Capítulo 28

1592 Words
Tinham dois homens trabalhando, ele os conhecia de vista, sabia que eram lobos. Aparentemente, os dois não perceberam nada sobre ele, nem reagiram a sua presença, com nada sobrenatural. Ele foi atendido, conversou tirando informações. Quando Zay saiu mexendo no celular, reparou na casa ao lado, aparentemente deles, com brinquedos de crianças espalhados, roupas no varal. Ele achou uma foto de uma peça que queria e voltou para a oficina. Sentiu a presença de um homem diferente, que foi se afastando pelos fundos rapidamente. Um dos homens estava diferente, mais sério, se aproximou hostil ao ponto de Zay sentir. — Não trabalhamos com esse tipo de motos. Aqui só pegamos as comuns, de gente pobre, a ralé. — O homem mais velho, disse com deboche, afronta. — Então é melhor ir embora. No seu lado da cidade tem bastante gente como você. Zay sorriu irônico, guardando o celular. — Eu trabalho no hospital. Já pensou se fosse receber uma das suas crianças peludinhas? — Falando que não atendo ninguém de fora? — Não me importo com o que fazem aqui, nem quero prejudicar ninguém, mas vou, se preciso for. Se virou sutilmente, mostrando que estava percebendo o que acontecia. Um outro homem se aproximava com um pedaço de ferro para bater nele. Com um movimento sutil das mãos, o fez soltar o ferro e cair de joelhos. O outro se aproximou, tomando a frente, defendendo o irmão. — Não o machuque, por favor. O que quer conosco? — Consertar a moto, que não é. Somos pessoas de bem. Zay se aproximou de uma moto que estava em cima de um suporte alto, respondeu. — Também quero isso, mas a prioridade é outra. — Tem havido uma série de ataques na mata e eu acho que vocês têm uma visita diferente. — Talvez não tão bem-vinda, já que fugiu assim que cheguei. — Sabem de alguma coisa fora do comum? — Viram vampiros por aqui ou sei lá? O rapaz mais novo ia falar algo, o outro interrompeu. — Pode parar com o teatro. Ninguém aqui vai pra lugar nenhum, matar ou fazer qualquer coisa errada. Temos uma família, nascemos aqui. Tem sido o nosso lar a gerações. — Quanto ele te deve? Nós não temos nada a ver com isso. — Não temos dinheiro pra pagar nada. Nem vamos brigar por ele. Antes de Zay responder, um homem mais velho entrou na oficina. De óculos escuros, alto, branco, barba por fazer, calça jeans rasgada, coturno e camiseta de rock. Se aproximou tranquilamente, falando com deboche. — Ele nem precisou insistir pra me entregarem. Quanta união em família. Mostrou uma foto que estava no carro de Zay. — Aliás, linda a sua. — Eu não devo, nem negocio com bruxos. Acho que meus queridos agiotas não me encontrariam aqui nem por GPS. — Então como me encontrou e o que quer comigo? Zay pegou a foto da mão dele. Respondeu intrigado. — Não sabia exatamente quem iria encontrar. Usei o sangue, de outra pessoa. — Quebrou o meu carro? Sem demonstrar fraqueza ou medo, o homem sorriu, seguro de si. — Ah, não. Eu sei abrir qualquer fechadura sem dificuldade. — Se não fosse tão novo, saberia disso. — O maior ladrão de alguns muitos anos atrás. — Aliás, doutor Zaymon, sou o Lorian. Pai da garota, que você está interessado! — Você é médico, bruxo… se não é da polícia ou amigo de algum vampiro cobrador, não sei o que pode querer comigo. — Porque te garanto, que não matei ninguém na sua cidade. E a minha filha, também não. — Não posso criar problemas aqui ou não serei bem-vindo. — Fazem uns vinte anos que não venho pra casa. Vim em paz. Zay ficou curioso, intrigado. Perguntou analisando, Lorian. — Está atrás dela, por quê? — Depois de tanto tempo, de repente você volta e ela também. — Pessoas começam a se machucar. Lorian ficou sério, hostil. Perguntou. — Por que é da sua conta? — Pelo que vi, não é a sua família que a acolheu. — Diga de uma vez o que quer aqui. Como posso te ajudar? Zay sorriu, confuso. Disse pensando em Kaya. — Se preocupa mesmo com ela, sendo que nem a criou? — Pelo pouco que sei, ela não sabe sobre nada disso. — Qual o seu interesse real nela? É lógico, que veio por ela. Os outros se afastaram. A feição de Lorian mudou, como quem ia se transformar. — É a minha filha! Ela me chamou, sem saber. — Fique longe dela e de todos nós. Zay foi em direção à saída, tranquilamente. — Se acalme. Não quero prejudicar ela nem ninguém. — Se você está a vigiando, deve saber que ela não está