Capítulo 26

1684 Words
Kaya sorriu sutilmente. — Não faz isso, distorcendo o que falei… sei lá. — Só acho que ele é muito mais velho, te falei isso. — Não vou dizer mais nada, tá? Viva sua vida. Nilufer sorriu satisfeita. Respondeu. — Ótimo. Você precisa conhecer ele melhor, pra depois julgar. — Ninguém gosta de ser julgado pela capa, como os livros. Kaya disse, irônica, que m*l podia esperar. Foi dormir pensando no lobo. Começou a sonhar com a mata. Estava de pijama e meias. Era noite, um pouco frio, o único barulho era o da água. Entediada, foi caminhando até o rio, se sentou na beirada jogando pedras. Levou um susto com o lobo atrás, rosnando hostil como se fosse atacar. Imóvel, ela pôde sentir a respiração quente e o cheiro dele. Se virou irônica, sem ser intimidada. — Estou tomada pelo medo, acredite. Ele foi chegando mais perto, hostil, latiu uma vez e começou a lamber o braço dela. Ela correspondeu, acariciando-o. — Então gosta de brincar? Típico! — Sumiu o dia todo… estava com sua família? — Tem uma esposa loba? Ele latiu duas vezes, sentou ao lado. Ela o abraçou, afetuosa. — Posso te dar um nome? Você não vai saber me falar o seu, meu Deus. — Lobos têm nomes? Além de alfa, ômega, Luna. Ele latiu uma vez. Ela sorriu. — O meu é Kaya… eu não gosto muito. — Acho que a cada ida minha, vou voltar com uma cicatriz nova. Estou feliz, por encontrar você. — Aqui tudo é diferente, mais leve, como se estivéssemos em um mundo, só nosso, pessoalmente estou pior, sou toda marcada, tenho vergonha disso. Eu estou tão fei.a, sabe? — Não consigo me arrumar, bem diferente da minha irmã, ela é linda, delicada. Sempre está perfeita. Ele começou a lamber o pulso dela, latiu duas vezes. Ela continuou falando, olhando a perna. — Não o quê? Você é um bicho, né? — Pelo menos não está doendo… não aqui. — Os vizinhos colocaram uma armadilha de lobos no quintal, o que é bem estranho. — Eu caí nela e me dei m*l. Agora, olhando você, faz sentido. — Comecei a imaginar essas coisas porque vi outras semelhantes. — Não que seja certo, mas essa armadilha podia ter pego um animal, inofensivo … na primeira oportunidade vou lá me vingar. Ele latiu duas vezes. Ela se levantou, sorriu irônica. — Aiiii, ele não gosta de vingança? — Pois eu gosto, só que sempre desisto. — Já somos íntimos o suficiente para compartilharmos segredos? — É bem ridículo, mas valeu a pena. — Quando eu estudava, tinha um menino popular que vivia me perseguindo. — É… eu não sou popular em lugar algum. Saiu andando pela beirada do rio. — Vem logo… ou não vai saber de nada, hummmmm. Se virou, caminhando de costas, olhando ele ir atrás. — Fofoqueiro! Quem diria, hein? Dizem que os pets, tem a personalidade dos donos. — O menino ficava falando sobre meus olhos e eu os odiava… não vai conseguir ver, lobos e cães não devem ver cores. — Prometo estudar mais sobre lobos… se você for continuar voltando! — Tenho um olho de cada cor, usei lente de contato bastante tempo, serviam pra esconder. — Só que sou relaxada e vivia perdendo, estragando elas. — Eu já estava cansada daquela escola e deles… fiz uma brincadeira idio.ta sobre se trancar no banheiro. — Era tipo dez minutos no céu, se tranca com alguém e faz o que quer. — Toda aquela implicância do menino era porque eu não tinha interesse nele. — Mas eu nem tinha interesse em ninguém… fei.o ou bonito, pra mim eram todos iguais. — Ele quis ir pro céu comigo, aceitei já m.al-intencionada. — Bati nele primeiro, lá no meio das pernas, um chute… depois no rosto, costas. — Quando saímos, ele inventou que eu o chupei… tá, vou traduzir, lambi, sabe? Tipo você e a sua loba. — Se lambendo… olha, não vou traduzir tudo também, vá pesquisar sobre humanos. — Enfim, eu inventei que ele broxou e tinha um p.au pequeno. — Ninguém ia acreditar em mim negando o que aconteceu. — Fiquei com fama de p*****a e fui parar na diretoria… mas agressão gera expulsão, ser pu.ta não. — Ninguém nunca me perguntou se era verdade ou não, só falavam do quanto eu errei. Se sentou, pensativa. — Tenho fama de mentirosa, m.au caráter, dissimulada… não sou tudo isso. — Depois de um tempo, quando ninguém acredita em você, a gente passa a duvidar também. — Cansei de me explicar e falar das minhas verdades. — Você já foi acusado do que não fez? Ele latiu uma vez, começou a esfregar a cabeça nela, fazendo carinho. Mordiscou sutilmente a perna dela, puxando a calça do pijama. Ela o afastou de leve. — O que foi? Quer contar alguma fofoca sua? Levou outra mordida, mais forte. — Aiiiii, isso dói aqui, tá? — Quando te pedi pra me atacar, você não quis. Ele latiu várias vezes, se afastando como quem a