Toda sem jeito, ela disse que precisava ir rápido, cuidar da irmã. Foi arrumar as coisas das duas e dos pais, que ficaram lá.
Évora a ajudou, muito prestativa. Como quem não queria nada, fez perguntas para especular mais sobre a Kaya. Nilufer foi muito discreta, apenas disse que a irmã tinha dias difíceis. Agradeceu muito por tudo, trocaram o contato e se despediram, já marcando um encontro só das duas.
Rick estava colocando as coisas no carro, uma caminhonete de luxo. Abriu a porta e ajudou Nilufer a subir. Ele também estava mais sério, pensativo. Ao ficarem a sós no trajeto, ele perguntou se ela se dava bem com a irmã. Nilufer estava muito chateada, respondeu sentida:
— Sim, mas não é como se fôssemos melhores amigas.
— Ela mudou demais, quando éramos crianças, tudo era muito diferente, de um modo bom.
— Depois do acidente… eu era normal, até meio que corajosa, e ela sempre foi muito assim, aventureira.
— Estávamos sozinhas e era rotina, ela é mais velha e cuidava de mim.
— Eu só queria ir com ela, ser igual. Subimos em um muro, depois em uma árvore, parecia um pedaço do céu.
— Tão azul e perto… ela quis subir no telhado e me mandou ficar lá, esperando.
— Quando a vi tão longe, também quis ir. Fui atrás e caí, fiquei presa entre o muro e o telhado com uma fratura exposta.
— A primeira reação dela foi ajudar, mas não tinha como me tirar sozinha.
— Ela correu sem parada até o trabalho da nossa mãe, fez em minutos, um trajeto que demoraria uma hora.
— Eu só lembro do que aconteceu antes e desmaiei, não lembro de mais nada. Até acordar já operada.
— Fiquei internada sem a ver por semanas, quando voltei, machucada e com medo de tudo, nada mais foi igual.
— Ela me evitava o tempo todo e nem voltamos a dividir o quarto, não a culpo por isso, éramos só crianças.
— Depois, parecia que a culpa era minha, fiquei me sentindo uma menina r**m e insuficiente.
— Meus pais brigavam demais, até eu conseguir por o pé no chão, ela já não era a mesma, mudou o jeito de ser, quase não falava, começou a usar muita maquiagem e roupas que não devia. Vulgares.
— Às vezes, queria que ela tivesse caído em meu lugar… não porque quero o m*l dela, mas porque não faria diferença.
— Até para me machucar, eu não presto. Ela nunca mais, foi a mesma, passou a tomar remédios fortes, vive dopada, ficou meio perturbada.
Ela estava chorando sutilmente. Ele enxugou seu rosto.
— Não fale assim, você é ótima, do seu jeito.
— Aposto que tem muitas qualidades e o medo é seu amigo.
— Admiro quem sabe se controlar, é sério.
— Já fui muito imprudente, na hora parece legal, mas não é. Ter medo, é bom.
Ela estava mexendo no celular, atendeu uma ligação da mãe e disse que já estava indo. Perguntou se era mesmo necessário tudo aquilo. Yesenia se irritou, dizendo que estava cansada, perguntou se ela também não estava.
Rick pôde ouvir um pouco do que falavam, pediu para Nilufer se acalmar, disse que ajudaria de qualquer forma que pudesse. Estavam chegando na frente da casa dela, assim que ele desligou o carro, pôde ouvir com sua audição aguçada algo estranho, de longe, vindo de dentro da casa, era como se alguém estivesse agonizando de dor, e ele sentiu que algo maligno, estava acontecendo lá.
Ouviu um feitiço feito com voz de homem e ficou muito confuso. Nilufer estava mexendo no celular, ligando para o pai, ia pedir para ele ir abrir o portão, Rick ficou até desorientado, confuso, quando ia descer agindo no impulso, aquilo silenciou, Nilufer foi abrindo a porta do carro, falando no celular, desligou em segundos e falou chateada que nunca sabia o que encontrar, se referiu à irmã, ele estava quieto olhando para a casa muito sério. Falou intrigado:
— Por que não vai entrando e dá uma olhada nela?
— Eu levo suas coisas, pode deixar.
— Não entendi muito bem, ela desmaiou e se feriu ou brigou na rua?
Nilufer foi indo para perto do portão.
— Ela mente, disse que estava correndo, que é um hábito, e teve um mau súbito, desmaiando à beira da estrada.
