Capítulo 1

1229 Words
Ela estava caminhando por uma rua que nunca tinha visto antes. As luzes dos prédios eram diferentes, mais suaves, quase azuladas, e os carros passavam em silêncio, como se deslizassem sobre o asfalto. O ar parecia mais limpo, mais leve. Tudo parecia... real demais. Beatriz estava parada no meio da calçada olhando ao redor, confusa, tentando entender onde estava. — Isso é estranho… — murmurou para si mesma. Ela lembrava claramente de estar no seu quarto minutos antes. Lembrava de ter apagado a luz, deitado na cama e fechado os olhos. Agora estava ali. Em uma cidade que não reconhecia. Os prédios eram altos, elegantes, com fachadas de vidro que refletiam um céu cheio de estrelas. Algumas telas gigantes exibiam imagens que mudavam lentamente, como anúncios silenciosos. Mas o que mais chamava atenção era o silêncio. Mesmo com pessoas passando pela rua, ninguém parecia fazer barulho. Beatriz começou a andar. Seus passos ecoavam suavemente no chão de pedra clara. Cada detalhe parecia incrivelmente nítido: o vento leve mexendo nos cabelos dela, o cheiro de algo doce vindo de uma pequena cafeteria na esquina, a sensação do tecido da sua própria roupa. Ela olhou para baixo. Estava usando roupas que não eram suas. Uma jaqueta escura, botas e uma bolsa atravessada no ombro. — Ok… isso definitivamente é um sonho — disse, soltando uma pequena risada nervosa. Mas quando apertou a própria mão, sentiu dor. Uma dor leve, mas real. — Estranho. Ela caminhou mais alguns metros e parou diante da vitrine de uma loja. O reflexo mostrou seu rosto. Era ela. Mas algo parecia diferente. Seu cabelo estava um pouco mais longo, e havia uma pequena cicatriz acima da sobrancelha direita que ela nunca teve. — Que tipo de sonho é esse? Beatriz tentou lembrar como os sonhos normalmente funcionavam. Geralmente as coisas mudavam rápido, as cenas saltavam de um lugar para outro sem sentido. Mas aquilo não estava mudando. Nada estava desfocado. Nada estava estranho. Era como se estivesse realmente ali. Ela decidiu continuar andando. Talvez o sonho simplesmente terminasse. A rua levava a uma pequena praça iluminada por postes de luz dourada. No centro havia uma fonte redonda, e a água caía lentamente, criando um som relaxante. Algumas pessoas estavam sentadas nos bancos. Conversando. Rindo. Vivendo suas vidas normalmente. Beatriz aproximou-se da fonte. A água refletia as estrelas acima. — Uau… Ela mergulhou a ponta dos dedos na água. Fria. Muito fria. Real. — Isso está ficando assustador — murmurou. Foi então que ela ouviu uma voz. — Você parece perdida. Beatriz virou-se. Um rapaz estava parado alguns passos atrás dela. Ele tinha cabelos escuros, levemente bagunçados, e olhos castanhos que refletiam a luz dos postes. Usava uma jaqueta de couro e segurava um violão nas costas. Mas não era apenas isso. Havia algo no olhar dele. Algo estranhamente familiar. Como se ela já o tivesse visto antes. — Talvez eu esteja — respondeu Beatriz, ainda tentando entender o que estava acontecendo. Ele deu um pequeno sorriso. — Primeira vez na cidade? — Algo assim. O rapaz caminhou até a fonte e apoiou-se na borda de pedra. — Não se preocupe. A cidade pode parecer confusa no começo. Beatriz franziu a testa. — No começo? — Sim. Ele olhou para o céu por um instante. — Mas depois você se acostuma. Ela o observou com atenção. Algo naquela conversa parecia… estranho. — Você mora aqui? — perguntou. — Desde sempre. — Que cidade é essa? Ele olhou para ela, surpreso. — Você está falando sério? — Estou. O rapaz soltou uma pequena risada. — Ok… isso é novo. — O quê? — Normalmente as pessoas sabem onde estão. — Eu disse que estou perdida. Ele inclinou a cabeça, analisando o rosto dela. — Qual é o seu nome? Beatriz hesitou por um momento. Não sabia por quê. Mas parecia importante. — Beatriz. Os olhos dele se arregalaram ligeiramente. — Beatriz? — Sim. