Sumayla sorriu irônica, intrigada.
— Olha só, mais uma vira-lata sem controle na vizinhança.
Zay foi indo até o portão, perto de Rick.
— Não a vimos. Se passou por aqui, foi por vontade própria e não ficou.
Nilufer foi saindo, encarando Sumayla.
— Desculpa por estragar o seu brinquedinho.
Se aproximou do portão, também encarando Zay. Eles podiam sentir o quanto ela estava hostil, era uma ameaça que demonstrava a intenção de causar problemas. Rick agradeceu, perguntou se ele poderia avisar caso visse Kaya. Zay respondeu irônico:
— Em nome dos velhos tempos? Pode deixar.
Nilufer foi saindo na frente, confusa.
— Estão mentindo. Você não sente o cheiro dela também?
— E se a prenderam, machucaram?
Rick garantiu que não iriam fazer nada assim, até porque lá era o lar deles, com crianças e tudo mais. Comentou que Sumayla odiava a todos que não fossem apenas bruxos, mas era alguém do bem, na medida do possível.
Impaciente, Nilufer quis ir para a cidade. Continuou ignorando a mãe. Foram de carro, ela quis passar na casa delas para olhar. Foi entrando pelos fundos, ainda confusa com o olfato. Percebeu que tinha mais alguém lá perto. Lorian estava em cima do barranco observando tudo, transformado em lobo. Ficou intrigado olhando Nilufer tão diferente em poucos dias. Ela o viu e ficou encarando hostil.
Rick estava entrando na casa. Sentiu o cheiro de Kaya e ouviu barulho vindo do quarto. Também teve receio de que ela tivesse feito algo errado. Abriu a porta apreensivo. Kaya estava presa, dormindo sentada, encolhida no chão. Acordou no susto, desorientada, com medo. Ele pôde sentir. Se aproximou rápido, com dó, abaixou arrebentando a corrente.
— Vai ficar tudo bem! Não precisa ter medo.
Kaya ficou sem reação, encolhida. Nilufer estava entrando, se aproximou nervosa.
— O que aconteceu? Você tá bem?
Se abraçaram. Kaya começou a chorar, sentida, pedindo desculpas. Disse que não queria atrapalhar nada. Nilufer sorriu, enxugando suas lágrimas.
— Você não atrapalha nada. O que aconteceu ontem?
— Já sei de tudo, sobre o que somos. Ela te prendeu aqui, não foi?
Confusa, Kaya balançou a cabeça que não. Nilufer a ajudou a levantar, mudou os olhos, a olhando fixamente.
— Vamos ficar bem, tá bom?
— Juntas vamos passar por isso.
— Você não é doente, não tem nada errado na sua cabeça, tecnicamente.
Segurou a mão de Rick, que estava em pé ao lado.
— Também sou diferente, nós dois somos.
Sem muita reação, Kaya não sabia nem o que dizer. Apenas concordou. Ouviram barulho no quintal. Rick foi olhar a janela.
— Não estamos sozinhos. — Ele disse.
Nilufer foi saindo do quarto irritada, sabendo exatamente quem era.
— Não quero ele perto de nós.
Nem deu tempo de impedirem. Saiu rápido para o quintal no fundo. Kaya e Rick foram atrás. Lorian estava lá. Foi se aproximando de Kaya. Nilufer era a mais hostil, ele pôde sentir.
Kaya ia ir para a frente da irmã, teve medo dele fazer algo. Nilufer não deixou. A empurrou afastando, colocando para trás.
— Não tenho medo de você, vá embora.
— Ela não precisa mais de você. Acha que vai recuperar o tempo perdido?
— Você nunca quis ela. Não vai bagunçar a cabeça da minha irmã mais ainda.
Ele não gostou. Foi ficando hostil, como se fosse atacar. Kaya se aproximou de Nilufer, a segurando pela mão.
— Vai embora. Minha mãe sempre teve razão, você não se importa com ninguém além de si.
— Eu não preciso das suas esmolas de afeto. Eu precisei de você e me deixou sozinha.
Lorian sabia que não poderia conversar melhor com a irmã de Kaya junto e, às vezes, até concordava sobre só conseguir pensar em si sendo sozinho. Foi embora irritado.
Nilufer segurou as mãos de Kaya.
— Ele não vai trazer nada de bom pra você, pode ter certeza.
— Precisa evitar de se colocar em mais problemas.
— Vamos embora, todos estão preocupados com você.
Kaya apenas concordou. Nilufer foi entrando, a segurando pela mão.
— Eu tô tão surpresa quanto você. Agora muitas coisas fazem mais sentido.
— Você tá toda suja, vem tomar banho.
— Quebrou outra janela?
Rick estava quieto, olhando elas próximas. Nas poucas vezes que o olhar se cruzou com o de Kaya, ela o evitou sem jeito, constrangida. Foi entrando no banheiro. Nilufer se fechou junto, a colocou no banho e logo saiu. Foi pegar roupas. Ele estava sentado em sua cama, sério.
— E aí, como ela está? Já avisei a minha mãe que está tudo bem!
Nilufer se sentou em seu colo, chateada.
— Acho que está confusa, com medo. Eu não sei, tem algo diferente nela.
— Tô com tanta raiva da minha mãe agora.
— Sinto que muitas coisas não fazem tanto sentido.
— O pior é não confiar no que será dito. A minha vontade é só evitar ela e cuidar da minha irmã.
— Me sinto super culpada por não ter vindo ontem. Pra mim foi tudo incrível, perfeito. Me dói saber que tem sido totalmente diferente pra ela.
— Acha que vai acontecer algo hoje?
Ele estava com o pensamento distante, também se sentindo culpado. A beijou sutilmente.
— Acho que sim… e se a gente não voltar? Não hoje!
— Podemos ir para o chalé de novo. As coisas estão no carro. Vocês pegam aqui o que faltar ou compramos.
— Se alguém pode ajudar ela agora, é você.