O radinho no meu peito não parava de chiar, uma mistura de informes de rotina sobre a movimentação dos "canas" na base e a contagem do movimento das bocas. Mas, para mim, aquele som era apenas ruído de fundo. Eu estava parado no ponto mais alto do camarote, um lugar onde o vento bate mais forte e a visão da Rocinha se estende como um tapete de luzes e sombras aos meus pés. Dali, eu sou o rei. Dali, eu vejo tudo. E, ultimamente, meus olhos só buscavam uma única coisa.
Todo santo dia, no mesmo horário, ela passava.
Eu a chamava de "A Esmeralda do Morro". Eu não sabia o nome dela, não sabia de quem era filha, mas sabia exatamente o segundo em que ela aparecia na curva da ladeira. Ela era um contraste absurdo com tudo o que eu conhecia. Enquanto as outras minas do morro usavam shorts curtíssimos e tops decotados para chamar a atenção da gerência, ela se escondia. Usava camisões largos, calças que não marcavam nada, e um coque apertado no cabelo que parecia um castigo.
Mas para um predador como eu, disfarce nenhum funciona. Eu via o balanço dos quadris dela, o famoso corpo de violão que nem o tecido mais grosso conseguia esconder. Eu via o cabelo n***o, pesado como a noite, que às vezes escapava do prendedor. E o rosto... p***a, aquele rosto. Cheio de sardas que pareciam constelações salpicadas na pele clara, e aqueles olhos verdes que brilhavam mesmo de longe, como se ela tivesse uma floresta inteira guardada dentro de si.
Eu sou o dono dessa p***a toda. Se eu quisesse, mandava dois soldados buscarem ela pelos braços e jogarem na minha cama. Mas eu tenho meus princípios, uma linha que eu não cruzo. No meu morro, nada é na marra quando o assunto é mulher. Estupro é sentença de morte na minha mão, sem julgamento, sem segunda chance. Eu gosto do jogo. Gosto de ver o brilho do desejo, o medo misturado com a vontade, o momento em que elas se entregam porque querem o poder que eu carrego.
Só que com essa mina, o jogo nunca nem começou. Ela passava pelos meus vapores como se eles fossem parte da paisagem, como se o fuzil no peito deles fosse um acessório invisível. Ela não olhava para o lado, não dava um sorriso, não aceitava um elogio. Aquela marra me deixava possesso e, ao mesmo tempo, completamente obcecado.
— Tá em Nárnia, Coringa? O radinho tá chamando faz dez minutos, p***a.
A voz estridente da Carolaine rasgou meus pensamentos como uma navalha. Senti um gosto amargo na boca instantaneamente. Carolaine era a f**a de luxo da vez. Uma mulher bonita, com o corpo esculpido em clínicas de estética que eu paguei, mas que tinha a profundidade de um pires. Ela estava comigo há alguns meses, achando que o fato de eu deixá-la dormir no meu pé da cama de vez em quando lhe dava o título de "fiel". m*l sabia ela. No meu mundo, ela era p**a, era amante, era um alívio para o estresse. Mulher nenhuma tinha a chave do meu castelo.
— Não fode, Carolaine. Vai lá pra baixo, bebe tua bebida e fecha a boca — respondi, sem sequer olhar para trás. Minha voz saiu como um rosnado baixo.
— Você tá estranho. Tá sempre olhando pra rua com essa cara de quem tá caçando. É aquela garota da ladeira de novo, né? Aquela esquisita cheia de mancha na cara que se acha a rainha do deserto? — Ela se aproximou, tentando tocar meu ombro, marcando um território que nunca foi dela.
Eu me virei devagar. O movimento foi tão letal que ela parou no lugar. Meus olhos, frios como o aço de uma lâmina, cravaram nos dela.
— Você tá ficando com muita asa, garota. Tu é uma f**a. Uma f**a cara, mas só uma f**a. Eu não te dei autonomia para opinar na minha vida e muito menos pra abrir essa boca de lixo pra falar de quem eu olho. Quer continuar com a conta bancária cheia? Então vaza da minha frente antes que eu perca a paciência e te mande descer o morro de vez, sem sandália e sem dignidade.
Ela engoliu em seco, a máscara de petulância caindo e dando lugar ao medo puro. Saiu batendo o pé, mas para mim ela já era invisível. Eu estava exausto. Exausto daquela rotina de mulheres fáceis, de vidas vazias, de gente que só queria um pedaço do meu poder. Eu precisava de algo real. Algo que me fizesse sentir que o sangue ainda corria quente nas minhas veias.
Desci para o meu escritório, um bunker fortificado atrás do salão principal do baile. Sentei na minha cadeira de couro, joguei os pés sobre a mesa de madeira maciça e acendi um charuto. O silêncio durou pouco. Foguinho, meu sub, o cara que limpa o que eu sujo e que conhece cada palmo dessa comunidade, entrou com um brilho diferente nos olhos.
