Ele ficou tentando acalmar ela, disse que não ia adiantar se culpar. Évora e Otelo chegaram rápido para dar apoio a Nilufer.
A polícia não deixou ela entrar para ver a irmã, porque queriam o depoimento dela após acordar da sedação, sem ninguém ter influenciado nada.
Yesenia chegou de madrugada, desesperada. Foi hostil com Nilufer, perguntando aonde ela foi e por que largou a irmã sozinha. Conversaram de canto, ela contou a verdade, lamentando muito, disse que deu as chaves para Kaya se soltar antes de sair.
Otelo havia conseguido informações privadas com um amigo da polícia, ninguém tinha falado nada sobre as correntes ou cárcere privado. Já estava amanhecendo quando Évora insistiu para levar Nilufer embora. Ela estava arrasada, preocupada, não queria sair de lá. Foi para casa apenas pegar as coisas, um policial a acompanhou dentro da casa. Évora a ajudou com as malas, disse que poderiam ficar em sua casa o quanto precisassem.
Nilufer fez as malas da mãe e da irmã também, não viu as correntes no quarto e até achou que a polícia tinha pego.
Évora a levou para sua casa, não muito longe dali. Era grande, arejada, com piscina. Só estavam as duas. Nilufer começou a chorar, dizendo que não devia ter saído. Muito gentil, Évora a amparou, com otimismo disse que Callum ia melhorar e tudo se acertar, a fez comer uma fruta.
Nilufer tomou banho e separou roupas e produtos de higiene pessoal para a irmã. Estava tentando digerir o que aconteceu. Rick havia chegado logo depois dela, já trocado, de banho tomado. Foi bater na porta do quarto, perguntou se ela precisava de alguma coisa, a abraçou enchendo de beijos no rosto.
Ela disse que não podia perder mais ninguém, se mostrou completamente vulnerável. Ele não sabia o que fazer para ajudar, deu todo o apoio possível, a levou de volta para o hospital.
Kaya havia acordado assustada e presa à cama, sem saber o que tinha acontecido com Callum, seu padrasto. Falou que se medicou e dormiu, sem ver ou ouvir nada.
Quando questionada sobre ter sido ab.usada, se calou. Uma policial estava fazendo perguntas, a soltou e contou que ele foi encontrado em estado grave. A médica interrompeu:
— Querida, nós só queremos te ajudar. Quando foi trazida, tivemos que te examinar e…
— Está toda machucada, com sinais de ab.uso, agre.ssão. Quando isso aconteceu? Essa noite?
— Se lembra de qualquer coisa, mesmo que mínima?
— Ninguém vai saber do seu depoimento, sua irmã está aflita para te ver. Assim que terminarmos, ela vai ser liberada!
Kaya enxugou os olhos marejados.
— Estou tentando e não consigo lembrar, eu não sei.
— Na sexta-feira saí e fiquei com um cara, tínhamos bebido e…
— Só curtimos muito, não aconteceu nada errado.
— Se eu quisesse fazer qualquer denúncia, teria feito ontem cedo, quando cheguei em casa. E eu me machuquei, sozinha. Eu cai.
A policial começou a falar sobre o protocolo de est.upro, tentou convencê-la a denunciar. Nem a médica acreditou totalmente naquilo, porque também tinham marcas de agressões pelo corpo dela.
Kaya se recusou a abrir boletim de ocorrência, sustentou a mesma versão. Estava chorando sozinha quando a mãe entrou. Yesenia nem perguntou o que aconteceu ou se ela estava bem, se aproximou da cama falando baixinho:
— Sei que foi você e vai se arrepender por isso.
— Não sei como conseguiu fazer isso, ele está morrendo.
— Por que tinha que estragar a nossa vida desse jeito?
— Tínhamos um plano.
Confusa e assustada, Kaya não respondeu nada, se deitou de costas chorando. Yesenia a mandou tomar cuidado com o que iria inventar, porque senão sairia de lá direto para uma clínica psiquiátrica. Já a alertou que todos no hospital sabiam do quadro dela de esquiz.ofrenia.
Nilufer estava no corredor, bem próxima do quarto. Rick pôde ouvir tudo, não gostou e começou a perceber, a índole da sogra. Estava impaciente, sem poder ajudar, disse que era pra Nilufer ser solidária à irmã, porque provavelmente estavam duvidando dela.
