Estou de saco cheio de toda essa má sorte
Ouvir mais um: Mantenha sua cabeça erguida
Isso nunca vai mudar?
Então me deixe apenas desistir
Então me deixe apenas deixar ir
Se isso não é bom para mim
Bem, eu não quero saber
- You Don't Know| Katelyn Tarver
— SEU i****a! VOCÊ ACHA QUE SOU OBRIGADA A AGUENTAR AS SUAS PALHAÇADAS? — gritou— TODO FIM DE SEMANA VOCÊ FAZ ISSO, HARRY!
— Fala baixo, Cath... — o homem resmungou, apertando as têmporas, com a ressaca de dois dias seguidos afundado no álcool se manisfetando.
— FALAR BAIXO? VOCÊ ACHA QUE EU SOU TROUXA? — Catherine continuou esbravejando em plenos pulmões. — A SUA FILHA DAQUI A POUCO COMPLETA DEZOITO ANOS E VOCÊ NÃO MUDA! QUER VIDA DE SOLTEIRO? ENTÃO VAI TER, AGORA BEM LONGE DE MIM!
Esse era o "bom dia" super comum que Melanie tinha. As rotineiras brigas após o rotineiro fim de semana de bebedeira do pai. Os estresses, os gastos e prejuízos que ele trazia para casa depois de passar o sábado e domingo curtindo com os amigos e gastando todo o seu dinheiro... E ainda reaparecer de madrugada, pedindo mais dinheiro — o que era impossível, já que ele gastou tudo.
Tudo caía nos braços de Catherine Foxier, sua mãe.
A responsabilidade e as noites sem dormir, tudo.
Melanie os cumprimentou, acabando de arrumar sua mochila. Não gostava de deixar sua mãe sozinha, mas sabia que ela dava conta do pai. Ele provavelmente sairia com os ouvidos bem cheios e uma bela enxaqueca.
— Oi, filha.
— Pai! — abraçou de lado o pai, que sorriu um pouco. Apesar dos "apesares", Harry era um pai carinhoso e extremamente protetor com a sua única filha. Melanie tinha os mesmos fios castanhos e sorriso cativante do pai. — O senhor pode me deixar na escola, a caminho da oficina?
— Posso sim!
Catherine os olhou e soltou o ar, meio impaciente. Sabia o que a garota estava fazendo, aquele era o jeito dela de aliviar e evitar que eles brigassem feio. Melanie tentava equilibrar os dois lados. Era pelo justo.
E sua manhã já havia sido conturbada, sua noite de sono quase extinta e, do nada, vem um professor e assalta um dos seus bebês, o seu livro predileto.
Se isso não era um modo de irritá-la, avisem-na que estava equivocada.
Matthew, por sua vez, estava sentindo a ansiedade pulsar de modo intenso nas veias. Durante esses primeiros meses ensinando para as outras turmas da Blue Devils, nunca, em hipótese alguma, deu de cara com um aluno que realmente gostasse da Literatura, não por pura obrigação, mas por gostar e amar as palavras.
Dizer que encontrou sua pupila principal era um eufemismo.
O exemplar que pegou da garota pesava nas mãos. As lombadas e as folhas amareladas denunciavam que ela realmente perdia tempo o lendo. Não só isso, mas também as várias notas de cabeçalho e rodapé, com uma letra cursiva e comentários sarcásticos, cheios de romantismo, porém coerentes e nada beirando a loucura. Melanie Foxier seria interessante de se lidar.
Apesar de ter sido claramente furtada pelo professor novato e ele ter levado um de seus exemplares favoritos, Melanie se sentia estranha em relação a tudo isso. Não que tenha sido cega e não enxergado a beleza gritante do homem, porém, era algo a mais. Quase como um tempero exótico sob os belos olhos azuis ou o modo em que tentou ser galante com ela.