— E aí, paizão. O clima lá fora tá fervendo, mas aqui dentro parece que tu tá enterrando alguém — Foguinho falou, sentando-se à minha frente sem pedir licença. Ele era o único com essa liberdade.
— To precisando de ar novo, Foguinho. Tá tudo a mesma merda. Tudo carne de vaca, tudo previsível. Se eu ver a cara da Carolaine mais uma vez hoje, eu faço uma besteira.
Foguinho deu um sorriso de canto, aquele sorriso de quem sabe que tem a solução para um problema que eu nem sabia que tinha.
— E se eu te falasse que a solução pros teus problemas apareceu hoje lá em casa? Carne nova, Coringa. De primeira. E o melhor de tudo: nunca mexida. É virgem de fato e de direito.
Eu soltei uma fumaça densa e dei uma risada rouca, carregada de deboche.
— No morro, Foguinho? Tu tá de s*******m comigo? Aqui as novinhas perdem a inocência antes de trocar os dentes de leite. Se for mais uma das tuas "primas" querendo favores, pode ir tirando o cavalinho da chuva.
— Papo reto, Coringa. Sem caô. A menina é amiga da Mirele. Vive trancada, é escrava da madrasta c***l desde que o pai morreu. Ela trabalha no asfalto, limpa chão, sustenta as encostadas da família e nunca deu moral pra ninguém da pista. O nome dela é Maya. É aquela que você fica secando todo dia quando ela desce pra trabalhar.
O nome atingiu meu peito como um tiro de fuzil. Maya. O nome era tão bonito quanto a dona. Meu corpo tencionou na cadeira, e eu deixei o charuto de lado.
— E o que essa Maya quer comigo? Ela finalmente percebeu quem manda aqui e resolveu se render?
— O contrário, mano. Ela tá desesperada. A madrasta descobriu que ela tava de gracinha com um tal de advogado do asfalto, quebrou o celular dela, ameaçou a vida dela. A menina quer sumir. Quer fugir do morro, quer liberdade. Ela veio chorando na Mirele dizendo que aceitava qualquer coisa pra conseguir uma grana alta de uma vez e sumir do mapa.
Eu cerrei os punhos. Um advogado do asfalto? Só de imaginar um almofadinha tocando nela, senti uma fúria cega me invadir.
— E o que você propôs?
— Eu joguei o verde. Disse que tu tava de olho nela e que ofereceria uma nota preta por uma noite. Proteção total e dinheiro suficiente pra ela recomeçar a vida onde ela quiser. A Mirele quase me matou, disse que a menina é inocente, que não sabe nada de sexo, nada da vida... mas a Maya, com aquela marra toda dela, disse que aceita. Ela quer o dinheiro.
Eu senti uma mistura de satisfação e desprezo. Então a "Esmeralda" tinha preço? O orgulho de ser o dono do morro gritou mais alto.
— Você sabe que eu não pago por sexo, Foguinho. Eu sou o Coringa. Eu não preciso comprar mulher nenhuma.
— Eu sei, chefe. Mas essa daí é o teu desafio. Tu mesmo disse que ela ignora geral, que se acha. Imagina essa marra toda na tua cama, se rendendo porque não tem outra saída. Imagina o prazer de ser o primeiro a tirar essa pose dela, de mostrar quem é o homem que manda no destino dela. Ela vai cair no prato do carnívoro porque ela quer ser livre, mas m*l sabe ela que a liberdade dela tem o teu nome escrito.
Fiquei em silêncio por longos minutos, ouvindo apenas o som da ventilação do escritório. A imagem dela, com aqueles olhos verdes me desafiando, não saía da minha cabeça. A vontade de tocá-la, de ver se a pele dela era tão macia quanto parecia, de sentir o tremor do corpo dela sob o meu... era uma sede que água nenhuma matava.
Na minha mente, eu já estava traçando o roteiro. Seria apenas um "pente". Um bota na chapa. Eu faria o que tinha que ser feito, mataria aquela vontade acumulada, pagaria a dívida e mandava vazar no dia seguinte. Era o plano perfeito para acabar com aquela obsessão que estava me deixando fraco.
— Ela aceitou mesmo? Sem drama?
— Disse que é o jeito dela. Tá cega de raiva, querendo dar o troco na vida.
— Então demorou — falei, levantando-me com uma energia que eu não sentia há tempos. — Mas eu não sou de fechar negócio no escuro. Quero ver a peça de perto hoje. Vou estar lá no Bar do Seu Zé tomando uma gelada. Manda o carro buscar ela e levar pra lá. Quero ver se essa marra toda se sustenta na minha frente.