Nilufer entrou no quarto chorando, se aproximou apreensiva, pedindo desculpas. Kaya continuou imóvel, de costas, fingindo que dormia. Passou o resto do dia completamente calada, com medo das ameaças. Teve que tomar fortes medicações para prevenir doenças sexu.almente transmissíveis. Não recebeu alta por conta da inalação de fumaça e machucados.
Nilufer ficou como acompanhante, só queria ajudar e nem fez perguntas sobre nada. Em momento algum pensou que a irmã poderia ser culpada por algo. Até porque, para ela, não era possível que uma mulher, fizesse tudo aquilo.
Por mensagens, manteve Rick informado de tudo. Otelo achou melhor deixar elas hospedadas na fazenda com Évora, porque estavam com medo de quem invadiu a casa ir atrás delas, eles não entenderam como bruxos, foram atacados assim e acharam que foi usado magia. Sem familiares na cidade, elas receberam toda a ajuda necessária apenas deles.
Rick foi viajar a trabalho na segunda-feira, nem pôde ver Nilufer e se despedir. Estavam muito próximos pelo celular.
Yesenia precisava começar a trabalhar, ia estar no mesmo hospital que Callum estava internado. Ele ainda estava em coma induzido, em estado grave.
Kaya recebeu alta no meio da semana. Estava sem falar com ninguém desde que tudo aconteceu. Assim que ficaram a sós no carro, Yesenia e as filhas, ela começou a falar que não queria ambas desobedecendo, a envergonhando perante Évora e Otelo. Já havia pedido para Nilufer não ficar atrás de Rick. Yesenia tratava as duas, como adolescentes e elas não eram.
Évora estava esperando ansiosa, as recebeu no quintal. Muito gentil, beijou e abraçou as meninas e reparou que Kaya não parecia nada bem, abatida e fraca, com uma energia muito r**m vindo dela. Kaya não disse nada além de:
— Oi, obrigada.
Foi direto para o quarto. Estava com náuseas, vômitos, sofrendo os efeitos colaterais das medicações e de coisas, que ela nem sabia, feitiços para inibir qualquer transformação.
Évora suspeitou que Yesenia fazia diferença entre as filhas quando a viu indo cozinhar para Nilufer, deixando Kaya no quarto sem nem um lanche.
Quem foi levar algo lá foi Nilufer. Ela estava começando a se questionar sobre o que aconteceu com a irmã durante o sumiço. Aproveitando que a mãe saiu, foi tentar conversar. Levou torradas, frutas e leite, perguntou se podia abrir a porta que dava na varanda para o sol entrar. Kaya estava assistindo televisão no escuro, não respondeu. Nilufer foi ajeitando o quarto.
— A mãe foi trabalhar, vou ficar com você.
— Quer que eu te traga comida?
— Posso fazer sopa de feijão ou canja?
Se aproximou da cama.
— Pode conversar comigo Kaya, eu também tô com medo. Do nosso futuro.
Kaya a olhou sem esboçar reação alguma.
— De quê? Ser presa? Internada? — Disse hostil.
— Por que não vai caçar o que fazer e me deixa, Nilufer?
No mesmo tom irritada, Nilufer puxou o cobertor, a descobrindo.
— Medo de perder o meu pai? Você nem disfarça o quanto não se importa com ele, comigo. — Olhou para Kaya, decepcionada.
— Como pode ser tão egoísta?
Kaya se sentou, indisposta, respondeu brava.
— É, dona da razão. Agora só falta dizer, igual à sua mãe, que eu sou culpada e tentei queimar ele vivo.
— Quer falar de egoísmo?
— Quem estava passeando escondida era você.
— Olha pra mim, quer mesmo conversar?
— Quer ser ouvida e não ouvinte, nunca quer a verdade.
— Eu estava dopada, como poderia queimar algo? Eu quase morri.
Nilufer elevou o tom de voz, nervosa.
— Eu nunca pensaria isso de você.
— Se não fosse tão mentirosa e dissimulada, eu acreditaria no que diz.
— Conta o que aconteceu quando sumiu?
— Foi estu.prada e agredida, como? Onde? Por quem? Você lutou com alguém, não é?
Kaya se levantou, ia para o banheiro. Nilufer a segurou pelo braço.
— Não vai falar? Conta tudo, quero saber a verdade.
Kaya se soltou e foi para o banheiro vomitar. Demorou um pouco, tomando banho. Quando saiu, o quarto estava todo arrumado. Nilufer estava sentada aos pés da cama, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Não disse mais nada, ficou bastante tempo lá, apenas assistindo.