só. — E nem um pouco segura. — A mãe não parece ter a menor afeição e a irmã está destinada a viver a própria vida. — Pelo pouco que vi, não vai demorar até que ela se transforme por completo. — Se não tiver o suporte que precisa, vai virar um risco a todos nós e a si. — Vejo que é um híbrido também, deve se lembrar de quando foi sua vez. — Quero ela fora do meu caminho e segura. — Não é pedir muito a um pai, imagino. — Faça o que for preciso pra afastar ela de lá. — Eles não são confiáveis. Vão usá-la! Lorian foi atrás, confuso, pois já tinha visto Zay atrás de Kaya, mais de uma vez. — Não vou fazer nada. — Lorian disse. — Qual o seu interesse nisso? — Por que quer ela longe? — O que ganha com isso? Zay olhou a fechadura do carro e abriu a porta. Respondeu sério. — Não vou perder meu lar nem colocar minha família em risco porque meus vizinhos decidiram aumentar a família deles. — Acredite, meu lado humano pode ser sensível e diplomático. — Sua filha vive há anos sob efeito de remédios e feitiços. — É acorrentada e torturada como um animal. — Fizeram ela acreditar que tem doenças mentais. — Imagina o que vai acontecer quando ela começar a estragar a vida perfeita da irmã? Lorian disse que não sabia como chegar até ela, porque ela não acreditaria em nada. Zay entrou no carro. — Se for sincero, ela provavelmente vai sentir. — Pais têm um laço único com os filhos. — Ela está com os sentidos diferentes. — Se conseguir fazê-la se identificar com você, será fácil. — Ah, e por favor, não fale nada sobre mim. — Meus vizinhos não precisam saber que não estou do lado deles. Lorian concordou, Zay foi embora achando que tinha feito a coisa certa. Os sobrinhos de Lorian estavam com medo, começaram a falar que ele precisava ir embora, que levaria problemas para eles. Sem paciência, ele ignorou e saiu de moto, indo atrás de Kaya, furioso com Yesenia. Évora e Kaya já tinham almoçado e estavam mexendo na estufa. Kaya deu a ideia de desenhar flores na pintura. Passou o resto do dia lá, com o pensamento distante. Voltou da cidade diferente e Évora percebeu, só não entendeu o porquê. De longe, no meio da mata, Lorian a observou bastante. Já estava de olho na rotina delas há dias. Quando anoiteceu, Kaya entrou e foi para o quarto. Estava agitada, ansiosa. Saiu procurar a mãe já trocada, com roupa de academia. — Posso ir a pé buscar a Nilufer na cidade e voltar de carro? — Perguntou apreensiva. — Vou andando até a perna melhorar pra poder correr. Yesenia não deixou. Respondeu ríspida. — Você não devia sair nem no portão. Kaya retrucou, irritada. — Eu tô cansada de ficar presa. — Você sabe que eu preciso respirar, fazer minhas coisas. — Bloqueou meu cartão? — Fui comprar um caderno hoje e não passou. Com cinismo, Yesenia começou a rir. — Suas coisas, você, você, você… — Minha filha, ainda não percebeu que não é tudo sobre você? — Não vou te dar um real. — Se quiser algo, peça e eu compro, quando puder, se merecer. — Tem sido gentil com a sua irmã? — Ou está envenenando ela contra mim e o mundo? — Por que ela está me ignorando ainda? Elas estavam sozinhas na sala. Kaya foi saindo chateada. Falou triste. — Nunca é sobre mim. — Ela me pediu pra ir buscá-la, eu tô tentando. — Nada nunca tá bom. Yesenia saiu atrás, na varanda. Alterada. — Acha que eu não conheço suas artimanhas? — Você é falsa, suja. — Até parece que vai mancando buscar sua irmã e só. Se sentindo sufocada e exausta, Kaya foi para a estufa chorando. Colocou os fones e voltou a desenhar. Évora tinha ido à cidade comprar mais tintas e pincéis. Yesenia ia trabalhar. Passou na estufa para avisar Kaya. Falou como se estivesse com raiva. — Quer só o caderno? — Esses valores estão absurdos. Kaya balançou a cabeça que não, respondeu que não precisava de nada. Começou a se sentir irritada, remoendo tudo, pensando em tudo que a irmã vinha ganhando para estudar. Decidiu parar de desenhar. Foi até os cavalos quando teve a impressão de ouvir um uivo. Tirou os fones assustada. Ouviu de novo. Estava perto, vindo das árvores. Achando que podia ser mais uma alucinação ou o seu mais novo amigo, agiu no impulso, por instinto. Foi se aproximando. Pulou uma cerca apreensiva. Viu o contorno de um lobo no escuro, se aproximando lentamente. Sorriu eufórica. — Você existe… é real.
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