[…]
O Bar do Seu Zé ficava num ponto estratégico, no meio da subida, um lugar de respeito onde o povo ia para esquecer os problemas. Mandei o Zé baixar as portas principais, deixando só a lateral aberta. Eu queria privacidade. Sentei na mesa do fundo, a luz amarelada criando sombras longas na parede. Eu estava bebendo minha cerveja devagar, mas meu pé não parava de batucar no chão. Eu era o Coringa, p***a. Por que meu coração estava acelerado por causa de uma garota?
Dez minutos depois, o som do motor da Hilux preta ecoou na rua. Meus sentidos ficaram em alerta máximo. A porta do carro abriu e ela desceu.
Quando Maya entrou no bar, o mundo pareceu ficar em câmera lenta. De perto, ela era um desaforo à minha sanidade. O vestido simples marcava o corpo de violão, os quadris largos que eu imaginei segurando com força, a cintura que minhas mãos cobririam inteira. O cabelo n***o estava solto, selvagem, emoldurando o rosto com as sardas que agora eu podia contar uma a uma.
Mas foram os olhos. Aqueles olhos verdes de selva me encararam com um medo que ela tentava esconder atrás de uma máscara de gelo. Ela caminhou até mim com o queixo erguido, como se estivesse indo para uma execução, mas sem baixar a guarda.
— Então você é a mina que quer vender a liberdade por uma noite? — Minha voz saiu mais rouca do que o normal, vibrando no ar parado do bar.
Ela engoliu em seco. Vi o movimento suave do seu pescoço. Ela deu um passo à frente, parando bem na orla da luz da mesa.
— Eu não estou vendendo minha liberdade — ela respondeu, e a voz dela, embora trêmula, tinha um fio de aço que me impressionou. — Estou comprando ela de volta. E você é apenas o banco que vai me dar o valor necessário.
Eu dei um sorriso predatório, mostrando os dentes. A ousadia dela era o combustível que eu precisava. Me levantei devagar, minha altura e minha largura dominando o espaço. Parei na frente dela, sentindo o cheiro de sabonete simples e pele jovem. Levei minha mão, coberta de tatuagens e cicatrizes de guerra, até o rosto dela.
Ela tentou recuar, mas eu fui mais rápido. Segurei sua nuca com firmeza, os dedos enterrados naquela massa de cabelo n***o, obrigando-a a olhar diretamente para o abismo que eram os meus olhos.
— Tu tem muita marra pra quem tá vindo pedir favor, novinha. Eu gosto disso. Mas você sabe que eu não sou um homem gentil. No meu mundo, tudo tem um preço, e os juros de uma noite comigo costumam deixar marcas.
— Eu sei quem você é — ela sussurrou, a respiração ficando curta. — E aceito o preço. Só me dê o dinheiro e eu serei sua por essa noite.
Eu olhei para o Foguinho por cima do ombro dela. O plano original de "bota na chapa e manda vazar" morreu ali mesmo, no momento em que senti o calor da pele dela. Eu não levaria aquela joia para qualquer lugar.
— Foguinho — chamei, sem tirar os olhos de Maya.
— Fala, patrão. — Leva ela lá pra cima. Pra minha mansão no topo do morro. Manda os seguranças limparem a área. Prepara o quarto principal.
Foguinho arregalou os olhos, em choque total. Ele sabia que mulher nenhuma, nem a Carolaine, nem as amantes mais antigas, jamais tinham passado do portão da minha fortaleza pessoal. A mansão era o meu templo, o lugar onde eu era apenas o homem, não o chefe.
— Mas... Coringa... a mansão? Tem certeza disso? Ninguém entra lá...
— Eu não gaguejei, Foguinho! — Gritei, e o som da minha voz fez as garrafas no balcão vibrarem. — Leva ela pra lá agora. Vou terminar minha cerveja e subir para cobrar a primeira parcela dessa dívida.
Maya me olhou com uma mistura de pavor e confusão. Ela sabia que algo tinha mudado. Ela achava que era apenas um negócio, uma transação rápida. Mas ao entrar no carro que a levaria para a minha casa, ela estava entregando a alma.
Virei o resto da cerveja de um gole só, sentindo o amargor do álcool e a doçura da antecipação. O "pente" tinha acabado. Eu não queria apenas uma noite. Eu queria a posse total. Eu ia quebrar aquela marra, ia desvendar cada sardinha daquela pele e ia garantir que, depois que eu terminasse com ela, o tal advogado do asfalto não passaria de uma lembrança apagada.
Maya achava que estava fugindo de uma prisão. m*l sabia ela que estava apenas trocando de carcereiro. E eu seria o tipo de carcereiro que ela nunca mais conseguiria esquecer.