O som do violão de Gabriel ecoava suavemente pela praça, misturando-se ao sussurro da água da fonte e ao canto distante de pássaros noturnos. Cada nota parecia carregar uma memória invisível, e Beatriz sentia como se cada acorde despertasse algo dentro dela que ela não sabia que existia.
As pessoas que passavam pela praça não notavam nada fora do comum. Para elas, era apenas uma praça comum, com um músico tocando para alguns curiosos. Mas para Beatriz, tudo estava longe de ser comum. O violão, a fonte, até mesmo a maneira como Gabriel se movia — tudo parecia carregado de um significado profundo, como se a realidade estivesse tentando lhe mostrar algo.
— Você toca muito bem — disse ela, sentindo uma pontada de nervosismo misturado com fascínio.
Gabriel sorriu, sem parar de dedilhar as cordas.
— Obrigado. Aprendi com meu pai. Ele dizia que a música sempre nos ajuda a entender o que não conseguimos explicar.
Beatriz ficou em silêncio por um instante, pensando nas palavras dele. Música… talvez aquela fosse a única linguagem capaz de atravessar universos. Ela sentiu um arrepio.
— No meu mundo — começou ela hesitante — eu nunca conheci alguém como você.
Gabriel levantou o olhar, curioso, mas sem surpresa.
— Isso é meio triste — disse ele, num tom que misturava ironia e melancolia.
— Talvez — respondeu Beatriz, sentindo o peso da estranheza do momento. “Meu mundo” parecia tão distante agora, e ao mesmo tempo tão presente em sua mente. Ela tentava racionalizar, mas a lógica parecia escapar por entre os dedos.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se tentasse decifrar algum enigma.
— Como é o seu mundo? — perguntou.
Beatriz respirou fundo e começou a descrever: prédios cinzentos, carros barulhentos, pessoas sempre apressadas, ruas cheias de neons e outdoors piscando incessantemente. Gabriel a ouviu com atenção, cada nota de violão entre suas palavras parecia acompanhar o ritmo de sua respiração.
— Parece um pouco com este — comentou ele, tocando novamente as cordas, uma melodia suave que quase imitou a cadência de suas palavras. — Mas não exatamente igual.
Beatriz olhou para a água da fonte. A luz refletida na superfície fazia sombras dançarem, e por um instante, ela quase se perdeu naquele reflexo, imaginando se a outra cidade realmente existia em algum lugar, paralela a esta.
— Talvez seu mundo seja mais antigo que o meu — disse Gabriel, em um sussurro.
— Ou talvez o seu seja mais avançado — respondeu Beatriz, e sentiu um leve arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Ou talvez — ele interrompeu, olhando-a nos olhos com uma intensidade que fez seu coração disparar — os dois existam ao mesmo tempo.
Ela franziu a testa, tentando processar a frase. Era como se uma porta tivesse sido aberta em sua mente, e agora todas as perguntas que ela tentara enterrar surgiam ao mesmo tempo: “Se existem outros mundos… quantos? E por que eu estou aqui? Por que eu estou vendo você?”
De repente, uma sensação estranha atravessou Beatriz. Um arrepio gelado que começou nos dedos e subiu pelo pescoço, atravessando o peito. Seus pensamentos foram interrompidos por uma imagem rápida, quase como um flash: Gabriel correndo, um carro vindo em sua direção, faróis brilhantes, e depois nada — apenas a sensação de perda e medo.
Beatriz levantou-se abruptamente, quase tropeçando na borda da fonte.
— O que foi? — perguntou Gabriel, preocupado, olhando para ela.
— Eu… eu vi algo — disse ela, com a voz tremendo.
— Viu o quê? — Ele franziu a testa, tentando decifrar a expressão dela.
— Você… correndo. E havia um carro… e… — Beatriz engoliu em seco, incapaz de dizer mais. As palavras pareciam pesar toneladas.
Gabriel ficou imóvel por alguns segundos, os olhos arregalados. — Eu morri? — perguntou com calma, quase que tentando normalizar o que Beatriz disse.
— Não sei — respondeu ela, a voz baixa e quase um sussurro. — Mas parecia uma memória. Não minha… mas como se fosse de alguém.
Gabriel olhou para ela com atenção, como se estudasse cada detalhe, cada linha de preocupação em seu rosto. — Memória de outro universo? — sugeriu.