Todavia, a jovem não tinha tempo para ficar se questionando sobre esses fatos banais, tinha mais o que fazer, como acabar de estudar para a prova de física e se concentrar em continuar em manter o seu penúltimo ano no colegial com notas elevadas e tão azuis quanto os próprios smurfs. E foi com esse pensamento em que tentou — com o máximo de vontade que pode — conter o impulso de ir bater na porta daquele ladrão de livros para tomar o seu pequeno e cheio de lombadas Hamlet, respirar e seguir o seu caminho até a aula do professor Jackson Litt, um senhorzinho barbudo e com cara de irritado.
— Melanie! — Alguns garotos a cumprimentaram e Melanie apenas retribuiu com um aceno simples. Não dava muita conversa para eles, pois sabia muito bem o que queriam e tinha até listado os itens, que são: pedir resposta nas provas e... Ah, pedir respostas nas atividades.
E como ela não iria ser burra o suficiente só em cogitar ceder aos caprichos deles, os ignorou.
Não é questão de desconfiança, é ter consciência e já ter levado algumas boas surras da vida, mesmo sendo nova.
Ser gorda a fez passar por poucas e boas desde os primeiros anos de colégio, bullying, brincadeiras de m*l gosto e já até tinha sido alvo de um grupo que queria a espancar. E, por mais que tudo isso tenha formado uma ferida que não se fecha, apenas finge estar cicatrizada, a menina erguia a cabeça, tendo em sua mente a ideia de que, se vitimizar ou ficar caída no chão nunca vai ajudar. Se você cair, se apoie no próprio chão que amorteceu a sua queda e levante, por mais que doa, o importante da queda é o momento em que você se ergue novamente, mais forte e imune à aquele golpe. A dor serve de antibiótico, nos deixando preparados para quando esse vírus nos atinja.
— Bom dia, Sr. Lit — Ela murmurou, entrando na sala e sentindo boa parte dos olhares a acompanharem. O senhor alargou o sorriso e fez uma pequena reverência à garota.
— Minha aluna predileta chegou! — Sim, apenas ela conseguia fazer o velho professor de Física sorrir. Não perguntem como, era apenas uma dádiva acompanhada por intenso estudo e horas de esforço para decorar todas fórmulas. Não que gostasse de ser o centro das atenções, porém era a consequência de ter tantas notas azuis.
— Deixe-me corrigi-lo, Professor Litt, sua bola preferida chegou! — Um dos babacas do time de futebol gargalhou em alto e bom som, fazendo toda a sala de aula o seguir. — Uma bola que eu não me proponho a chutar! — Continuou e o professor, como sempre, fingiu que não ouviu. Ela puxou o ar e sentou-se na sua habitual banca frente ao birô, pegando seu material.
— Uma bola? Acho que deve estar mais pra um tipo extinto de Orca! — Dessa vez ela identificou a voz, era John Hille, o capitão do time de "imbecis". A beleza tão trivial do rapaz não condizia com a personalidade imatura e horrível dele. E novamente, as pessoas o seguiriam na risada.
Melanie tentou manter seu humor na linha, mas o seu bom dia foi um desconhecido levando seu livro favorito e John e sua trupe conseguiram acabar com o resto de paciência que sobrou. Então, com um suspiro, ela se virou, dando o seu característico sorriso sarcástico.
— Se eu sou uma Orca, você é uma anta, Hille.
O professor coçou a garganta, cessando quaisquer indícios dessa pequena "discussão". Que não era culpa da garota, pois apenas rebateu o xingamento, apesar do ditado "olho por olho, dente por dente" ser errado.
— Vamos prestar atenção aqui nas leis da velocidade contr... — Abriu a boca, distribuindo as provas e Melanie se dispersou, afundando-se nas questões e ficando surpresa por estar ansiosa para a sua primeira aula com o substituto da sua professora predileta, Jess, que, felizmente, foi chamada para um intercâmbio na Alemanha, só afirmando ainda mais a clara concepção que a menina tinha de quê as as boas coisas vêm para aqueles que se esforçam para tê-las.
Como sempre, a garota foi a primeira a entregar a prova, tendo que passar os trinta minutos restantes escutando "psius", sentindo borrachas e pequenas bolinhas sendo jogadas em si para passar as respostas. Acostumada, ignorou todos, xingando mentalmente até a décima quinta geração do professor que pegou o único livro que havia trazido hoje, pois tinha saído tão estressada de casa que esqueceu de pegar mais um.
