A descoberta do nome Miguel Duarte Moretti não saía da cabeça de Clara. O documento escondido no escritório de Dante era mais do que apenas um papel — era a chave para desestabilizar Isabella antes que ela tivesse a chance de agir. Mas ainda havia uma pergunta sem resposta: Quem era Miguel?
Clara sabia que não podia confiar em Dante ou Helena para obter essa resposta. Ambos pareciam ter enterrado o passado, e desenterrar segredos antigos era um risco perigoso.
Mas havia alguém que poderia ajudá-la.
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Uma Visita ao Passado
Na manhã seguinte, Clara saiu da mansão Moretti antes do café da manhã. Precisava falar com alguém que conhecia os segredos da cidade melhor do que qualquer um: Dona Mercedes, a antiga governanta da família.
Mercedes havia trabalhado para os Moretti por mais de três décadas, até se aposentar misteriosamente anos atrás. Clara se lembrava de ter ouvido que ela ainda morava em uma pequena casa nos arredores da cidade.
Ao chegar à residência simples e bem cuidada, Clara bateu na porta, sentindo o coração acelerar. Alguns segundos depois, uma mulher idosa abriu a porta, seu olhar atento percorrendo Clara dos pés à cabeça.
“Senhorita Isabella?” Mercedes disse, confusa.
Clara hesitou. Era estranho ouvir aquele nome, sabendo que não lhe pertencia. “Preciso falar com a senhora, Dona Mercedes. É importante.”
A governanta a encarou por um momento antes de abrir espaço para que Clara entrasse. A sala era aconchegante, com móveis antigos e fotografias envelhecidas nas paredes.
“Sobre o que quer falar?” Mercedes perguntou, sentando-se em uma poltrona.
Clara puxou o celular e mostrou a foto da certidão de nascimento. “A senhora conhece esse nome? Miguel Duarte Moretti?”
O rosto de Mercedes ficou pálido na mesma hora. Sua mão trêmula tocou os lábios.
“Então você descobriu…” a mulher murmurou.
Clara se inclinou para frente. “Preciso saber a verdade. Quem era ele?”
Mercedes respirou fundo antes de responder. “Miguel era o irmão de Isabella.”
Clara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. “Irmão?”
“Sim,” Mercedes confirmou. “Mas ele nunca teve a chance de crescer. Quando ainda era um bebê, um escândalo abalou a família Moretti. Algo aconteceu… algo terrível. E Miguel foi tirado da história como se nunca tivesse existido.”
Clara engoliu em seco. “O que aconteceu com ele?”
Mercedes desviou o olhar. “Ninguém sabe ao certo. Oficialmente, ele morreu de uma doença misteriosa. Mas há rumores… de que Isabella pode ter algo a ver com o desaparecimento do irmão.”
O sangue de Clara gelou. Isabella era capaz de muita coisa, mas envolver-se na morte do próprio irmão?
“Você acha que ele pode estar vivo?” Clara perguntou.
Mercedes hesitou, depois olhou nos olhos de Clara. “Se Miguel estiver vivo, então há algo que Isabella teme mais do que qualquer coisa: perder o direito à herança.”
A mente de Clara trabalhava rápido. Isabella voltou a Villa Serena para reafirmar seu domínio sobre os Moretti. Mas se Miguel estivesse vivo, tudo mudaria.
A questão agora era: Onde estava Miguel?
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A Sombra de Isabella
Ao sair da casa de Mercedes, Clara sentia o peso da revelação em seus ombros. Caminhava apressada pela rua quando percebeu um carro preto estacionado do outro lado da praça.
Seus instintos gritavam que algo estava errado.
Fingindo não notar, Clara entrou em um café e observou pelo reflexo da vitrine. O carro continuava parado, e ela teve a impressão de ver alguém dentro dele — alguém que parecia observá-la.
Isabella.
Clara sabia que estava sendo vigiada. Isabella estava atenta a cada um de seus movimentos.
Mas isso significava que ela estava no caminho certo.
Agora, mais do que nunca, precisava encontrar Miguel antes que Isabella a impedisse.
Clara manteve a postura relaxada enquanto tomava um gole do café que nem sequer havia pedido. O carro preto do outro lado da rua permanecia imóvel, sua presença uma ameaça silenciosa. Ela sabia que Isabella não jogava limpo. Se estava sendo seguida, significava que sua rival já desconfiava que algo estava errado.