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Como se estivesse processando alguma coisa. — Estranho — murmurou. — O quê? Ele balançou a cabeça. — Nada. Depois estendeu a mão. — Gabriel. Beatriz apertou a mão dele. No instante em que seus dedos se tocaram, algo estranho aconteceu. Uma sensação elétrica percorreu o corpo dela. Como uma memória. Um fragmento. Por um segundo, Beatriz teve a impressão de ver algo. Um carro. Chuva. Sirene. E Gabriel caído no chão. Ela puxou a mão rapidamente. Seu coração estava acelerado. — Você está bem? — perguntou Gabriel. — Sim… eu só… Ela passou a mão na testa. — Tive uma sensação estranha. — Estranha como? Beatriz hesitou. — Como se eu já tivesse visto você antes. Gabriel sorriu. — Talvez já tenha. — Eu tenho certeza de que não. — O mundo é pequeno. Beatriz olhou novamente para a praça. Tudo ainda parecia absurdamente real. — Eu acho que preciso ir — disse ela. — Para onde? Ela abriu a boca. Mas percebeu que não sabia responder. Porque, na verdade, ela não fazia ideia de onde estava. Nem de como tinha chegado ali. Gabriel pareceu perceber a confusão dela. — Ei — disse suavemente. — Se quiser, eu posso te mostrar a cidade. Beatriz hesitou. Parte dela queria aceitar. Outra parte queria acordar imediatamente. — Acho melhor eu… De repente, o mundo começou a mudar. As luzes da praça ficaram mais fracas. O som da fonte começou a desaparecer. — O que está acontecendo? — perguntou Beatriz. Gabriel franziu a testa. — Do que você está falando? Mas ela já não conseguia ouvir direito. Tudo parecia distante. Como se estivesse sendo puxada para longe. — Espera! — disse Gabriel. — Você vai voltar amanhã? Beatriz tentou responder. Mas sua voz não saiu. A praça desapareceu. A cidade desapareceu. E então… Ela acordou. Beatriz abriu os olhos rapidamente. Estava em seu quarto. A luz da manhã entrava pela janela. Seu coração ainda batia rápido. Ela ficou deitada olhando para o teto por alguns segundos. — Foi só um sonho — murmurou. Mas algo estava errado. Ela sentia o corpo pesado. Como se realmente tivesse caminhado por horas. Sentou-se na cama e passou a mão no rosto. — Que sonho estranho… Então algo chamou sua atenção. Sua mão. Ela estava molhada. Beatriz olhou para os dedos. E sentiu o estômago gelar. Era água. Água fria. Exatamente como a da fonte. Ela ficou parada por vários segundos, olhando para as próprias mãos. Sem conseguir respirar direito. — Isso… não é possível. O coração dela começou a acelerar. Se aquilo era um sonho… Por que a água ainda estava ali? Beatriz levantou-se da cama lentamente. Cada pensamento parecia mais assustador que o anterior. Ela caminhou até o espelho do quarto. E congelou. Acima da sobrancelha direita… Havia uma pequena cicatriz. A mesma que tinha visto no reflexo da vitrine. Beatriz levou a mão ao rosto. Seu coração batia tão forte que parecia que iria explodir. — Não… não… não… Ela recuou um passo. Respirando rápido. Tentando convencer a si mesma de que havia alguma explicação. Alguma lógica. Mas no fundo… Ela já sabia. Aquilo não tinha sido um sonho. Ela tinha estado em outro lugar. Outro mundo. Outro universo. E a pior parte ainda estava por vir. Porque naquela noite… Quando Beatriz voltasse a dormir… Ela descobriria que aquele mundo não tinha terminado com o sonho. Ele estava esperando por ela.
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