chamava. A guiou pela beira do rio até um barranco. Ela parou, olhando o quanto era íngreme. — Quer que eu suba? Estou de meias, não sei se percebeu… sou uma humana raquítica e fraca. Ele latiu uma vez, desceu e subiu rápido, se exibindo. Começou a cavar, jogando folhas na direção dela. Ela decidiu subir. — Ameaças? É isso? — Sabe o que minha mãe dizia sobre brincadeiras de mão? — Alguém sempre sai chorando… você não podia ser menor? Escorregou e caiu sentada, rindo. — Um pincher? Shih-tzu? Um labrador gordo e sedentário? Ele continuou latindo várias vezes, descendo e subindo, indo para longe, esbanjando energia, enquanto ela ainda subia com muito esforço. Ele se deitou lá em cima, olhando, e ficou esperando. Quando ela finalmente conseguiu, ele se virou de barriga pra cima, como quem estava cansado de esperar. Ela se aproximou, exausta. — Isso tá mais pra pesadelo. Você deve ser o meu animal interior! Se sentou perto. — Isso explica tudo… sou um homem no corpo de uma mulher. — Por isso meu animal é macho! Deitou com a cabeça em cima da barriga dele. — Acha que eu sou tipo masculina? Pelo pouco que já viu de mim? Ele latiu duas vezes, significando não. Ela se sentou, mostrando os braços definidos. — Meu jeito nada delicado e o porte atlético… já me deram apelidos relacionados a não gostar de homem. — Será que existem lobas lésbicas? Ele latiu uma vez. Ela voltou a deitar, encostada nele, rindo. — Tá aí uma coisa que me irrita… na real, tudo em mim me tira do sério. — Veja bem, não é questão de ser ingrata ou chata, mas assim… eu tento muito, de verdade. — Às vezes por mim ou pelos outros, pelo que falam. — Queria ser como a minha irmã, só um pouco… ela é tão delicada e simpática. — Sabe fazer de tudo, é o oposto de mim, toda boneca. — Se fosse uma lobinha, seria aquelas tipo princesas, a obsessão do alfa, algo assim. — Ela aflora o melhor das pessoas, sem esforço, só é o que é. — Que tipo de humano você seria, hein? — Vou te desenhar quando acordar… sabia que eu desenho bem? — Achou o quê, seu sujinho? Que a vira-lata aqui tinha só defeitos? Ele latiu duas vezes. Ela continuou: — Ok, vamos falar das minhas qualidades. — Sei desenhar, sou muito observadora e sei dar socos incríveis. — Ahhh, e eu tenho as melhores piores ideias pra fazer coisas erradas. — Também sou muito rápida… humanamente, sou ótima. Ele se mexeu, a tirando de cima, levantou agitado, latindo várias vezes. Insistiu indo e voltando, como quem a chamava. Ela se levantou, rindo. — Ah, claro… quer correr comigo? Ele latiu uma vez. Ela se aproximou. — É injusto isso, sabe que vai ganhar. Ele latiu duas vezes, andou até o outro lado do pasto. Ela foi junto, começou a se alongar. — Não vale trapacear, nem me morder ou ativar o modo turbo. — Vou fazer a contagem, tá? Vamos no três… é um, dois… Saiu correndo na frente, trapaceando. Ele a alcançou e encostou de propósito. Caíram rolando no pasto. Ela começou a rir muito, toda suja, esfolada nos cotovelos e ombro. Se deitou, exausta. — Sujo, trapaceiro… você ia perder. — Por que as coisas doem aqui, hein? — Que tipo de sonho maluco é esse? — Já pensou acordar ralada? — É o tipo de coisa sinistra que aconteceria comigo. Ele se aproximou, lambendo os machucados, abanando o r**o. Deitou com a cabeça no colo dela, lambeu a mão, choramingando. Ela não se mexeu, achando graça. — Estou brava… você não sabe brincar. Ele mordeu sutilmente a mão dela, esfregou a cabeça, pedindo carinho. Ela sorriu, exultante. — Ééé… com certeza você é meu animal interior. — Sou super carente mesmo, só não sei demonstrar. Eu amo, receber carinho. Começou a fazer carinho nele. — Acho que isso é uma fraqueza e as pessoas usam contra nós. — Ninguém dá nada sem esperar algo em troca. — Não sei ser carinhosa… acho que por isso nunca ganho carinho de ninguém. — Você sabe tudo de mim, né? — Sinto como se estivéssemos ligados de algum modo… você me completa. — Mesmo no meio do nada, em um sonho esquisito, não me sinto só. — São raras as vezes que não me sinto sozinha, mesmo com muita gente perto. — Espero que não me abandone também… eu preciso de alguém, já cansei de ser sozinha. Ele levantou a cabeça para olhar, a encheu de lambidas, voltou a deitar. Ela silenciou e adormeceu no sonho, como se horas tivessem passado também lá. Acordou desorientada, se mexeu e o sentiu deitado quase todo em cima de suas pernas. O acariciou, afetuosa. — Você é tão quentinho… me manteve aquecida, não é? — Obrigada por cuidar de mim. Você, é muito especial. Ele se levantou, olhando na direção do rio, latiu como quem queria mostrar algo…
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