— Mas segundo a minha mãe, essas marcas são de quem brigou.
— Ela tem problemas com violência, foi proibida de praticar qualquer esporte relacionado a luta, por ser agressiva demais.
Callum estava saindo, disse que não a esperava tão cedo em casa, perguntou o que tinha atrapalhado o grande fim de semana deles, Nilufer respondeu baixinho que a mãe deu ordem pra ela voltar e ajudar, já cochichou dizendo que queria sair à noite, Rick estava pegando as coisas no carro, perguntou se tinham atrapalhado algo, rindo Callum disse que só a soneca dele, chamou Yesenia de exagerada, foi entrando com as malas, perto do portão Rick sugeriu que Nilufer fosse ficar com a irmã um pouco, ela sorriu sem jeito parada bem à frente dele.
— Ela nunca quer companhia. Meu pai disse que podemos sair!
— Então, que horas você vem? Me buscar?
Ele se aproximou acariciando seu rosto.
— Vamos remarcar, quando sua mãe voltar.
— Adorei te conhecer, não vou me esquecer de hoje, pode ter certeza.
A beijou sutilmente, ela sorriu frustrada, disfarçando a insatisfação.
— Eu também, espero que a gente se encontre de novo.
Completamente diferente, com mais frieza, ele disse que iria mandar mensagem, a beijou de novo já se despedindo, como quem tinha pressa, foi embora rápido. Ele foi perguntar a mãe, se a família de Nilufer realmente não praticava magia, porque ele sentiu algo vindo, da casa delas.
A mãe dele garantiu que Yesenia era uma bruxa fraca, e que as filhas, não herdaram nada dela.
Muito confusa, Nilufer entrou rápido, achando que tinha falado demais, expondo seus problemas e o assustando, foi direto para o quarto da irmã, Kaya estava deitada completamente coberta, dos pés à cabeça, Nilufer se aproximou irritada.
— O que aconteceu dessa vez?
— É a nossa primeira semana aqui, Kaya, que droga.
— Por que tinha que sair? Íamos ter um fim de semana incrível, em família.
Foi chegando perto da cama, segurou as correntes sentida.
— Você gosta disso? Se sabe o que vai acontecer, por que continua fazendo as mesmas besteiras?
— Você gosta, de ser tratada como um bicho.
Callum estava na porta olhando, entrou no quarto.
— Filha, ela está medicada, a deixe descansar, eu também disse que não era necessário a prender, com tantos sedativos não iria nem ao portão.
Nilufer saiu chorando, irritada.
— Pai, não deixe a mãe mandar ela pra longe. Acham mesmo que isso vai ajudar?
— Ela não vai parar, até quando vamos viver assim?
— Se não fosse por isso, tudo teria sido incrível.
— O Rick é simplesmente tudo de bom, simpático e educado, achei que ele tinha gostado de mim.
— Mas acabei falando demais, sou uma idiotta mesmo.
— Quem vai querer ficar com alguém como eu, ainda mais sendo irmã de alguém como ela?
Preocupado, Callum perguntou se ela havia contado algo importante, Nilufer disse que não, mas que o show de horrores da irmã já foi o suficiente para envergonhar eles.
Enquanto ela desfazia as malas, chegou a comentar que ficou com Rick e falou sobre o encontro, que ele desmarcou.
Enquanto conversavam, Kaya estava desmaiada se sentindo muito fraca, no quarto, dos fundos do quintal, em cima do barranco, alguém ouvia tudo e não entendia como aquilo era possível. Ela estava tendo sua força, energia, drenada e só não morria, por ser muito forte.
Depois de um tempo, Nilufer voltou lá no quarto da irmã, foi oferecer um lanche, chá, bolachas, só ficou falando de longe, não descobriu ela e começou a contar como foi o dia, sem muitos detalhes já se mostrou completamente interessada em Rick, ao não obter resposta alguma, enquanto desfazia a mala de Kaya, Nilufer se irritou.
— Sei que está ouvindo, quer mesmo ir pra longe?
— Acha que será bom ficar internada em uma clínica psiquiátrica?
— Tudo sempre tem que ser sobre você, né?
— Não se preocupa comigo, olha só, não consigo mais te ajudar, se te mandarem pra longe...
— Kaya, eu não tenho mais forças pra lidar com você. Tá todo mundo cansado!
— Você precisa, se controlar.
