Capítulo 7

2071 Words
O sol já havia nascido, Kaya acordou caída na mata, descalça, desorientada, com o vestido rasgado, sentindo um gosto forte de sangue, e terra. Com o corpo todo doendo, sem entender o que havia acontecido, se sentou, sentindo que estava sendo observada, olhou para os lados e não viu ninguém. O sol pareceu arder mais que o normal, o barulho do vento e dos passarinhos, a incomodava muito. Sentiu que tinha sangue no rosto, na roupa também. Cambaleando, se levantou e foi andando até sua casa, com a sensação de estar sendo seguida, teve medo por tudo e uma insegurança nunca sentida tão forte antes. Quebrou uma janela para entrar, tomou banho para tirar o sangue que não parecia todo seu e jogou as roupas no lixo do vizinho. Antes que pudesse pensar em uma boa explicação, ouviu sua mãe entrando aos berros, furiosa. m*l pôde abrir a boca, os sermões estavam repletos de ameaças, ofensas e uma promessa: lhe mandar para longe morar sozinha, onde não poderia atrapalhar a vida de mais ninguém. A cada probleminha que surgia, a mãe de Kaya a ameaçava, dizendo que iria desistir dela, a deixar por conta, pelo mundo, talvez presa ou em uma clínica psiquiatra. Desde a adolescência, Kaya tomava fortes remédios dados por sua mãe para controlar uma suposta esquizofrenia. Até fazia sentido, mediante a alguns sintomas já sentidos, questionar as ordens não era uma opção, mesmo rebelde, Kaya sabia até onde podia ou não ir. E ela realmente, via e ouvia coisas, que "não" eram reais. E infelizmente, ela passou a vida toda, sem compreender que eram só seus instintos aflorando. A verdade é que segredos não faltavam nessa família, um deles era que Kaya não era filha de Callum, mas as pessoas não sabiam disso, somente eles sabiam. Ainda se sentindo muito indisposta, com fortes dores de cabeça, Kaya não retrucou dessa vez, algo havia mudado dentro de si e ela não entendia como ou por quê. Se entregar a um completo desconhecido para ter sua primeira vez já foi um sinal, aquele lugar estava a mexer com sua cabeça, como quando era mais jovem e a medicação aumentou após quase perder sua irmã Nilufer, em um acidente doméstico. Callum e Yesenia estavam juntos na sala discutindo entre si, exaustos de mais uma grande vergonha que passaram. Ele não conseguia esconder o quanto a enteada o incomodava, mas nem sempre foi assim, tudo mudou quando Nilufer se machucou seguindo a irmã em uma de suas aventuras. Deixaram Nilufer na fazenda e prometeram voltar, caso tudo estivesse bem com Kaya. Muito preocupada com a má impressão, causada pela irmã mais velha, Nilufer estava chorando, sentada nos fundos, perto de um pomar. Soube que a encontraram e entrou aliviada, ia falar com Évora na cozinha, quando viu um rapaz a observando fixamente no canto da varanda. Rick havia chegado há poucos instantes e a primeira coisa que percebeu foi que tinha uma visita diferente. Ficou vidrado nela, a olhando chorar, soube logo quem era e adorou, enfim, vê-la. Era melhor que o esperado, meiga, linda e com um cheiro que o deixou maluco, bastante semelhante, com o da garota misteriosa, da noite anterior. Nilufer não pôde evitar, se aproximou cabisbaixa, sorriu enxugando os olhos marejados. — Oi, desculpa por isso. Você é o Rick, né? Encantado, Rick sorriu, se aproximou e a beijou no rosto. — Sim sou. Deve ser a Nilufer. Não se desculpe, imagina, eu ia falar com você, mas fiquei com receio de incomodar. Estava muito ansioso para te conhecer. Está tudo bem? Nilufer sorriu, constrangida, estava pensando se ele já havia reparado no seu “defeito”, ela era manca e isso a incomodava muito. Foi caminhando devagar em direção à cozinha. — Também fiquei ansiosa, chegamos ontem e hoje tudo amanheceu um pouco caótico por causa da minha irmã. Mas agora está tudo certo, e você? Ele estava caminhando ao lado, com o pensamento distante, reparando no cabelo