Quando o sinal tocou, Melanie praticamente saiu correndo da sala, acariciando o antebraço que poderia estar com hematomas depois de ter sido atingido por tantas borrachas. Entretanto, foi no caminho até a aula do usurpador de livros que lembrou de um grande detalhe: O seu livro continha notas de rodapé bem particulares, falando sobre a sua conturbada vida e várias falas sarcásticas... Coisas pessoais e que agora estavam na mão de um charmoso, porém completo desconhecido professor.
— Merda... — Limitou-se a xingar, parando em frente da porta e respirando bem fundo. Teria de lidar com isso, mais um problema para a sua bela cota já repleta. Girou a maçaneta, já ouvindo o burburinho de várias garotas ao olhá-lo. Essa reação delas era a mais previsível do mundo. Ele era bonito, tinha que admitir, mas... Havia algo a mais. Um ponto indeterminado no azul tão intenso daqueles olhos...
Matthew já estava ficando agoniado, pensando que a garota poderia não aparecer quando a porta abriu e um semblante meio m*l-humorado apareceu. Ele tinha lido várias das notas do livro e, com certeza, estava perplexo. Eram tantas coisas, tantos problemas, sentia uma empatia estranha com a jovem, sabia o porquê, mas era difícil de admitir em voz alta.
— "Dormir, dormir, dormir... Talvez sonhar." — O professor citou e ela congelou antes que pudesse sentar na banca a frente dele, até que gostaria de ir para trás, mas corria o risco de sentir náuseas com todos aqueles suspiros à direção do mais velho. O trecho de Hamlet que citara foi o que havia anotado um breve dizer "é impossível sonhar quando são os problemas que transformam nossa noite em um inferno". — Sabem de quem essa citação e a qual livro pertence? — Os olhos azuis encontraram os castanhos por alguns milésimos e Melanie revirou os olhos.
Lindsay, uma loira muito bonita por sinal, ergueu o dedo, lambendo os lábios enquanto fitava Matthew. Ele só acenou simpaticamente para ela, temendo a sua resposta, já sabia a fama das respostas sem sentido da menina.
— Pode falar, senhorita...
— Lindsay Wilson... Essa frase é do Cinquenta Tons de Cinza? — Pestanejou algumas vezes e o professor arregalou os olhos. Melanie estava tomando um gole d'água e quando escutou a resposta, passou perto de morrer entalada. Não sabia se ria ou tossia. Alguns outros alunos mais conscientes também a acompanharam.
— Creio que não, Srta. Wilson... — Ele coça a nuca de maneira adorável e troca um olhar brincalhão com Melanie, meio ofendido por ela estar se divertindo à suas custas. — Pode me responder, Srta. Foxier? — Ergueu as sobrancelhas, tentando não rir quando ela prendeu a vontade de revirar os olhos.
— Shakespeare, Hamlet.
Ele riu, pousando a mão no livro e até jurou ter escutado um rosnar baixo vindo da banca a sua frente.
— Muito bem... Mas, antes de começarmos a estudar, que tal eu me apresentar, certo? — Desceu do birô, escrevendo no quadro n***o com o giz. Está aí, uma parte que gostava da High School Blue Devils, eles continuaram com a tradição do velho giz branco. — Meu nome é Matthew Hayes, sou o professor substituto de Lit... Ah, vocês sabem a matéria! — Gargalhou, exibindo belas covinhas nas bochechas. — Estou aqui para mostrar a vocês que ler pode ser divertido!
Melanie observou a letra cursiva do professor, achando-a impecável. Era o tipo de caligrafia que só se via em cartas antigas, milimetricamente calculada e, mesmo assim, parecia espontânea.
— Não parece ter idade para ser professor... — Uma das amigas da Lindsay cantarolou, enrolando uma mecha do cabelo ruivo nos dedos. — Aliás, quantos anos têm? — Perguntou.
