Foram embora confusos e preocupados. Começaram a discutir porque Sumayla era extremista e a vontade dela era contar tudo aos vampiros, nem que fosse só de raiva dos lobos. Mas ela temia muito, eles também.
Yesenia estava trabalhando. Évora pediu para que uma cunhada buscasse Nilufer e a levasse para a fazenda. Quando ela chegou, sem saber de nada, já suspeitou que algo r**m havia acontecido. Évora estava na varanda esperando, agradeceu a cunhada e foi pegando a mochila de Nilufer.
— Oi, querida. Desculpa por não ir te buscar.
Nilufer entrou olhando tudo, como quem procurava por algo.
— Oi, imagina… Cadê minha irmã? Tudo bem?
Évora ficou sem jeito, foi indo para o quarto.
— Ela está descansando. Hoje à tarde, quando eu saí, sua mãe e ela brigaram.
— Depois sua mãe te conta tudo melhor.
Nilufer foi tomando a frente. Ao ver Kaya dormindo presa, ficou com os olhos marejados.
— Mas o que ela fez? Ela estava bem quando eu saí…
Sentou na beirada da cama, acariciando o rosto de Kaya.
— Ontem estava bem…
— Sabe onde estão as chaves?
— Ela está dopada, não é? O que é isso?
Olhou o pulso machucado. Évora se aproximou, com dó, buscando palavras, respondeu.
— Acho que foi preciso medicá-la para se acalmar.
— Não sei onde estão as chaves.
— Ela se feriu… não deve ser a primeira vez, pelo que sua mãe falou.
Nilufer começou a chorar, confusa. Com pena da irmã.
— Não… ela nunca tentou nada assim.
— Vou procurar as chaves. Estou cansada de vê-la presa.
Foi para o quarto da mãe, revirou tudo, bagunçando. Começou a chorar, irritada. Évora ficou olhando, sem saber o que fazer, pediu para ela ir jantar e tomar banho, porque ficar daquele jeito não ia adiantar nada.
Nilufer mandou uma mensagem para a mãe pedindo as chaves. Foi lida e ignorada. Nem conseguiu comer, nervosa. Antes de dormir, todos os dias, Rick ligava para conversarem. Há horas ele não estava nem online. Ela ligou chorando, começou a falar que não estava bem e que não aguentava mais tudo aquilo. Ele disse que a mãe tinha comentado apenas, perguntou se ela achava que a irmã tinha se ferido tentando se matar. Ela respondeu exultante:
— Já não sei mais o que achar. Desde que nos mudamos, ela está diferente. Muito distante.
— Não dá pra falar por aqui, mas… acho que tem algo errado acontecendo!
Tentando colocar panos quentes, ele disse que talvez Kaya estivesse apenas confusa, desconfortável com as mudanças e chateada por causa do padrasto dela. Nilufer respondeu hostil:
— Não é ela o único problema por aqui.
— Por que ela estaria chateada por causa do meu pai?
— Pelo visto você também já está acreditando nas coisas que a minha mãe fala.
— A Kaya não fez nada!
— Se você a conhecesse de verdade, iria saber que…
Ele interrompeu:
— Não estou acreditando em nada.
— Só acho que não é legal ela ser acusada como tem sido.
— Já te disse que quero ajudar, como puder.
— Nilufer, fica calma, é só uma fase, logo isso passa.
— Vocês vão recomeçar aqui.
— Ela tem você e agora vocês têm a mim e a minha família.
— Sei que sua mãe é bem difícil.
Ela disse que precisava desligar. Super cansada e irritada, percebeu que ia acabar descontando nele. Nem se despediu como de costume.
Foi deitar no quarto de Kaya. Ficou bastante tempo a olhando fixamente. Começou a pensar que talvez fosse melhor deixá-la partir, até sozinha, para viver a própria vida, sem a influência da mãe.
Kaya não era a única influenciada pelas mudanças e pela cidade. Aquele lugar também estava mudando Nilufer pouco a pouco. Começou pelos pensamentos com Rick, coisas normais que antes eram motivo de se policiar e se envergonhar mentalmente. Depois, a irritação e a atitude para falar o que realmente pensava, com a mãe e a irmã.
