Capítulo 3

1232 Words
Beatriz passou o resto do dia inquieta. Mesmo quando tentava se concentrar nas aulas, sua mente voltava sempre para a mesma imagem: a praça iluminada, a fonte de pedra e o olhar de Gabriel quando disse seu nome. Algo naquela memória parecia vivo demais para ser apenas um sonho. Quando as aulas terminaram, ela e Lucas caminharam juntos até o portão da universidade. — Você ainda está pensando nisso, não está? — perguntou ele. Beatriz suspirou. — Eu só… não consigo explicar. — Talvez não tenha explicação. — Tudo tem explicação. Lucas riu. — Isso é o que os estudantes de física sempre dizem. Ela deu um pequeno sorriso. — E normalmente estamos certos. Eles pararam na esquina onde seus caminhos se separavam. — Você vai ficar bem? — perguntou Lucas. — Vou. Ele apontou para a testa dela. — Se aparecer mais alguma cicatriz misteriosa, me avisa. — Engraçadinho. Lucas começou a se afastar, mas virou-se novamente. — Beatriz? — Sim? — Se esse tal Gabriel aparecer de novo… Ela ergueu uma sobrancelha. — O quê? — Pergunta se ele também faz cálculo. Ela riu pela primeira vez naquele dia. — Tchau, Lucas. — Tchau. Beatriz caminhou até sua casa com a cabeça cheia de pensamentos. O sol já estava começando a se pôr, tingindo o céu de tons laranja e rosa. Normalmente ela gostava daquele momento do dia. Mas hoje tudo parecia diferente. Como se a realidade tivesse ficado… instável. Ela entrou em casa, deixou a mochila no sofá e foi direto para o quarto. A primeira coisa que fez foi pegar o caderno. Sentou-se na cama e começou a escrever. SONHO 1 Cidade desconhecida Praça com fonte Luzes azuladas Carros silenciosos Gabriel Ela parou por um momento. Depois acrescentou outra linha. Cicatriz apareceu depois de acordar. Beatriz ficou olhando para aquelas palavras por vários segundos. Então escreveu mais uma frase. Hipótese: não foi um sonho. Assim que terminou de escrever aquilo, sentiu um arrepio. Porque, no fundo, aquela era a única explicação que parecia encaixar. Mas também era a mais assustadora. Ela fechou o caderno com um suspiro. — Eu estou ficando louca… O resto da noite passou devagar. Beatriz tentou assistir televisão, ler um pouco e até estudar, mas nada conseguia prender sua atenção. O relógio parecia andar mais rápido do que o normal. E quanto mais a noite avançava… Mais nervosa ela ficava. Porque sabia que o momento estava chegando. O momento de dormir. Por volta das dez e meia, ela já estava deitada na cama olhando para o teto. — Talvez nada aconteça — murmurou. Talvez tivesse sido apenas um sonho estranho. Talvez seu cérebro estivesse misturando imaginação com realidade. Talvez aquela cicatriz tivesse alguma explicação simples. Mas uma parte dela sabia que não era tão simples. Beatriz virou-se de lado. Olhou para o caderno sobre a mesa. Por um instante pensou em escrever mais alguma coisa. Mas decidiu não levantar. — Se acontecer de novo… — disse em voz baixa — então eu vou saber. Ela fechou os olhos. O sono demorou um pouco a chegar. Mas eventualmente veio. E quando veio… Não trouxe apenas escuridão. Trouxe a cidade novamente. Beatriz abriu os olhos lentamente. O primeiro som que ouviu foi água. Água caindo. Ela sentiu o coração acelerar. Sentou-se rapidamente. A fonte. A mesma fonte. A mesma praça. As mesmas luzes douradas iluminando os bancos de pedra. Beatriz respirou fundo. — Não… não é possível… Ela levantou-se devagar. Olhou ao redor. Tudo estava exatamente igual à noite anterior. As árvores. Os postes de luz. Até as pessoas sentadas nos bancos pareciam as mesmas. Como se o tempo não tivesse passado. — Isso… isso não é um sonho… — sussurrou. Ela