Capítulo 19

1646 Words
Ela se sentou no cantinho engolindo o choro. Estava se sentindo muito triste e sem entender, já que não era um costume, o normal era sentir sempre muita raiva. Nilufer se aproximou, abraçando-a por trás. Falou contente. — Preciso ir, vem me buscar depois à noite? — Queria que me levasse, sabe como eu fico no primeiro dia, em qualquer lugar. — Vou começar a tirar habilitação, vai ter que ficar sem mim, o dia todo agora. Novamente pega de surpresa e decepcionada, Kaya apenas concordou. Além de mais velha, sempre pediu para tirar habilitação e a mãe nunca deixou. Yesenia interrompeu, apressando Nilufer. Assim que saíram às pressas, Kaya levantou para pegar água. Estava se sentindo indisposta, sufocada, engolindo o choro. Derrubou a muleta e o copo. Zaymon estava perto, andando pelo hospital o tempo todo. Pôde ouvir toda a conversa delas, as acusações de Yesenia. Quanto mais perto chegava, melhor sentia o que Kaya exalava só para ele: todas aquelas emoções ruins, a angústia e, principalmente, a tristeza. Aproximou-se sem jeito, apreensivo, pegando a muleta. — Oi. Pode deixar, eu te ajudo. Cabisbaixa, ela foi pegando, olhou-o por alguns instantes apenas e não reconheceu. — Obrigada! — Ela falou baixinho. Ele pegou o copo do chão, jogou fora e foi enchendo outro. — Imagina! Ela não lembrou de nada e nem sentiu nada especial. Desistiu de tomar água e voltou a sentar, enxugando os olhos marejados. Ele se aproximou com o copo cheio, servindo-a. — Está se sentindo bem? Posso ajudar? Eu trabalho aqui. Evitando até olhar, ela disse apenas que não, pegou o copo com as mãos trêmulas e agradeceu. Chamaram-na para fazer os exames. Ele ficou ao lado, sem saber o que dizer, mas querendo se aproximar. — Quer ajuda? — É você a próxima? Sem dar a menor importância, ela balançou a cabeça negativamente. — Não precisa, obrigada. Sou sim! — Levantou com dificuldade. A recepcionista mostrou o caminho. Havia uma enfermeira na sala, que iniciou o atendimento, fazendo perguntas padrão. Explicava sobre o tratamento pós-est rupo, tocou novamente no assunto de denúncia. Constrangida, Kaya respondeu apenas o básico, disse não se lembrar de nada. A enfermeira saiu para buscar informações sobre resultados de exames, achando que ela não sabia nem o que falava, como uma jovem fora da casinha, irresponsável, drog.ada. Zay estava do lado de fora conversando. Assim que a viu sair, sentiu as emoções mudarem para vergonha e impotência. Acompanhou-a com o olhar. Ela foi tirar sangue e logo voltou a sentar arrasada, olhando para o chão com o olhar apático. Quando Yesenia voltou, perguntou se tinha dado tudo certo. Kaya respondeu desanimada: — Não sei, você me deixou aqui sem nem dizer o que vim fazer. — Passei com a enfermeira e colhi o exame de… Yesenia interrompeu irritada. — Eu tô cansada, trabalhei a noite toda e você não ajuda em nada. — Se eu pudesse, te deixava ir a pé daqui até lá. Ela se afastou e voltou com pressa. Kaya precisou tomar um medicamento na veia e logo foi liberada. Saía calada, pensativa, quando Yesenia começou a falar, tentando justificar, mas logo adotando um tom de repreensão ao sair do hospital. — Sua irmã me implorou para te deixar aqui. Ela está, pela primeira vez em muito tempo, vivendo algo. — Vai poder estudar, tirar habilitação, namorar. Não sou eu quem vai pagar por isso. — Otelo quer comprar a nossa casa, enquanto seu padrasto não acorda. Eles vão ajudar e depois vamos devolver. — Sei que você não gosta de nada ou ninguém aqui. Em lugar nenhum. — Meu casamento não vai bem, estamos ferradas. Acha que a polícia vai fazer vista grossa a você com o Callum longe? — É a última vez que te peço: ajuda a gente a te ajudar, filha. — Seja a irmã que a Nilufer precisa. Eu vejo no seu olhar, você não é capaz de apoiar ela. — Tem inveja pelas coisas que ela ganha, mas não se esforça para ganhar também. — Ela não vai aguentar perder o pai ou ver nosso divórcio, quero que ela fique bem. — Por que foi falar m*l do Rick? Ela estava toda animada e, depois de falar com você, começou a se sentir insegura. — Tem medo dela ser feliz e te esquecer? — Pois ela não vai, porque não consegue te deixar. — Ela estava disposta a ir embora com você, como uma irmã de verdade faria. — E você? O que faria por ela? Kaya respondeu irritada, chorando sutilmente. — Não é sobre ela. Eu não faço nada para atingir ou atrapalhar ela, eu faria qualquer coisa pela minha irmã. — Você sempre me vê como a pior pessoa do mundo. Yesenia disse que queria poder ver o contrário. Chegaram à casa delas. Kaya continuou no carro. Yesenia deu a volta e abriu