Capítulo 16

1610 Words
Kaya começou a sentir a cabeça doer, o coração acelerar, o corpo todo formigar, percebeu que precisava sair e respirar, correr até seu corpo não aguentar mais, calçou os tênis, chorando, alterada. — Como se vocês realmente se importassem comigo. — O que te incomoda é eu ser um problema, só isso! Colocou o agasalho, pegou o celular e os fones de ouvido. Foi saindo do quarto pela varanda. — Eu tenho odi.ado cada dia da minha vida há muito tempo. — Também estou cansada de mim. Olha só que surpresa. — Um dia, eu vou desaparecer e deixar de ser um problema. Nilufer se arrependeu do que disse. Foi tentar impedir, mas não deu tempo. — Ode.io quando você fala assim. Para de agir como uma narci.sista. — Onde você vai, Kaya? A chuva havia parado. Kaya saiu correndo, atravessando a fazenda, indo para a parte mais afastada, cheia de árvores e mata. Saiu sem muita direção, agindo no impulso, querendo apenas se afastar e silenciar o mundo, incluindo seus pensamentos repulsivos. Correu o máximo que pôde, já havia passado pelas cercas e entrou nas terras de outros vizinhos. Sem conseguir se controlar, tomada pela raiva, sentiu os pensamentos em desordem, como se estivesse ouvindo vozes e muitos barulhos misturados, o cheiro de terra molhada, a fazia sentir o gosto. Começou a ter dores de cabeça fortes, achou que ia desmaiar e sentiu tudo silenciar por instantes. Com uma dor insuportável na perna, caiu em uma armadilha de lobos, que a prendeu, rasgando sua calça e a pele. Gritou alto de dor, ecoando pela mata, e desmaiou em seguida, sentindo seu corpo todo arder como se sua pele, estivesse sendo tirada. Rick ainda estava na fazenda quando as duas discutiram. Pôde ouvir tudo e foi bater na porta do quarto. Nilufer abriu chorando, dizendo que não aguentava mais. Yesenia levantou assustada, perguntou preocupada. — O que aconteceu? Nilufer disse que brigaram por bobeira e que a irmã saiu daquele jeito. Évora estava chegando e se assustou também. Pediu para Rick ir até a cidade a procurar, pois estava começando a chover de novo. Ele saiu sozinho, um pouco contrariado, sentindo que algo r**m, ia acontecer, ele podia sentir as emoções de Kaya, e sabia que ela estava prestes, a se transformar, quando saiu. Nilufer foi olhar a fazenda sozinha também. Yesenia começou a falar que tinha algo errado, porque não era para Kaya estar tão ativa daquela forma, com as medicações. Pegou o celular e se afastou de Évora, ficou quase vinte minutos conversando, gesticulando, muito alterada. Vasculharam tudo por ali. O celular de Kaya só dava caixa postal. Na cidade, Rick foi até a casa delas, olhou lugares onde poderia encontrá-la. Voltou para a fazenda com o pai. Já estavam há horas preocupados, sem notícias. Évora e Otelo cochichavam muito entre si, estavam com medo, dela se expor e até machucar humanos. Avisaram os vizinhos que estavam procurando por ela, chegaram até a mandar uma foto. As horas passaram. Kaya estava coberta de lama, inconsciente. O único som, além da chuva e dos animais, vinha dos fones de ouvido tocando no volume máximo, repetidas vezes: “Enter Sandman — Metallica”. Ao sentir alguém mexendo em sua perna, começou a despertar, desorientada. Ge.meu de dor ao sentir a armadilha sendo aberta. A única coisa que conseguiu ver, embaçada, foi um homem, ajudando-a. Apagou novamente. Acordou sendo carregada. Eram apenas flashes, tomados pela dor, tudo muito confuso, sua pele toda ardia, sua cabeça parecia estar prestes a explodir. Ele era jovem, branco, sem barba, usava camisa branca. Falou ao sentir que ela se mexia sutilmente: — Não vou te machucar. Vai ficar tudo bem. — Se acalme. Antes que ela respondesse, sentiu outra pessoa se aproximar, tocando seu braço. Levou uma agulhada e apagou de novo. Já estava anoitecendo quando Otelo deu a ideia de procurarem na mata, porque algo poderia ter acontecido. Estavam se preparando para sair quando o celular dele tocou. Era um vizinho, muito próximo, dizendo que havia encontrado ela e que estava chegando. Todos saíram às pressas, preocupados. Zay o vizinho, desceu do carro, foi abrindo a porta. — Oi, boa noite. — Encontrei ela inconsciente, presa em uma armadilha. Rick a pegou no colo, inconsciente, e entrou. Ela já estava de banho tomado, com o ferimento limpo, enfaixado, usando roupas diferentes das que havia saído. Évora os acompanhou para dentro, nervosa. — O Zay é médico. Ele conversava com Otelo no quintal, a sós. Disse que não queriam, ninguém, invadindo as terras deles, que lá, tinham crianças, e ela estava sem controle e ia se transformar, se não tivesse caído na armadilha envenenada. Otelo