caminhou até a borda da fonte. A água ainda caía suavemente. Beatriz tocou a superfície com cuidado. Fria. Real. — Eu voltei… — Eu disse que você voltaria. A voz fez o coração dela disparar. Beatriz virou-se rapidamente. Gabriel estava sentado em um dos bancos da praça. Exatamente onde ela o tinha visto pela última vez. O violão ainda estava apoiado ao lado dele. E ele estava sorrindo. Como se estivesse esperando. — Você… — disse Beatriz, sem conseguir terminar a frase. Gabriel levantou-se. — Eu fiquei pensando se tinha imaginado você. — Eu também. Ele caminhou até ela. Cada passo parecia lento demais. Como se aquele momento tivesse um peso especial. — Então… — disse Gabriel — você realmente voltou. Beatriz cruzou os braços, tentando organizar os pensamentos. — Eu tenho tantas perguntas. — Eu também. — Isso é real? Gabriel inclinou a cabeça. — Para mim sempre foi. Ela passou a mão no cabelo. — Mas eu estava em outro lugar. Em outro… mundo. — Onde? — Na minha casa. Na minha cidade. — E você dormiu? — Sim. Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos. Como se estivesse tentando entender. Então perguntou: — E quando você dormiu… apareceu aqui? — Sim. Ele olhou para a praça. Depois voltou a olhar para ela. — Isso é… interessante. — Interessante? — repetiu Beatriz. — Sim. — Gabriel, isso é impossível. — Talvez. — Talvez? Ele deu de ombros. — O mundo é cheio de coisas estranhas. — Mas isso não é apenas estranho. Beatriz respirou fundo. — Eu acho que estou viajando para outro universo quando durmo. Gabriel piscou. — Isso é uma teoria bem específica. — Eu estudo física. — Explica algumas coisas. Beatriz começou a andar de um lado para o outro. — Isso não faz sentido. Não faz sentido! — Ei. Gabriel segurou gentilmente o braço dela. Beatriz parou. — Respira — disse ele. Ela percebeu que realmente estava quase hiperventilando. Respirou fundo. Uma vez. Duas vezes. — Melhor? — perguntou ele. — Um pouco. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Então Gabriel falou novamente. — Posso fazer uma pergunta? — Já fez várias. — Uma importante. — Qual? Ele olhou diretamente nos olhos dela. — Se você veio de outro mundo… Ele hesitou. Como se tivesse medo da resposta. — Então por que veio parar exatamente aqui? Beatriz abriu a boca. Mas percebeu que não sabia responder. Porque aquela pergunta tinha passado pela cabeça dela várias vezes. E nenhuma das respostas parecia lógica. Ela poderia ter aparecido em qualquer lugar. Em qualquer cidade. Em qualquer universo. Mas apareceu ali. Naquela praça. Na frente dele. — Eu não sei — disse finalmente. Gabriel ficou observando o rosto dela por alguns segundos. Então um pequeno sorriso apareceu novamente. — Bom… Ele pegou o violão que estava no banco. — Já que você está presa aqui até acordar… Beatriz ergueu uma sobrancelha. — Como você sabe que eu vou acordar? — Intuição. Ele sentou-se na borda da fonte. — Então podemos aproveitar. — Aproveitar? Gabriel começou a afinar o violão. — Sim. Ele olhou para ela novamente. — Me conta sobre o seu mundo. Beatriz hesitou. Mas então sentou-se ao lado dele. — É parecido com esse. — Parecido? — Mas não igual. Gabriel tocou uma nota suave no violão. — Talvez existam muitos mundos parecidos. Beatriz olhou para a água da fonte. Refletindo as estrelas. — Talvez. Ela ainda não sabia. Mas naquele momento… Uma nova história estava começando. E nem ela… Nem Gabriel… Tinham ideia de que aquele encontro se repetiria em dezenas de universos diferentes. Alguns lindos. Alguns assustadores. E em todos eles… O destino estava esperando.
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