Kaya sorriu sutilmente.
— Não faz isso, distorcendo o que falei… sei lá.
— Só acho que ele é muito mais velho, te falei isso.
— Não vou dizer mais nada, tá? Viva sua vida.
Nilufer sorriu satisfeita. Respondeu.
— Ótimo. Você precisa conhecer ele melhor, pra depois julgar.
— Ninguém gosta de ser julgado pela capa, como os livros.
Kaya disse, irônica, que m*l podia esperar. Foi dormir pensando no lobo. Começou a sonhar com a mata. Estava de pijama e meias. Era noite, um pouco frio, o único barulho era o da água. Entediada, foi caminhando até o rio, se sentou na beirada jogando pedras. Levou um susto com o lobo atrás, rosnando hostil como se fosse atacar. Imóvel, ela pôde sentir a respiração quente e o cheiro dele. Se virou irônica, sem ser intimidada.
— Estou tomada pelo medo, acredite.
Ele foi chegando mais perto, hostil, latiu uma vez e começou a lamber o braço dela. Ela correspondeu, acariciando-o.
— Então gosta de brincar? Típico!
— Sumiu o dia todo… estava com sua família?
— Tem uma esposa loba?
Ele latiu duas vezes, sentou ao lado. Ela o abraçou, afetuosa.
— Posso te dar um nome? Você não vai saber me falar o seu, meu Deus.
— Lobos têm nomes? Além de alfa, ômega, Luna.
Ele latiu uma vez. Ela sorriu.
— O meu é Kaya… eu não gosto muito.
— Acho que a cada ida minha, vou voltar com uma cicatriz nova. Estou feliz, por encontrar você.
— Aqui tudo é diferente, mais leve, como se estivéssemos em um mundo, só nosso, pessoalmente estou pior, sou toda marcada, tenho vergonha disso. Eu estou tão fei.a, sabe?
— Não consigo me arrumar, bem diferente da minha irmã, ela é linda, delicada. Sempre está perfeita.
Ele começou a lamber o pulso dela, latiu duas vezes. Ela continuou falando, olhando a perna.
— Não o quê? Você é um bicho, né?
— Pelo menos não está doendo… não aqui.
— Os vizinhos colocaram uma armadilha de lobos no quintal, o que é bem estranho.
— Eu caí nela e me dei m*l. Agora, olhando você, faz sentido.
— Comecei a imaginar essas coisas porque vi outras semelhantes.
— Não que seja certo, mas essa armadilha podia ter pego um animal, inofensivo … na primeira oportunidade vou lá me vingar.
Ele latiu duas vezes. Ela se levantou, sorriu irônica.
— Aiiii, ele não gosta de vingança?
— Pois eu gosto, só que sempre desisto.
— Já somos íntimos o suficiente para compartilharmos segredos?
— É bem ridículo, mas valeu a pena.
— Quando eu estudava, tinha um menino popular que vivia me perseguindo.
— É… eu não sou popular em lugar algum.
Saiu andando pela beirada do rio.
— Vem logo… ou não vai saber de nada, hummmmm.
Se virou, caminhando de costas, olhando ele ir atrás.
— Fofoqueiro! Quem diria, hein? Dizem que os pets, tem a personalidade dos donos.
— O menino ficava falando sobre meus olhos e eu os odiava… não vai conseguir ver, lobos e cães não devem ver cores.
— Prometo estudar mais sobre lobos… se você for continuar voltando!
— Tenho um olho de cada cor, usei lente de contato bastante tempo, serviam pra esconder.
— Só que sou relaxada e vivia perdendo, estragando elas.
— Eu já estava cansada daquela escola e deles… fiz uma brincadeira idio.ta sobre se trancar no banheiro.
— Era tipo dez minutos no céu, se tranca com alguém e faz o que quer.
— Toda aquela implicância do menino era porque eu não tinha interesse nele.
— Mas eu nem tinha interesse em ninguém… fei.o ou bonito, pra mim eram todos iguais.
— Ele quis ir pro céu comigo, aceitei já m.al-intencionada.
— Bati nele primeiro, lá no meio das pernas, um chute… depois no rosto, costas.
— Quando saímos, ele inventou que eu o chupei… tá, vou traduzir, lambi, sabe? Tipo você e a sua loba.
— Se lambendo… olha, não vou traduzir tudo também, vá pesquisar sobre humanos.
— Enfim, eu inventei que ele broxou e tinha um p.au pequeno.
— Ninguém ia acreditar em mim negando o que aconteceu.
— Fiquei com fama de p*****a e fui parar na diretoria… mas agressão gera expulsão, ser pu.ta não.
— Ninguém nunca me perguntou se era verdade ou não, só falavam do quanto eu errei.
Se sentou, pensativa.
— Tenho fama de mentirosa, m.au caráter, dissimulada… não sou tudo isso.
— Depois de um tempo, quando ninguém acredita em você, a gente passa a duvidar também.
— Cansei de me explicar e falar das minhas verdades.
— Você já foi acusado do que não fez?
Ele latiu uma vez, começou a esfregar a cabeça nela, fazendo carinho. Mordiscou sutilmente a perna dela, puxando a calça do pijama. Ela o afastou de leve.
— O que foi? Quer contar alguma fofoca sua?
Levou outra mordida, mais forte.
— Aiiiii, isso dói aqui, tá?
— Quando te pedi pra me atacar, você não quis.