Kaya havia acabado de despertar, com dores no corpo todo, sentindo até sua alma doer, parecia que nada ali, era compatível com a vida, seus olhos ardiam, seu maxilar latejava, seus ossos pareciam recém quebrados. Ao ouvir tantas reclamações da irmã mimada, ela respondeu hostil, mostrando o dedo do meio.
— Não lide então, sai daqui. Vai se fo.der, Nilufer.
Também hostil, Nilufer gritou, desarrumando tudo o que tinha dobrado e colocado no guarda-roupa.
— Você é muito egoísta, da próxima vez que fugir, não volte.
— Some das nossas vidas.
Jogou as chaves das correntes perto da cama.
— Quando a mãe voltar, vai dar um jeito em você.
Saiu do quarto chorando, arrasada, ficou mais triste porque o Rick não tinha enviado nada, começou a reclamar para o pai, dizendo que não tinha sorte mesmo, duvidando de si mesma como sempre, já deduziu que nem iriam mais se encontrar e que o dia incrível não passou de fingimento dele.
Kaya estava presa na cama, como um animal selvagem e fraca demais, para se soltar.
Mais tarde, Rick ligou para perguntar se estava tudo bem, Nilufer nem conseguiu conversar normalmente, não sabia esconder a chateação, ele a convidou para sair, mas seria uma surpresa, combinou de mandar um carro a buscar, com a desculpa de estar ocupado arrumando tudo.
Mais tranquila, ela aceitou, correu falar com o pai, ambos decidiram esconder aquilo de Yesenia, com más intenções Callum super incentivou ela a ir, até ajudou a escolher a roupa, só pediu pra ela medicar a irmã antes de ir.
Antes de sair, ela foi no quarto da Kaya, tudo parecia exatamente igual, deixou os remédios ao lado da cama, se afastou indo terminar a maquiagem.
— Estou saindo, quer conversar? É o meu primeiro encontro de verdade!
— Está acordada? Kaya? Toma o remédio, por favor!
— Você é uma péssima irmã às vezes, sabia? Mas eu ainda te amo.
Kaya descobriu a cabeça um pouco, tomou o remédio com dificuldade, não disse nada.
O carro chegou buzinando, Nilufer deu boa noite, saiu às pressas ansiosa, Callum a acompanhou até o portão, voltou para dentro sorridente, imaginando tudo o que faria aquela noite, animado foi fechando as cortinas, apagando luzes, aumentou o volume da música na televisão, se preparou pegando as coisas que usava para drenar a enteada.
Foi logo para o quarto de Kaya, a puxou pelo cabelo com força até ela tirar o edredom sozinha, estava a ofendendo com muitos palavrões, a ameaçando o tempo todo, disse que antes de acabar com ela, iria se divertir, ele pretendia a.b.u.s.ar dela.
Desorientada, ela não conseguia gritar ou reagir, sob o efeito dos calmantes e feitiços, foi perdendo a consciência.
Nilufer chegou ao encontro quase uma hora depois, era em um local afastado, celulares não tinham sinal, ela estava com um vestido azul bebê justo ao corpo, na altura do joelho, de alças regata, era discreto e delicado, de sandália rasteira se arrependeu por não ir de tênis, Rick estava todo de preto, camisa e calça social, sapatênis, muito bem arrumado, a pegou na porta do carro, agradeceu o motorista, no começo não dava para ver nada direito, era uma área rural.
Ele se aproximou para beijar a boca dela.
— Oi, tartaruga, demorou tanto que até senti saudades.
— Tudo bem? Está animada?
Apreensiva, suando frio, ela estava olhando tudo curiosa, imaginando aonde iriam.
— Oiii, também acho que demorei, nos perdemos em uma saída. Passamos do retorno!
Passou a mão no vestido para secar o suor.
— Estou um pouco nervosa, desculpa. Minhas mãos estão quente, pegajosas.
— O que vamos fazer?
Ele lhe entregou uma lanterna.
— Ahh, jantar e outras coisas, posso te carregar? É logo ali, acredite!
— Sou meio amante da natureza e não tenho medo do escuro.
Foi a pegando no colo, como se carrega uma noiva.
— Não quero que caia ou se suje no mato.
Rindo, ela disse que poderia aceitar a carona, acendeu a lanterna, ele a levou para um lago, a colocou dentro de um barco pequeno.
— Gosta de água? Sabe nadar?