a porta. — Seja a irmã que ela precisa até resolvermos isso tudo e depois você está livre. — Vai viver sua vida como bem entender. — Sua irmã se importa demais com o que você pensa. — Custa apoiar ela? Ser gentil e não atrair problemas? Entravam pelos fundos. Kaya parou para olhar o barranco. Se sentindo observada. — Ela não precisa de mim, e você, muito menos. — Vou embora assim que melhorar, também estou cansada de tudo, ninguém nunca me entende. — Esse lugar é horrível, odiei tudo aqui desde que cheguei. Eu não me sinto bem aqui, os pesadelos, eu ouço, vejo coisas. Yesenia sorriu irônica. Falou com deboche. — E acha que eu gosto? — Só vim por falta de opção. — Ajude sua irmã a ficar bem e vou te recompensar. Kaya entrou atrás, sentida. — E eu? Não se importa quando eu vou ficar bem mãe? — Sei que não sou a melhor das filhas, mas você não gosta de mim. — Sempre me desprezou e eu não entendo o porquê. — Od.eia essa cidade porque meu pai é daqui? — Eu me pergunto se ele me od.iaria tanto quanto você. Yesenia, mexendo no quarto de Nilufer, respondeu hostil: — Mais! Porque aquele homem não ama ninguém além de si. Te odei.a muito mais. Você não significa nada, pra ele. — Acha que eu sou mentirosa? Quer pagar pra ver? Kaya sentou na cama, chorando confusa. Respondeu. — Não faz diferença. Se ele se importasse comigo e soubesse o que eu passo com você, já teria me achado e feito algo. — Ele é como você ou não sabe de mim. E é claro… Levantou-se brava. — Você nunca vai ser sincera comigo. E contar. — Não vou voltar para a fazenda, pode me deixar aqui. Sozinha. Yesenia a ignorou, continuou arrumando as coisas. Quase meia hora depois, foi procurá-la. Kaya estava deitada na rede nos fundos, escondida, ouvindo música nos fones. Levou um susto quando a mãe abriu a rede de forma hostil. — Vamos logo, só vou voltar à noite para pegar sua irmã. — Yesenia disse sem paciência. — Aqui não tem nada, está fed.endo a queimado. — Quer a verdade? Você é a maior mentirosa que eu já conheci, depois do seu pai. Dissimulada. Falsa. Invejosa. Kaya tirou os fones. Yesenia continuou, irritada e exausta. — Quando você for a pessoa que a sua irmã precisa, eu te conto tudo. — Vou te dar o que quiser: dinheiro, liberdade, toda a verdade sobre o seu pai. — Sempre te prendi pelo bem de vocês duas. — Não vai demorar muito, o Callum vai acordar e resolver nossas questões financeiras. — Tenho certeza que, sem a Nilufer, você não faz questão de continuar conosco. — Não vou ficar nessa cidade. Se quiser ir comigo, vai ter que melhorar, ou então nem clínica eu vou pagar. — Vai virar moradora de rua, ou uma dessas meninas que se vendem, não vou me importar, porque dei o meu melhor. — Já cansei de dizer, seu pai é um bandido. Acho que no fundo você gosta de se parecer com ele, fazendo coisas erradas. — Não ache que vai ficar por aqui atrapalhando a vida que sua irmã vai construir. Não vou permitir. — E então? Temos um acordo? Kaya se levantou decepcionada, como sempre, se od.iando. — E eu tenho opção? — Vou ser tudo o que a minha irmã precisa e, quando eu partir, te quero tão longe dela quanto eu. — Não confio em você e, se todo esse tempo te aguentei, foi para proteger ela. — Acha que eu não quero ver ela bem? — Longe de vocês? Yesenia foi atrás, discutiu, disse que Callum era louco pela Nilufer, jogou na cara de Kaya o quanto eram diferentes desde sempre. Humilhou, ameaçou, dizendo que, se em quinze dias não visse mudanças no comportamento dela, daria um jeito nela e nem Nilufer poderia impedir. Foi embora e a deixou trancada na casa. Kaya foi para o quarto, pegou o caderno para desenhar enquanto carregava o celular. Passou o dia inteiro sozinha, pensando na vida. Comeu bolachas do armário. No fundo, gostou de estar só. No final do dia, deitou na rede ouvindo música nos fones, tentando se desconectar do mundo e acalmar os pensamentos. Adormeceu pensando em planos que pareciam impossíveis, como se não conseguisse imaginar uma vida longe da irmã. Começou a sonhar com a mata. Acordava perdida, com dor no corpo todo. O sentimento era de insegurança, mas não medo. O sonho ficou calmo. Corajosa como sempre, andava no escuro como se soubesse o caminho. Ouviu um barulho atrás, de galhos e folhas secas. Virou-se no susto, viu um lobo grande, marrom, quase escondido entre as árvores, com olhos dourados brilhantes. Deu passos para trás, assustada. Ele se aproximava lentamente, sem hostilidade, mas imponente. Ela tentou correr, não percebeu o barranco, virou-se desejando acordar, ouviu o latido se aproximando e caiu…
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