Kaya concordou, sentou na recepção e começou a mexer no celular da irmã, tinham vários grupos, muitas fotos que Nilufer adorava tirar. Curiosa, abriu a conversa com Rick, começou a ler tudo desde o começo. Enquanto ele viajava, tinham muitas conversas íntimas, falando sobre o que fizeram quando ficaram, fotos e vídeos dele, sem roupa, se tocando, ela foi ficando chocada com as coisas que Nilufer falava, nem imaginava que a irmã podia ser daquela forma, já que sempre pareceu muito certinha e reservada.
Tinham fotos dela também, vídeos se tocando sem mostrar o rosto. O pior foi ver o vídeo dos dois juntos, onde ele a filmava completamente submissa, o chupando, depois ele também a chupava.
Mesmo não gostando de como se sentia, Kaya viu tudo atenta, teve a sensação de que ele estava manipulando Nilufer, porque ela parecia desconfortável com o vídeo.
Foi um misto de sentimentos complexos e descontrolados: raiva, inveja, admiração, ciúmes, desejo, tudo foi sendo tomado por culpa. Arrependida, parou de olhar as conversas até desistiu de ver as com a mãe. Logo chegaram mensagens do Rick:
“Quando sair vou te buscar. Adorei nosso fim de semana, a cada dia que se passa ao seu lado só aumentam as minhas certezas sobre nós.”
“Quero oficializar o pedido de casamento quando você se sentir bem para compartilhar com as nossas famílias.”
“Adorei te amar e te ter completamente minha. Nunca vivi nada assim com ninguém, não posso mais ter uma vida sem que você faça parte dela.”
Ela leu pela barra de notificações, ficou pensando no real interesse dele em Nilufer, porque no fundo realmente pensava que não podia ser real tudo aquilo, como se um não servisse para o outro. Mesmo admirando a irmã, achava ele muito diferente e até bom demais para ela.
Passou a manhã toda pensando nisso, quando Nilufer saiu, pegou o celular, perguntou se alguém tinha ligado. Super sem jeito, Kaya disse que só a mãe. Quando saíram para fora, já viram Yesenia esperando no carro. Kaya falou que não queria mais brigar, Nilufer respondeu irritada:
— Mas eu quero! Estou cansada de tudo já.
Yesenia ficou olhando apreensiva, elas entraram no carro, Kaya na frente e Nilufer atrás. Ambas caladas, não responderam ao “oi” nem se estava tudo bem. Quando chegaram em casa, Yesenia foi dizendo que não iriam mais ficar na fazenda, perguntou se estavam com fome. Nilufer jogou a mochila no chão:
— Vai continuar fingindo que nada aconteceu?
— Olha pra nós. Acha que vai cozinhar e enrolar até quando?
Yesenia foi ficando emotiva, começou a tirar coisas da geladeira.
— Como foi o final de semana de vocês?
— Já sabem o que são, não é?
Kaya ficou quieta, de canto, encostada no armário. Nilufer sentou na mesa com aquele comportamento hostil.
— Me diz você, mãe: o que somos?
— O que você é? Além de uma mentirosa dissimulada? Narcisista?
Yesenia começou a chorar de costas, enquanto lavava verduras.
— Vai me culpar por tudo agora?
— Sacrifiquei a minha vida por vocês.
Nilufer disse que não pediu nada daquilo, Yesenia se virou:
— Essa não é você. Isso é a influência dela, eu sabia que iria acontecer em algum momento.
— Vocês sabem que eu nasci aqui e precisei ir embora.
— Fomos obrigados a largar tudo, seu pai não fez nada, me abandonou. Kaya!
— Eu fiz de tudo por ele, o ajudei quando mais ninguém acreditou.
— Você não devia existir. É um risco a todos nós e ainda assim eu te tive.
— Querem mesmo saber o que são?
Olhou para Kaya.
— Você é como o seu pai. Eu nunca soube o quanto, quase morri para ter você, perdi tudo o que tinha de melhor.
— Você drenou tudo de mim: a minha felicidade, magia, juventude, esperança e vontade de viver.
— Ele é uma aberração. Quando só existiam criaturas comuns, modificaram a genética dele, ficou mais forte e incontrolável.
— Machuca lobos, vampiros, resistente a bruxas, logicamente superior a humanos.
— Eu realmente acreditei que poderia entender ele e o mudar, insisti muito. O amei.
— Até ter você. Sei que não acredita nisso, mas eu te amo e odeio isso tanto quanto você.
— Não sei lidar com a minha própria filha. Sei que não me ama ou admira, você não tem a menor afeição por mim, Kaya, desde criança. Eu sinto!
— E eu temo que não ame a absolutamente ninguém… nunca.
— Só com a sua irmã, você é diferente, e tem um motivo.
Se aproximou de Nilufer, segurou suas mãos.
— Me perdoa… eu não tive outra opção. Ia te perder. Você se feriu, e não ia resistir.
Nilufer se afastou confusa, Yesenia continuou chorando.
— Você tem o sangue dela nas suas veias, fiz algo semelhante à mãe do Lorian.
— Eu ia te perder, tive medo de ficar sozinha e nunca mais ter ninguém, nem nada.
— Quando a Cora, mãe do Lorian, estava grávida do irmão dele, ligou os dois. Com magia.
— Ele estava doente, acho que foi envenenado de maneira proposital e as bruxas anciãs deram sugestões, a verdade é que queriam testar novas experiências.
— Ela arriscou tudo, o bebê tinha o sangue do Lorian correndo em suas veias.
— O feitiço foi fortalecendo a relação entre irmãos.