Beatriz respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. — Talvez… Eu não sei. Eu só sei que é real demais para ser apenas imaginação.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto a água da fonte caía suavemente. Beatriz sentou-se novamente na borda, sentindo o peso de cada pensamento e a estranha familiaridade de estar ali.
— Posso te perguntar algo? — disse ela, quebrando o silêncio.
— Claro — respondeu Gabriel, sem interromper a música que ainda saía do violão, notas suaves que pareciam preencher o espaço ao redor.
— Que dia é hoje? — perguntou ela, tentando controlar a ansiedade.
— Dia 12 — respondeu ele, surpreso com a pergunta. — Setembro.
O coração de Beatriz disparou. No seu mundo, também era 12 de setembro. Era impossível, e ao mesmo tempo impossível não acreditar. — No meu mundo… também é dia 12 de setembro. — Ela sussurrou, quase para si mesma.
Gabriel abriu um leve sorriso, mas Beatriz podia ver a tensão em seus olhos. — Coincidência interessante — disse ele.
Ela não estava sorrindo. Porque coincidência já não era explicação suficiente. Se os dois mundos compartilhavam o mesmo dia, então talvez não fosse passado ou futuro. Talvez fosse outro universo acontecendo ao mesmo tempo.
— Você sempre vem aqui à noite? — perguntou Beatriz, desviando o olhar para a praça.
— Quase sempre — respondeu Gabriel. — Porque aqui é tranquilo.
— Só por isso? — Ela arqueou a sobrancelha.
— E porque sinto que algo importante vai acontecer aqui algum dia — disse ele, olhando para a fonte. A expressão em seu rosto era séria, quase profética.
Beatriz sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, misto de medo e fascínio. — Como assim? — perguntou.
— Não sei explicar — disse Gabriel. — Só sinto.
Ela se inclinou, observando as estrelas refletidas na água. — Talvez… — começou, mas a frase morreu em sua boca quando algo estranho aconteceu.
O som da fonte começou a diminuir gradualmente. A luz dos postes perdeu intensidade, tornando a praça mais borrada. O ar parecia pesado, como se o próprio mundo estivesse se dissolvendo ao redor deles.
— Não… — murmurou Beatriz.
Gabriel a observou, percebendo a expressão de pavor em seu rosto. — O que está acontecendo?
— Está acontecendo de novo — respondeu ela, levantando-se. — Eu acho que estou acordando.
— Espera! — Ele tentou segurá-la, mas a sensação de ser puxada começou a dominar todo o corpo de Beatriz. Cada vez mais intensa, como se estivesse sendo sugada por um vórtice invisível.
— Gabriel! — gritou, tentando fixar o olhar nele.
— Sim? — Ele segurou seus olhos com os dele, transmitindo algo impossível de explicar, uma promessa silenciosa de que estaria ali quando ela voltasse.
O mundo ao redor começou a desaparecer, primeiro os contornos, depois as cores, até que tudo se dissolveu em uma escuridão quase absoluta.
Beatriz abriu os olhos de repente. Estava de volta ao seu quarto, a luz da lua entrando pela janela. O coração batia acelerado, e a respiração estava irregular. Ela se sentou na cama, tentando recuperar o fôlego, mas algo a chamou atenção: o caderno.
Ele estava aberto sobre a mesa. E a folha que ela jurava ter fechado antes de dormir continha agora palavras novas — mas não eram da sua letra.
“Eu vou esperar você amanhã.
— Gabriel.”
O sangue de Beatriz gelou. O caderno parecia pulsar com uma energia própria, como se o papel tivesse guardado não apenas as memórias de outro universo, mas também a promessa de que aquele encontro não era um acidente.
Ela tocou a página com a ponta dos dedos, sentindo um arrepio percorrer-lhe o corpo inteiro. Era impossível. Não podia ser real… e, ao mesmo tempo, era. Gabriel havia deixado uma mensagem para ela, de algum lugar que não pertencia a este mundo, nem a qualquer lógica que ela conhecia.
— Isso… isso não pode estar acontecendo — murmurou, sentindo pela primeira vez o peso do multiverso pousando sobre seus ombros.
Ela sabia, no fundo, que o próximo sono não seria como os outros. Não havia volta. E que, de alguma forma, Gabriel a esperava novamente, em algum lugar que ela ainda não compreendia totalmente.