Ele ficou no portão, a olhando até entrar, foi embora irritado. Contou o que aconteceu para os pais. Évora estava agitada o fim de semana todo, perguntou se ele não tinha nada para contar sobre o fim de semana deles, se não estava escondendo qualquer coisa. Ele disse que não, foi grosso, dizendo que Nilufer era uma menina mimada e não entenderia jamais o propósito deles. Deu a entender que não ia ficar atrás e todos pagariam o preço.
Foi uma discussão calorosa, como não acontecia há muitos anos. Ele aproveitou para reclamar do quanto se sentia sufocado com a vida que levava, reclamou do trabalho, de precisar ter tanta responsabilidade desde sempre e nunca ter tido a oportunidade de tentar fazer outra coisa. Acabou se demitindo da empresa de Otelo, já avisou que não iria viajar no dia seguinte.
Saiu levando uma mala sem falar para onde iria. Évora ficou arrasada, estava confusa com novas visões que teve, onde percebeu que Kaya e Nilufer eram conectadas de uma maneira que ela mesma não entendia. Percebeu que Yesenia mentiu sobre as filhas e teve medo de realmente ter escolhido a irmã errada.
Otelo e Évora foram até a casa de Yesenia, queriam saber o que tinha acontecido por lá. Assim que ela saiu atender, sugeriu que conversassem em outro lugar. Nilufer saiu no quintal, irritada.
— Vieram pedir algo, imagino. Entrem, estou realmente curiosa para termos uma conversa em família!
Kaya estava ouvindo da sala, ficou lá dentro apenas observando. Foram entrando, Évora estava com os olhos marejados, disse que só queriam conversar e explicar tudo melhor. Nilufer respondeu cínica:
— Então explica… por que eu deveria procriar e ajudar vocês a serem mais fortes?
— Achei que gostassem de mim. Confiei no seu filho.
Yesenia disse que era para Évora mostrar. Ela se aproximou, segurando a mão de Nilufer.
— Querida, nós não mentimos. Eu tive visões, posso te mostrar.
— Você vai ver tudo… mais do que mostrei a eles.
— Por favor!
Nilufer segurou e concordou. Évora começou a mostrar o que viu primeiro: a fazenda sendo invadida em uma festa familiar e eles sendo mortos por vampiros, ela, Otelo, todos os seus familiares, exceto Rick, que era preso e obrigado a assistir.
Depois outra festa, com Nilufer e Rick felizes, trocando alianças. Logo virou outra festa no centro da cidade, só que com mais pessoas diferentes, onde elas também estavam e quase todos eram mortos, exceto Nilufer e Kaya.
Nessa mesma visão, Kaya era presa, acorrentada e abu.sada por vários homens, bruxos, lobos e vampiros, Lorian também preso era obrigado a assistir, e Nilufer também. Ela se soltou confusa.
— Você pode estar inventando, quer me manipular.
Também chorando, Évora esticou a mão.
— Não é invenção… elas mudam conforme as coisas acontecem, não consigo entender exatamente tudo.
— A primeira foi antes de vocês chegarem e a outra depois, a última essa semana.
— Talvez porque estão se distanciando. Nós não queremos ir atrás de ninguém, é só pela nossa família.
— Ninguém vai estar seguro, querida.
Nilufer não aceitou ser tocada de novo, foi se afastando nervosa.
— Vocês vão fazer de tudo para terem seus poderes, não vou participar disso.
Saiu para a rua. Kaya ia ir atrás, Évora a segurou.
— Ela precisa digerir o que está acontecendo. Quero te mostrar, por favor.
Kaya concordou com a cabeça, sem dizer nada. Évora começou mostrar tudo: depois dos abu.sos, Kaya aparecia presa e grávida, logo perdendo o bebê, Nilufer aparecia dando à luz e tendo o bebê roubado.
Évora parou e disse que tudo poderia mudar. Contou como foi sua juventude e gestação. Yesenia se irritou com o silêncio de Kaya, perguntou se ela ia ou não ajudar. Évora respondeu antes:
— Por favor, precisamos tentar. Já quase nos destruímos uma vez, eles não vão poupar ninguém.
Kaya olhou para a mãe.
— Como fez isso? Com nós duas?
Yesenia a encarou séria.
— Você quase matou a sua irmã, a derrubando de cima da casa, eu vi que a culpa foi sua.
— Ela tem mentido a vida toda para te defender… e agora vai fazer o mesmo por ela?
Sem saber o que falar, Kaya não respondeu, foi saindo confusa, pensando no pai. Foi procurar Nilufer, perto de casa ela não estava, também não atendeu às ligações. Enquanto andava por todos os lugares possíveis, pensou que com certeza ela tinha ido atrás do Rick.
Aproveitando que tinha pego vinte reais da capa do celular de Nilufer, foi comprar cigarros. Ao entrar na conveniência, séria, viu Monaylle atrás do balcão, ela sorriu simpática.
— Oi, quer alguma coisa? Ou só está esperando?
