpo inteiro dizia para ela ficar alerta. Selene saiu de casa. Parou no meio da rua. Respirou fundo. E sentiu. Cheiro de terra. Folhas molhadas. Madeira. E... algo estranho. Um cheiro que não pertencia à vila. Selene virou o rosto em direção à floresta. Seu coração acelerou. Havia alguém ali. Ou melhor... havia vários. Ela começou a caminhar. Quanto mais se aproximava da floresta, mais forte ficava a sensação. Até que ouviu vozes. Homens. Selene parou atrás de algumas árvores. Observou. Três homens caminhavam pela mata. Ela não os conhecia. Mas alguma coisa dentro dela dizia que eles não deveriam estar ali. Um deles carregava uma arma. Outro observava as marcas no chão. — Eles passaram por aqui. — Tem certeza? — Tenho. Selene franziu a testa. Eles. Quem eles estavam procurando? Então percebeu. As marcas no chão eram de lobos. O mesmo tipo de pegada que havia encontrado no dia anterior. Seu coração disparou. Ela precisava avisar alguém. Virou-se para voltar. Foi quando ouviu um som. Um rosnado. Muito distante. Selene congelou. O lobo. Ela fechou os olhos. E, de repente, tudo ficou mais nítido. As vozes dos homens. O movimento das folhas. Os passos dos animais. O vento. Tudo. Como se seus sentidos tivessem se expandido. Ela conseguiu perceber exatamente onde cada um estava. E então veio a certeza. Eles estavam indo para a direção errada. Os lobos não estavam atrás deles. Estavam cercando-os. Selene abriu os olhos. — Eles vão atacar... Ela correu. Não pensou. Não avaliou o perigo. Apenas correu. Quando chegou à vila, encontrou alguns homens conversando perto da entrada. — Tem lobos na floresta! Todos olharam para ela. — O quê? — Tem gente lá dentro também. Um dos homens riu. — Você está inventando isso? — Não! Selene apontou para a floresta. — Eles estão cercados. Os homens trocaram olhares. — Quem está cercado? Selene abriu a boca. Não sabia responder. Porque, naquele instante, percebeu que também não sabia como sabia. — Eu... eu não sei. Um dos homens se aproximou. — Então por que está dizendo isso? Selene recuou. — Porque é verdade. Ele continuou olhando para ela. — Você viu? Selene hesitou. — Não. — Então como sabe? Ela não respondeu. Porque não tinha uma explicação. Mas então um uivo cortou o ar. Todos se calaram. Outro respondeu. Depois outro. Os homens olharam para a floresta. O rosto de alguns mudou. Selene sentiu um arrepio. Os lobos estavam se aproximando. Não. Eles estavam se posicionando. Como se estivessem formando um círculo. Como se protegessem alguma coisa. Ou alguém. Um homem pegou uma arma. — Vamos descobrir o que está acontecendo. Selene segurou seu braço. — Não vá. Ele olhou para ela. — Solte. — Não. Selene não sabia de onde vinha aquela coragem. Mas não soltou. — Se você entrar agora, eles vão atacar. O homem riu. — Você acha que sabe mais sobre lobos do que eu? Selene sustentou seu olhar. — Eu sei que você não deveria entrar. Por alguns segundos, ninguém falou. Então um barulho forte veio da floresta. Um uivo profundo. Diferente dos outros. Selene sentiu o peito apertar. Ela conhecia aquele som. Era o mesmo lobo. O lobo ferido. Seus olhos buscaram a floresta. E, por um breve instante, ela o viu. Entre as árvores. Parado. Observando-a. Selene sentiu algo estranho. Não era apenas reconhecimento. Era como se ele estivesse dizendo: Você fez a coisa certa. Ela respirou fundo. O lobo desapareceu. Os homens desistiram de entrar na floresta naquele momento. Mas Selene sabia que aquilo não havia terminado. Naquela noite, enquanto todos na vila comentavam sobre os lobos, ela permaneceu em silêncio. Sentada na cama, segurava o pingente de Lua. E uma pergunta surgiu em sua mente. Se aqueles animais estavam tentando proteger alguma coisa... por que ela conseguia sentir? Por que conseguia ouvir? Por que conseguia saber coisas antes que acontecessem? Selene fechou os olhos. E, pela primeira vez, não tentou afastar aquela sensação. Escutou. No fundo de sua mente, algo parecia responder. Não era uma voz. Era um instinto. Uma certeza. A floresta a reconhecia. E Selene ainda não fazia ideia do motivo. Muito longe dali, porém, os lobos já começavam a perceber. Havia algo diferente naquela menina. Algo que não pertencia somente ao mundo humano. E o primeiro sinal havia sido dado.
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