se desculpou, agradeceu, pediu segredo. Zay entregou o celular dela e foi embora rápido. Yesenia estava no quarto, nervosa. — Não podemos continuar aqui. — Disse andando, de um lado, para outro. — Estamos trazendo problemas pra eles. Pediu para Nilufer arrumar as coisas da irmã. Ela ficou séria, nervosa. — Pra onde a gente vai mãe? Yesenia a olhou repreendendo. — Faça o que estou pedindo. — Já me basta uma fazendo tudo o contrário do que peço. — Vocês podem, por favor, nos dar licença? Évora e Rick saíram do quarto. Ela disse que não ia deixar Yesenia levar Kaya embora, pois não concordava com tudo aquilo. Rick estava sério, pensativo. — Ela nos expôs. — Disse ele. — Todos vão acabar sabendo e isso não vai ficar assim. Elas não são, como nós. — Se Nilufer souber de qualquer coisa da maneira errada, não vai acreditar e nem querer ouvir nada. — Ela precisa entender, que estamos destinados. Otelo se aproximou, preocupado, falou. — Então faça o que deve ser feito logo. Durma com ela e a leve, até a verdade. — Isso já está nos custando muito caro. — Tem certeza de que a Kaya não sabe? Ela é muito forte, até eu sinto. — Porque é a segunda vez que Zay a encontra por lá e eles não têm gostado nada disso. — Você sabe o que aconteceria se ela perdesse o controle. — Diferente dele, os outros não vão poupar ninguém. E não, estamos prontos, para outra guerra. Rick disse que nenhuma das duas fazia ideia. Évora interrompeu. — Com o tanto de coisas que Yesenia usa, não está funcionando como deveria. — A qualquer momento Kaya vai se transformar e ser um perigo para todos nós. — Essa mulher está fritando a cabeça da filha e não é de hoje. Ela usa feitiços, a deixa desorientada, fraca. — Preciso fazer algo, ou teremos escolhido a irmã errada. — E agora não tem mais volta. Otelo sorriu, intrigado, perguntou olhando o filho. — Não tem mesmo? — Porque eu tenho a sensação, filho, de que você está escondendo algo. Antes que ele respondesse, Évora entrou no meio. — Acham mesmo que alguém como ela vai ser influenciada? — É uma bomba-relógio. — Filho, apresse seus planos e garanta o nosso acordo. — Com a cidade toda sabendo delas, logo outros podem chegar e querer atrapalhar tudo. — A Kaya pode ser mais forte, mas é muito difícil, ela nunca, vai se deixar levar. E muito menos, se doar por marido ou filhos. Elas se odeiam. Rick concordou, mas disse que precisava de mais tempo, porque apressar as coisas poderia colocar tudo a perder. Yesenia saiu do quarto e todos silenciaram. Évora perguntou como Kaya estava e pediu para conversarem a sós. Exausta, muito preocupada e com medo, Yesenia confessou ter um mau pressentimento. Temia ser a próxima vítima da própria filha. Disse o.diar aquela cidade e querer ir embora. Pois aquele lugar, estava mexendo com elas. Évora a lembrou do que estava em jogo e do acordo delas. Em formarem um clã, que pudesse se defender, junto. Otelo entrou no escritório. Chorando, Yesenia disse que não deveria ter deixado Callum sozinho com as filhas. Tinha certeza de que foi Kaya quem o atacou e que, se ele acordasse, seria um perigo para todos, revelando segredos, desejando vingança. Aproveitando o desespero dela, Évora fez outra proposta. — Se acalme. Ele não vai voltar, foi queimado com magia, eu só não entendo como. — Pensamos e decidimos. Dobrar o valor pelas duas. Você vai ter tudo, sua magia, dinheiro, um lar, proteção. — Nilufer como primeira opção e Kaya como reserva. — Um plano B. Afinal, ela é uma híbrida, uma raridade. Falou sobre a gestação e os riscos. Yesenia negou, respondeu. — Nunca vai dar certo. Ela vai se tornar um monstro, como o pai. — Essa opção é impossível. — Quero garantir o futuro da Nilufer. — Quero vê-la feliz, mesmo que induzida sem saber. Otelo garantiu que Rick estava envolvido de verdade. — Da parte de meu filho, é tudo sincero. — Ele está com medo de magoar Nilufer, por saber tantas coisas e ela não. Depois perguntou: — O que a Kaya poderia querer em troca? De gerar um bebê, para nós? — Dinheiro? Estudos? Mais liberdade? — Talvez tirar tudo o que inibe o outro lado dela. Ter uma vida mais selvagem, sozinha? Yesenia se levantou, nervosa, respondeu. — Ela nunca quis nada. — Só gosta de ser como o pai. — Não consegue se manter fora de problemas. — Tenho medo de que estrague tudo. — Nilufer reclama às vezes, mas é ligada à irmã. — Não vai aceitar que eu a leve de uma vez. Respirou fundo. — Vou levar Kaya para longe por algumas semanas. — Até ela se recuperar. — Não consigo trabalhar com ela solta, trazendo problemas pra vocês. Se ela atacar alguém, será pior.
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