— Acabei minha graduação em Literatura com louvor e fui indicado pela professora Jéssica. No momento, também faço faculdade de Direito. — Sorriu e cruzou os braços, a camisa social azul evidenciou alguns músculos que os olhos atentos de Melanie logou notou. — E minha idade não lhe diz respeito, senhorita. — Com certeza o homem tinha exagerado, os olhos da ruiva se arregalaram e ela achou algo mais interessante para fazer.
A menina queria rir e gritar um "boa tática", mas guardou para si, afinal, apesar da recepção aparentemente divertida que ele teve com ela, a postura que adotou agora demonstrou um homem bem reservado.
— A única coisa que vou pedir a vocês é a dedicação. — O rapaz continuou, dessa vez, encostando-se ao quadro e encarando todos de maneira sóbria. Se adotasse uma abordagem jovial, as alunas mais atiradas acabariam dando trabalho e colocariam o seu emprego em risco. — Darei meu sangue à essa sala de aula e desejo reciprocidade. — Deixou os olhos caírem no relógio e soltou um breve sorriso que Melanie até achou bonito. — Podem sair, na próxima aula realmente começaremos.
As pessoas saíram pouco a pouco e Matthew prendeu o sorriso quando notou que a garota permanecia no mesmo lugar, sem mexer um único músculo. Mesmo depois da demonstração de frieza que acabou de dar. Então, desmanchou o olhar divertido e fechou a cara.
Melanie revirou os olhos, achando toda aquela atuação muito banal.
— Devolva meu livro e eu finjo acreditar que você é o professor mais chato dessa escola — Estendeu a mão, mas antes que pudesse puxar o exemplar que descansava no birô, ele pegou, agarrando o livro. Foi impulsivo? Talvez. Porém não deixaria uma das alunas mais intrigantes que pôde conhecer ir embora dessa forma. — O que pensa estar fazendo? Eu quero meu livro de volta! Isso é furto! — Ela apontou e o rapaz soltou uma risada.
— Qual é o seu nome?
A garota revirou os olhos, sem entender aonde ele queria chegar.
— Não vou dizer, você devia saber... É o professor! — Ele queria dizer a ela que se tivesse que esperar mais algumas horas para olhar na chamada, provavelmente surtaria de ansiedade. O mistério que ela fez sob ele o cercou durante todas as primeiras aulas. Melanie semicerrou os olhos, rápida e esperta como uma raposa, soltando uma risada logo após — É isso, — o analisou — você não sabe e deve estar morrendo de curiosidade...
Matthew cerrou o maxilar, tentando entender como uma menina de dezessete anos era tão inteligente. Disfarçando a surpresa, ele remexeu o queixo e soltou o ar.
Era melhor ser sincero.
— É, eu não sei o seu primeiro nome... Poderia me dizer, cara senhorita?
A jovem ergueu as sobrancelhas, empoleirando-se no birô, as pernas balançavam de maneira rápida.
— Tomar um tom de Mr. Darcy não vai funcionar, Sr. Hayes... — Murmurou e ele sorriu, ela realmente era rápida — Mas antes que sofra um infarto, o nome da dama que está tentada a berrar com você por ter roubado seu livro preferido é Melanie.
Matthew achou a sonoridade do nome perfeita, mas tentou não demonstrar, só aquiesceu.
— Eu sou o Matthew.
— Sério? Eu nem sabia! — o sarcasmo destilou das suas palavras e o rapaz prendeu o riso. O sino tocou novamente e antes que ela pudesse se inclinar e puxar o livro, ele foi mais rápido. A garota grunhiu alto. —Me. Devolve!
— Eu posso devolver na próxima aula? — ele arriscou.
Melanie bufou, batendo os pés.
Estava atrasada para as outra aulas, não podia ficar de bobeira com o Sr. Hayes.
— No intervalo eu vou te achar e você vai ter que me devolver o meu exemplar de Hamlet! — ela saiu correndo, deslizando nos corredores para a aula de Filosofia. Deixando Matthew com um sorriso de menino travesso nos lábios.
— Com certeza, eu devolverei, Melanie — ele sussurrou, encarando o livro responsável por toda essa cena. Agradeceria a Shakespeare quando fosse possível.