e acessórios dela, colar delicado de ouro com um pingente de girassol, brincos combinando, anéis finos em vários dedos. Ela o olhou esperando uma resposta. — Tudo bem? Como foi de viagem? Estava longe, né? Ele parou na porta da cozinha, a impedindo de entrar. — Bem, melhor agora, é uma viagem rotineira. Então, sua irmã sumiu e vocês vão embora? Não vão poder aproveitar o resto do fim de semana? Évora estava sorridente, dando sinais positivos atrás. Nilufer olhou querendo rir. — Ainda não sei ao certo, mas ela se machucou, é algo bem comum até. Pode me dar licença, por favor? Preciso dar as boas notícias à sua mãe. Ele abriu espaço. — Ah, claro, desculpa, às vezes esqueço que não estou sozinho, é que gosto de ser o centro das atenções. — Espero poder, ter sua atenção. Ela respondeu baixinho ao passar por ele: — Toda a minha atenção você já tem. Ele sorriu com satisfação, entrou atrás e sentou no balcão. Nilufer se aproximou de Évora. — A encontraram em casa, deitada e com hematomas, minha mãe fica constrangida, mas… não consigo mentir e vocês estavam super preocupados, nos receberam tão bem. Minha irmã é do tipo que sai da linha, não foi nada pessoal, sabe, com o passeio ou vocês. A Kaya é difícil, nós sempre tentamos e a amamos, muito. Évora a interrompeu, acariciando o braço de Nilufer gentilmente. — Querida, não precisa se explicar, você é uma princesa e não fez nada errado. Tive uma irmã horrível também e por várias vezes as pessoas me julgaram, baseadas nas atitudes dela. — Fico feliz que a fujona apareceu, espero que seus pais voltem logo. E você, não vai embora, né? O melhor do fim de semana está para começar. O Rick tem tantos planos que eu m*l me recordo deles. Ele sorriu com deboche. — Mas eu nem te contei, mãe. Os deixei em segredo! Nilufer se aproximou dele, encostou no balcão. — Sou curiosa, não vou mentir. Sei que adoram jogos e competições por aqui. Évora começou a rir. — Falei muito de você, a Nilufer já te conhece, é sério, filho. Ele estava olhando para a mãe, virou a banqueta ficando de frente para Nilufer e a olhou nos olhos. — Não gosto de perder ou ficar em desvantagem, agora preciso te conhecer tão bem também. Como vamos fazer isso? Ela não conseguia encará-lo igualmente nos olhos, abaixou o olhar, exultante. — Não tenho muitas coisas para compartilhar, sou só eu, a Nilufer, toda comum e limitada. Sei que você, já viveu demais. Ele a segurou pelo rosto sutilmente, a fez levantar e o olhar nos olhos. — Quero conhecer cada coisinha comum sua então, não se sinta intimidada por mim, lindinha. Podemos ser como a lebre e a tartaruga, não se deixe enganar pelas aparências. Ela sorriu, pensativa. — A tartaruga ganhou, mas depois a lebre foi lá e matou toda a família dela, por vingança. Ele sorriu com admiração. — Por que eu estou com a sensação de que você gostou mais desse final sombrio? Do que do fofinho? Ela começou a rir, envergonhada. — Talvez, não se deixe enganar pelas aparências, ué. — Sempre, ficam me subestimando. Estavam entrando outras pessoas na cozinha, ele disse que não iria nunca, duvidar dela. Se afastou foi cumprimentar os familiares. Nilufer foi para o seu quarto falar ao celular. Sua mãe estava decidindo o que iriam fazer, pediu para a filha ficar lá e aproveitar o resto do passeio. Nilufer não queria mesmo, ir embora, comentou que havia conhecido Rick e adorado já de início. Quando desligou e saiu do quarto, deu de cara com ele, sorriu sem jeito. — Você me assustou, nossa. Ele parou bem à sua frente, sorridente. — Poxa, sou tão assustador assim? Sinto muito, foi sem querer. Ela olhou para o final do corredor, exultante. — Não, não é… tudo bem. Estou com a cabeça meio fora do lugar, de preocupação. — Queria que tudo, fosse perfeito. Ele ficou a encarando fixamente, tentando não demonstrar tanto interesse. — Vai ter que ir embora? Posso te levar! — Sua