Sem dar atenção, Kaya encostou no balcão, pediu um maço e uma caixa de fósforos. Saiu e sentou na guia para fumar, com aquele olhar vazio e apático. Logo Nilufer saiu de dentro da conveniência.
— Como me encontrou?
Kaya olhou surpresa.
— Só vim comprar cigarros… peguei o dinheiro do seu celular, desculpa.
Nilufer sentou ao lado com uma garrafa de chopp de vinho grande nas mãos.
— Quer?
Kaya pegou e bebeu. As duas ficaram quietas, olhando os clientes que passavam pelo posto. Monaylle saiu para fumar, ficou em pé perto delas. Nilufer se virou, oferecendo a bebida.
— Quer?
Monaylle sentou ao lado, bebeu também.
— Valeu. Tão afim de sair fazer alguma coisa? Meu turno acaba daqui meia hora.
Kaya não respondeu, Nilufer disse que sim. Quando Monaylle entrou, ela foi junto, saiu com vários salgados e mais duas garrafas de chopp. Já foi falando que não queria conversar sobre nada daquilo, mandou Kaya desligar o celular também. A fez comer e não conseguiu, estava indisposta.
Completamente calada, ela só concordou. Quando Monaylle saiu com mais bebidas, disse que estava entediada, perguntou se elas queriam ir nadar. Nilufer foi topando tudo, bebendo cada vez mais, algo que não era hábito quase nunca.
Monaylle brincou sobre o carro que tinha, dizendo que às vezes não funcionava, era uma Saveiro comum. Nilufer, muito simpática, disse que adoraria ir atrás, levando na cara como merecia. Entraram as três na frente. Monaylle perguntou onde elas moravam, para irem pegar biquíni ou se trocar, Nilufer disse que preferia nadar n.ua do que ir para casa.
Foram para a casa de Monaylle primeiro, era pequena e simples, com muita roupa espalhada. Só tinha quarto e cozinha. Ela disse, encarando Kaya, que a faxineira não tinha ido aquela semana. Começou revirar tudo, foi jogando biquínis em cima da cama.
Nilufer estava super à vontade, sentada, bebendo, falando da festa de quando se conheceram. Kaya ficou em pé, de canto, reparando em tudo. Quando as duas foram se trocar, ela saiu de perto, sentou para fumar no quintal. Não conseguia parar de pensar em tudo o que viu e ouviu.
Monaylle saiu oferecer um biquíni, Kaya agradeceu e recusou. Ela voltou para o quarto curiosa, cochichou para Nilufer:
— Vocês estão brigadas? Ela é sempre assim mesmo?
Nilufer pegou um maiô, sorriu irônica.
— Ela é pior geralmente… nós estamos com uns problemas em casa, não dá muita atenção, não.
— Ela tem vergonha do corpo, por causa das cicatrizes.
Saiu na porta da cozinha.
— Kaya, coloca esse. Você nada melhor que eu… vem? Por favor?
Ela se levantou e foi no banheiro colocar. As outras duas foram conversando entre si, Nilufer comentou que estava dando um tempo com Rick, perguntou se ele ficava com todo mundo. Monaylle disse que, na verdade, não, e ela nem fazia parte real do círculo de amizades dele, porque eram riquinhos e ela não.
Quando chegaram no rio, tinha um pessoal lá. Monaylle foi falar com eles e Nilufer também. Kaya sentou um pouco longe, na beira do rio. Logo Monaylle se aproximou, oferecendo uma cerveja.
— Peguei com os meninos… você quer conversar?
Kaya recusou, balançou a cabeça que não. Monaylle sorriu.
— Vamos recomeçar, beleza.
Estendeu a mão.
— Oi, sou a Monaylle… e já nos vimos por aí. Várias vezes.
Kaya sorriu sutilmente, apertou a mão dela.
— Não sei se devo ficar feliz por isso… ter me visto por aí. Kaya, prazer! Você é muito gentil.
Monaylle se levantou, tirando a camiseta e o shorts.
— Tenho lá meus bons dias… e você só tem tido péssimos, imagino. Vem, vamos pular comigo!
— Você não precisa, se isolar. Todos, temos problemas.
Kaya não pôde deixar de reparar no quanto ela era bonita, se levantou também, envergonhada com o próprio corpo.
— Ah… não quero nadar. Você curte essas coisas? Esportes?
Monaylle disse que sim, gritou na direção dos outros:
— Kan podia apostar o conserto da minha moto, né?
Kaya não tinha visto ainda, Kan se levantou, estava sentado na caçamba de uma caminhonete e foi indo até elas.
— Eu ganharia de qualquer forma, Monaylle.
Sorriu, tocando Kaya sutilmente no braço.
— E aí, esquisita… tá com raiva de mim ainda?
Ela se esquivou, o encarando séria.
— Por que tem que ser tão babaca?
Monaylle começou rir.
— Vocês se conhecem?
Achando graça, ele disse que sim, mas que não ia contar nada sobre serem quase parentes. Nilufer se aproximou.
— Quem vai fazer dupla com quem?
— Ele é o seu irmão gato Monaylle?