— Ele era só uma criança, não entendia porque o pai o desprezava, a verdade é que Max não era o pai do Lorian e só aceitou tudo isso porque as bruxas prometeram que ele poderia ser mudado também.
— Não funciona sem um laço familiar. Lorian mudou e se curou antes do bebê nascer.
— Sua mãe morreu no parto e já não era mais útil, o combinado era que ela também virasse híbrida, mas não chegou ao final dos planos.
— Max se aliou aos piores vampiros, com muitas promessas, levou os filhos dele e o bebê, com a intenção de ir transformando todos em híbridos.
— Ele só não contava com as traições de Cora, assim como Lorian, o bebê não era filho dele e ele não poderia ter benefício algum.
— Não se sabe exatamente o que aconteceu depois, dizem que foram mortos por se revoltarem contra Max.
— Dizem que eles vão voltar, e matar até o Lorian, tirar do caminho todos, que se colocarem contra.
Olhou para Kaya, que estava chorando encostada no armário.
— Ele é incapaz de amar, ter empatia, não vai se aproximar sem segundas intenções.
— Se ele te pediu algo, precisa nos contar.
— Uma guerra está por vir, vão vir atrás de vocês cedo ou tarde.
— Precisamos nos aliar a quem tem os mesmos propósitos.
Nilufer se levantou irritada.
— Tipo quem? Évora? Otelo? Zarick?
— Você tá me vendendo, não é? A troco de quê?
— Por que eles estão sendo tão legais conosco?
Yesenia levantou também, respondeu nervosa.
— Não, querida, é muito maior e melhor que isso. Vocês estão predestinados.
— O destino fez isso, vocês podem salvar a todos nós. Lá no passado, invocamos nossos ancestrais, juramos, proteger nossas famílias. Eles, nós ajudaram, e agora. Estão unindo vocês.
— Rick foi modificado para não nascer híbrido, mas o filho dele pode mudar isso.
— E a Évora, assim como eu, foi drenada na gestação, somos fracas e um alvo. Vão nos matar.
— Eles não vão poupar ninguém: crianças, famílias, humanos… vão acabar com a cidade toda.
Nilufer interrompeu:
— E por que eu devo me preocupar? Quer que eu me case para procriar e aí vocês vão usar o meu filho?
— Não vou fazer nada disso, estão loucos.
Saiu da cozinha brava. Yesenia voltou a mexer com as coisas do almoço.
— E você? Não tem nada a dizer? — Perguntou para Kaya.
— Acha que estou mentindo, querendo que se afaste dele? Do Lorian?
— Não preciso mentir, ele é o que é. Nunca vai te dar nada de bom!
— Aposto que encheu a sua cabeça com inverdades.
Kaya se aproximou, sentida.
— Você também nunca me deu, sempre me tratou com desprezo, indiferença.
— Por que me fez acreditar ser esquizofrênica? Com a minha irmã nunca fez essas coisas!
— Sei que não gosta dele, mas eu não tenho culpa, não o escolhi, a escolha foi sua. Engravidou, porque quis.
— Não tenho culpa, se ele não te ama.
Yesenia se virou, segurou o braço dela apertando.
— Não venha me falar de escolhas. A Nilufer pode ter seu sangue, mas é diferente, humana até demais.
— Se realmente se importa com a sua irmã, abra os olhos dela, porque o tempo está passando e vamos todos morrer se não pudermos lutar.
— A felicidade dela será com eles, não seja tão egoísta como sempre foi. Você não serve, para amar e ser amada.
Kaya se soltou, saiu para o quintal confusa, deitou na rede pensando que de fato não sentia tanto afeto pela mãe, diferente do que sentia pela irmã. Lembrou de tudo o que Lorian mostrou sobre sua infância e o quanto ele amava o irmão.
Chorou muito por tudo o que ouviu, não teve mais dúvidas de que não era amada pela mãe. A vontade maior era abandonar tudo e partir, mas ela sabia que não deixaria a irmã, ainda mais sob ameaça.
Antes do almoço ficar pronto, Rick chegou buzinando, foi descendo como se fosse entrar. Nilufer saiu para atender, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
— O que você quer?
Ele tentou acariciar seu rosto.
— Vim ver como está. Quero conversar, Nilufer.
Séria e hostil, ela o afastou, encarando nos olhos.
— Já sei de tudo e não vou participar de nada disso.
— Você mentiu pra mim, só quer me usar pra ser um híbrido também.
— Confiei em você, me manipulou esse tempo todo.
Ele disse que não fingiu nada e poderia explicar melhor, ela sorriu decepcionada.
— Não acredito em nada que venha de você, Zarick, e só pra saber: eu tomo remédio anticoncepcional. Então todo o seu teatro e esforço pra me fo.der tanto, tentando me fazer de incubadora, não vai funcionar.
— Está tudo acabado e não estou nem aí para as ameaças que recebem.
— Eu te disse que não era pra mentir e me usar. Você podia ter sido sincero!
Ele se irritou, respondeu hostil também:
— Como iria te contar? Você é muito imatura!
— Acha que é tudo sobre você aqui? Só as suas vontades importam?
— Foi tudo real, nós temos sorte de gostarmos um do outro.
— Eu te quis mais que tudo desde o primeiro momento que te vi.
— Você viu e sentiu tudo, não tem como mentir, car.amba.
— Vamos conversar em outro lugar, por favor.
— Tenho que viajar amanhã, não posso ir sem nos entendermos.
Ela foi entrando completamente fria.
— Não é um problema meu. Acabou.