Ser contida e focada sempre foi sua melhor qualidade. Por muitas vezes, Nilufer se anulou para o bem dos outros. Não era de reclamar ou questionar nada, mas isso logo iria mudar e ela podia sentir.
No dia seguinte, Nilufer tentou acordar Kaya antes da mãe chegar. Évora a fez tomar um pouco do chá. A levaram ao banheiro com dificuldade, ainda dopada. Ela vomitou e não conseguia parar em pé. Yesenia chegou e parou na porta do banheiro com aquele olhar de julgamento. Perguntou:
— O que estão fazendo?
— Nilufer, vai se arrumar. Vou te levar.
Ela se aproximou, irritada.
— Cadê as chaves? Preciso soltá-la.
— Vou dar banho nela antes.
— Se demorar muito, eu nem vou.
— Por que insiste em prender ela?
— O que aconteceu dessa vez?
Yesenia começou a mexer na bolsa, irritada.
— Não vou ficar discutindo com você, Nilufer.
— Eu sei o que faço!
— Estou super cansada.
— Você, ao invés de facilitar as coisas, só está piorando.
— Vá se arrumar e deixe que eu faço isso.
— Évora, não precisa ter mais trabalho conosco, mil desculpas.
Pegou as chaves. Nilufer tomou da mão dela, vermelha como uma pimenta, falou irritada.
— Eu vou dar banho nela!
— Está cansada? Vai descansar!
— Não vou a lugar nenhum hoje.
— Não adianta o que fale ou faça.
— Vai me acorrentar também?
Yesenia perdeu a cabeça. Irritada, deu um tapa bem servido no rosto de Nilufer, gritou com ela.
— Abaixe esse tom de voz comigo!
— O que está pensando? Quer ser como ela?
Como quem nunca havia apanhado daquela forma, Nilufer foi pega de surpresa. Levou a mão ao rosto, desacreditada. Não disse nada e foi soltar Kaya. Enquanto dava banho nela, chorou de raiva, escondida da mãe. Kaya estava sonolenta e confusa, nem soube ao certo se aquilo realmente tinha acontecido ou não. Voltou a deitar e dormiu de novo.
Yesenia as deixou sozinhas. Évora foi atrás para conversar. Novamente comentou que queria ajudar, talvez pedir opinião a outras bruxas mais experientes, fortes.
Cheia de drama, Yesenia voltou a dizer que tinha medo da filha e que não podia deixá-la ferir mais ninguém. Começou a falar que estava dando um jeito de levar Kaya para longe e que, se Nilufer decidisse ir também, só ia depender do Rick para convencê-la a ficar.
Évora já estava ficando desesperada com tamanha bagunça. Fingiu concordar e disse que ia conversar com o filho.
Nilufer não foi a lugar nenhum o dia todo. Ficou destruída por levar um tapa. Não almoçou nem falou nada com a mãe, apenas a evitou. Por mensagem, disse ao Rick que precisava conversar. Só porque ele demorou para responder, ela desistiu de falar e passou a ignorá-lo também.
Kaya estava indo e voltando para o mesmo sonho, só que o lobo havia ido embora desde cedo. Lá, ela só dormia o tempo todo.
No final do dia, acordou se sentindo melhor. Até achou estranho a irmã no quarto o tempo todo. Perguntou o que tinha acontecido. Nilufer estava sentada assistindo. Se levantou e foi sentar na beirada da cama.
— Não se lembra de novo Kaya?
Segurou a mão dela.
— Vocês brigaram…
— Olha, me fala o que aconteceu?
Kaya olhou o pulso, franziu a testa, incomodada, respondeu confusa.
— Não sei…
— Há quanto tempo eu tô dormindo?
— Que horas são?
Nilufer foi pegando roupas no guarda-roupa, com aquele olhar cético, de exaustão.
— Dois dias.
— Vai dar nove horas.
— Vem tomar banho.
— Vou pegar alguma coisa pra você comer.
Kaya se levantou meio atordoada.
— Me desculpa…
— Não tô conseguindo me controlar, devo estar piorando.
— Não posso continuar aqui, vou acabar ferindo alguém.
— Talvez seja melhor me internar mesmo.
— Não quero ser um fardo pra você.
— Por que não foi fazer o seu curso?
Então viu a marca do tapa.
— O que houve com o seu rosto?
— Nilufer, o que foi? Quem te bateu?