Pegou o celular e discretamente digitou uma mensagem para Rafael:
“Preciso de você agora. Estou sendo seguida.”
Minutos depois, a resposta apareceu:
“Fique onde está. Estou indo.”
Clara manteve os olhos no reflexo da vitrine. O carro ainda estava ali, mas ninguém havia saído. Quem quer que estivesse dentro queria intimidá-la, ou talvez esperar o momento certo para agir.
Seu coração acelerava, mas sua mente estava firme. Isabella podia ser perigosa, mas Clara não era ingênua.
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O Resgate
O sino da porta do café tocou, e Clara suspirou aliviada ao ver Rafael entrar. Ele analisou o ambiente rapidamente e se sentou à sua frente, fingindo casualidade.
“Qual deles?” ele perguntou baixinho.
Clara olhou para o reflexo na vitrine. “O carro preto do outro lado da rua. Não sei quem está lá dentro, mas está aqui desde que saí da casa de Mercedes.”
Rafael estalou a língua. “Isso confirma o que já suspeitávamos. Isabella está te vigiando.”
“Ótimo,” Clara murmurou. “Isso significa que estamos no caminho certo.”
Rafael sorriu de canto. “Adoro quando você pensa como uma jogadora.”
Clara revirou os olhos. “O que fazemos agora?”
Ele se levantou, ajeitando o casaco. “Deixe comigo.”
Sem mais explicações, Rafael saiu do café e atravessou a rua com a confiança de quem não tem medo de um confronto. Clara segurou a respiração enquanto observava.
Ele se aproximou do carro preto e bateu na janela do motorista.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Então, o vidro desceu lentamente, revelando um homem de terno escuro e expressão impassível. Rafael sorriu e disse algo que Clara não conseguiu ouvir.
O homem respondeu secamente, e Rafael apenas balançou a cabeça antes de dar um tapinha no capô do carro e voltar para o café.
Clara o encarou quando ele sentou novamente. “E então?”
Rafael pegou o guardanapo da mesa e escreveu um nome antes de deslizar para Clara.
“Vicente. Segurança pessoal de Isabella.”
Clara franziu a testa. “Ela mandou um segurança atrás de mim?”
“Ela não quer que você faça nada sem que ela saiba,” Rafael explicou. “Mas a boa notícia é que agora sabemos que Isabella está preocupada.”
Clara apertou o guardanapo entre os dedos. “E a má notícia?”
Rafael olhou diretamente para ela. “Que isso significa que ela pode estar disposta a ir mais longe do que imaginamos.”
Clara sentiu um frio na espinha. Isabella já havia provado que faria qualquer coisa para proteger seu lugar.
E agora, Clara estava prestes a desafiá-la de verdade.
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Um Novo Aliado?
Mais tarde, naquela noite, Clara decidiu que precisava encontrar mais respostas sobre Miguel. Se ele estava vivo, alguém devia saber algo.
Rafael havia mencionado um nome: Padre Anselmo, um velho amigo da família Moretti que poderia ter informações sobre os segredos enterrados.
Sem avisar ninguém, Clara dirigiu até a pequena igreja de pedra na colina, afastada do centro da cidade. As luzes estavam acesas, e a porta entreaberta indicava que alguém estava lá dentro.
Ela entrou silenciosamente, sentindo o cheiro de incenso no ar. No altar, um homem idoso terminava de organizar algumas velas.
“Boa noite,” Clara chamou.
O padre se virou, e seu olhar se suavizou ao vê-la. “Isabella?”
Clara fechou os olhos por um segundo antes de responder. “Sim. Eu preciso falar com o senhor sobre algo importante.”
Padre Anselmo caminhou até ela, seu rosto carregando anos de sabedoria e segredos. “O que quer saber, minha filha?”
Clara respirou fundo. “Sobre Miguel Duarte Moretti.”
O padre ficou em silêncio. Seu rosto, antes calmo, tornou-se tenso.
“Por favor,” Clara insistiu. “Eu preciso saber a verdade.”
Padre Anselmo abaixou a cabeça por um instante, como se ponderasse se deveria falar. Então, com um suspiro profundo, ele olhou para Clara e disse:
“Se você quer saber sobre Miguel… então precisa estar preparada para o que vai encontrar.”
O coração de Clara disparou.
A verdade estava mais perto do que nunca.