Évora foi ao quarto oferecer um suco, convidou as duas para irem ao galinheiro, andar um pouco no quintal. Nilufer perguntou se a irmã queria o remédio de enjoo. Kaya foi se levantando.
— Não quero, vão vocês.
— Vou sentar ali fora, prefiro ficar perto do banheiro.
Foram saindo juntas. Kaya sentou no gramado. As duas se afastaram conversando sobre Kaya e a recuperação. Évora perguntou se tinham conversado sobre o que aconteceu, o ab.uso. Nilufer ficou sentida, respondeu desconcertada.
— Não, ela não quer falar sobre nada.
— Me sinto péssima por não poder ajudar.
— Só queria que ela se abrisse comigo e me ouvisse também.
Évora deu conselhos sobre ter paciência e afeto, porque era comum que vítimas não conseguissem se abrir, relatando o que lhes feriu.
Kaya ficou sentada, com o pensamento distante. Só esperou as duas se afastarem e foi andar sozinha, o mais longe que pôde dentro da fazenda. Estava escurecendo e a vontade era de não voltar.
Tentada a sair, mas sem ter para onde ir, se deitou perto dos cavalos, que estavam presos no estábulo. O silêncio era reconfortante, até que todos começaram a se agitar, aparentemente sem motivo. Era nítido que estavam assustados com algo.
Sem entender e com a sensação de estar sendo observada, se levantou rápido e foi em direção à fazenda. Ao pular uma cerca que prendia os animais, ouviu barulho nas folhagens secas. Ao invés de continuar caminhando para se afastar, resolveu ir atrás, agindo no impulso, sentiu algo a atraindo. Apreensiva, foi chegando cada vez mais perto, viu um vulto se afastando rápido no escuro e ficou confusa, com a sensação de estar em perigo. Pode ver que era um animal, escuro, peludo. Achou que era um cachorro.
Voltou para a casa às pressas, assustada. Entrou no quarto, foi trancando a porta da varanda. Começou a pensar nas coisas que a mãe dizia, sobre ela ser esquiz.ofrênica e sempre ver coisas onde não existiam. Isso a deixou mais triste ainda, confusa. Sua cabeça estava doendo e o cheiro de tudo, a incomodava além do normal.
Quando o jantar ficou pronto, Nilufer foi até o quarto, se ofereceu para levar o prato lá. Com poucas palavras, Kaya recusou. A olhou saindo como quem queria dizer algo.
— Espera! — Disse Kaya desconcertada, agitada.
Nilufer ficou parada na porta, olhando.
— Fala!
Kaya desistiu.
— Nada, pode ir.
Estava impaciente por ficar tantos dias presa, sem fazer nada diferente ou os exercícios. Como de costume, se medicou e foi dormir.
Yesenia chegou cedo no dia seguinte. Antes de ir deitar, foi verificar as duas filhas. Estava muito preocupada com o marido, incomodada por estar ficando de favor na casa de Évora, antes de acertarem o casamento. Desabafou falando m*l de Kaya, contou algumas das coisas que ela já havia feito no passado: brigas na escola, no futebol, no judô, roubos, sumiços e fugas.
Évora estava ouvindo com espanto. Não imaginava o quanto era r**m a convivência delas. Soube com detalhes que Callum não conseguia lidar com a enteada, por não ser respeitado nunca.
Estavam falando sobre a clínica psiquiátrica quando Nilufer levantou e interrompeu. Ouviu uma parte da conversa e não gostou. Começou a falar que não podia ficar sozinha, sem o pai e a irmã. Évora saiu da sala de estar, foi para o quintal falando no celular. Muito rude, Yesenia disse que não tinha como arcar com tudo sozinha e Nilufer ia precisar parar os estudos para poder trabalhar. Acordar pra vida, perder as regalias.
Revoltada com as mudanças, Nilufer disse que então pagar uma clínica estaria fora do orçamento. Yesenia respondeu irritada:
— E como vamos lidar com ela, sem o seu pai?
— Quer ser a próxima queimada viva?
— Quantas vezes vou ter que te lembrar de quem ela é?
Kaya havia acordado. Estava no corredor ouvindo a discussão. Começou a chorar de raiva, sentindo sua respiração falhar, mesmo acelerada. Levou um susto com Rick bem próximo atrás dela.
— Oii, deve ser a famosa irmã da Nilufer.