Ele latiu várias vezes, se afastando como quem a chamava. A guiou pela beira do rio até um barranco. Ela parou, olhando o quanto era íngreme.
— Quer que eu suba? Estou de meias, não sei se percebeu… sou uma humana raquítica e fraca.
Ele latiu uma vez, desceu e subiu rápido, se exibindo. Começou a cavar, jogando folhas na direção dela. Ela decidiu subir.
— Ameaças? É isso?
— Sabe o que minha mãe dizia sobre brincadeiras de mão?
— Alguém sempre sai chorando… você não podia ser menor?
Escorregou e caiu sentada, rindo.
— Um pincher? Shih-tzu? Um labrador gordo e sedentário?
Ele continuou latindo várias vezes, descendo e subindo, indo para longe, esbanjando energia, enquanto ela ainda subia com muito esforço. Ele se deitou lá em cima, olhando, e ficou esperando. Quando ela finalmente conseguiu, ele se virou de barriga pra cima, como quem estava cansado de esperar. Ela se aproximou, exausta.
— Isso tá mais pra pesadelo. Você deve ser o meu animal interior!
Se sentou perto.
— Isso explica tudo… sou um homem no corpo de uma mulher.
— Por isso meu animal é macho!
Deitou com a cabeça em cima da barriga dele.
— Acha que eu sou tipo masculina? Pelo pouco que já viu de mim?
Ele latiu duas vezes, significando não. Ela se sentou, mostrando os braços definidos.
— Meu jeito nada delicado e o porte atlético… já me deram apelidos relacionados a não gostar de homem.
— Será que existem lobas lésbicas?
Ele latiu uma vez. Ela voltou a deitar, encostada nele, rindo.
— Tá aí uma coisa que me irrita… na real, tudo em mim me tira do sério.
— Veja bem, não é questão de ser ingrata ou chata, mas assim… eu tento muito, de verdade.
— Às vezes por mim ou pelos outros, pelo que falam.
— Queria ser como a minha irmã, só um pouco… ela é tão delicada e simpática.
— Sabe fazer de tudo, é o oposto de mim, toda boneca.
— Se fosse uma lobinha, seria aquelas tipo princesas, a obsessão do alfa, algo assim.
— Ela aflora o melhor das pessoas, sem esforço, só é o que é.
— Que tipo de humano você seria, hein?
— Vou te desenhar quando acordar… sabia que eu desenho bem?
— Achou o quê, seu sujinho? Que a vira-lata aqui tinha só defeitos?
Ele latiu duas vezes. Ela continuou:
— Ok, vamos falar das minhas qualidades.
— Sei desenhar, sou muito observadora e sei dar socos incríveis.
— Ahhh, e eu tenho as melhores piores ideias pra fazer coisas erradas.
— Também sou muito rápida… humanamente, sou ótima.
Ele se mexeu, a tirando de cima, levantou agitado, latindo várias vezes. Insistiu indo e voltando, como quem a chamava. Ela se levantou, rindo.
— Ah, claro… quer correr comigo?
Ele latiu uma vez. Ela se aproximou.
— É injusto isso, sabe que vai ganhar.
Ele latiu duas vezes, andou até o outro lado do pasto. Ela foi junto, começou a se alongar.
— Não vale trapacear, nem me morder ou ativar o modo turbo.
— Vou fazer a contagem, tá? Vamos no três… é um, dois…
Saiu correndo na frente, trapaceando. Ele a alcançou e encostou de propósito. Caíram rolando no pasto. Ela começou a rir muito, toda suja, esfolada nos cotovelos e ombro. Se deitou, exausta.
— Sujo, trapaceiro… você ia perder.
— Por que as coisas doem aqui, hein?
— Que tipo de sonho maluco é esse?
— Já pensou acordar ralada?
— É o tipo de coisa sinistra que aconteceria comigo.
Ele se aproximou, lambendo os machucados, abanando o r**o. Deitou com a cabeça no colo dela, lambeu a mão, choramingando. Ela não se mexeu, achando graça.
— Estou brava… você não sabe brincar.
Ele mordeu sutilmente a mão dela, esfregou a cabeça, pedindo carinho. Ela sorriu, exultante.
— Ééé… com certeza você é meu animal interior.
— Sou super carente mesmo, só não sei demonstrar. Eu amo, receber carinho.
Começou a fazer carinho nele.
— Acho que isso é uma fraqueza e as pessoas usam contra nós.
— Ninguém dá nada sem esperar algo em troca.
— Não sei ser carinhosa… acho que por isso nunca ganho carinho de ninguém.
— Você sabe tudo de mim, né?
— Sinto como se estivéssemos ligados de algum modo… você me completa.
— Mesmo no meio do nada, em um sonho esquisito, não me sinto só.
— São raras as vezes que não me sinto sozinha, mesmo com muita gente perto.
— Espero que não me abandone também… eu preciso de alguém, já cansei de ser sozinha.
Ele levantou a cabeça para olhar, a encheu de lambidas, voltou a deitar. Ela silenciou e adormeceu no sonho, como se horas tivessem passado também lá. Acordou desorientada, se mexeu e o sentiu deitado quase todo em cima de suas pernas. O acariciou, afetuosa.
— Você é tão quentinho… me manteve aquecida, não é?
— Obrigada por cuidar de mim. Você, é muito especial.
Ele se levantou, olhando na direção do rio, latiu como quem queria mostrar algo…