irmã está bem? Ela saiu andando devagar, cabisbaixa. — Obrigada, vou mais tarde apenas. — É complicado, ela está bem na medida do possível. — Não quero já te passar uma má impressão, só que… — Ela é difícil, do tipo que só pensa em si, é sempre cansativo lidar com ela. — Acabamos de chegar na cidade e, em menos de uma semana, já viramos assunto. Ficou sentida, com os olhos marejados. — Só queria entender ela e ajudar, também tenho meus motivos para me revoltar às vezes e não faço esse tanto de coisas. — Desculpa, vai me achar uma tola chata. Ele a segurou pela mão, impedindo de entrar na sala. — Não, eu te entendo… quer dar uma volta lá fora e conversamos melhor? — Sou um ótimo ouvinte, apenas uma vez ou outra sou quem precisa falar. Com as mãos geladas de nervosismo, ela sorriu e se soltou sutilmente. — Dar essa volta já fazia parte de seus planos? — E os jogos? O pessoal estava ansioso para sua chegada. Amparando-a com a mão nas costas, a conduziu para acompanhá-lo. — Ahhh, mas é claro, faziam. Vem, vou te mostrar o nosso roteiro! — Gosta de nadar? Espero que tenha trazido biquíni, não vai querer um da minha mãe, cheio de panos e estampas floridas. Ele começou a rir. — O quê? Gosta de flores? Ela começou a rir muito, mostrou a saia do vestido que era repleta de estampas delicadas de flores. — Acho que sim, é o que parece. — Ela disse corada de vergonha. — Não vou participar dos jogos, sou um pouco lenta para essas coisas. — Não vai me querer no seu time, pode ter certeza. Estavam saindo no quintal, ele começou a cutucar nas costelas cheio de graça e carisma. — Não fale assim, eu faria um time todo só pra você. Linda! — Gosta de motos? Cavalos? Escalar? Trilhas? Vôlei?Algo, deve gostar. Ela foi ficando mais séria, sorriu sutilmente, sem jeito, olhou para baixo, nas pernas. — Não, é que… essas coisas e eu andamos em lados opostos. — Quando não tenho medo, tenho limitações físicas. Gosto de motos. Até ele ficou super sem jeito, porque apesar de ter reparado, não achou que aquilo a impedia de fazer coisas comuns. Tropeçou de propósito e caiu de costas no gramado. Manipulando ela e a situação toda, fingindo ser um príncipe, que não era. Ela se assustou e começou a rir. — Machucou? Tudo bem? — Desculpa, eu não consigo parar. Ele se sentou no chão também rindo, esticou a mão. — E faria diferença estar à beira da morte? — Perdeu até as forças de tanto rir. Não iria me ajudar, suponho. Ela segurou sua mão para ajudar a levantar, o sentiu muito pesado e desistiu. — Você deve ter duas vezes meu peso, não dá. — A Nilufer limitada não poderá te ajudar. Ele tirou a camiseta, exibindo seu corpo definido, colocou ao lado para ela. — Mas pode se sentar… às vezes eu imagino coisas, como por exemplo, que a casa não está lotada e só temos nós aqui. — Disse ele. A segurou pela mão, dando apoio. — E então fecho os olhos e as coisas acontecem, não controlo boa parte da imaginação. — Já teve a sensação de que algo já aconteceu? Como se fosse de outra vida talvez, sei lá. Ela se sentou ao lado, cobrindo as pernas com o vestido, sendo toda delicada. — Já sim, é raro. O olhou com admiração, virado de lado. — É como se já te conhecesse… foram vinte minutos ou vinte anos? — Eu senti, assim que te vi. Ele a olhou nos olhos e sorriu espontaneamente. — Posso dizer que te esperei mais de vinte anos, a minha vida toda. — Vai me achar super estranho agora, mas vou falar assim mesmo. — Tive a sensação de que já nos beijamos, como uma lembrança. E era muito bom. — Posso ser bem ousado às vezes e não quero te faltar com respeito ou ofender. — Só que… as vontades… Ela mordeu sutilmente o lábio inferior, desviando daquele olhar intimidador e penetrante dele. — Não ofende… todos estamos sujeitos a vontades e impulsos, também a imaginar coisas. — Você não é como eu esperava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD