Capítulo 18

1776 Words
Ele a carregou inconsciente, foi entrando junto e a segurou entre as pernas, abraçada de costas para ele. Deixaram a água gelada. Kaya foi se resfriando, como se um botão tivesse sido desligado. Ele pôde sentir os batimentos desacelerando, a respiração ficando calma e pesada, como de quem apenas dormia. Perguntou o que estavam dando a ela, Évora respondeu exultante: — Não sei ao certo, mas eu só quero ajudar. — Ninguém pode saber, Zay, de tudo o que vem acontecendo. — Foi tudo uma coincidência, a mãe delas nasceu aqui e precisa de ajuda. Somos amigas. — Aquilo que aconteceu com o pai delas, nem eu sei o que foi. O queimaram, com magia, não é? Ele foi saindo da banheira com Kaya no colo. — Não vou contar e, sinceramente, não quero saber também. Acredito, que foi magia, e sinceramente? — Duvido que ele acorde. — As coisas estão bem difíceis em casa, a cada problema de clãs, ou mudança na cidade o caos se instala. Levaram-na para o quarto. Évora disse que podia imaginar. A colocaram na cama, ele foi pegar a bolsa. Falou sério. — Não quero ser a pessoa ch.ata que vai dizer que isso tem tudo pra dar errado… — Mas acho que tem. — Já viram no episódio da armadilha, foi tipo uma atração em casa. — Ela é uma ameaça e nós sabemos. — Posso sugerir umas ervas que não a inibem de fato, só ajudam a focar. — Controlar os instintos… eu mesmo uso diariamente. — Ninguém quer ser exposto, e se ela começar a machucar pessoas… Évora o interrompeu enquanto tirava a camiseta de Kaya. — Eu sei, não vai acontecer nada disso. — Vou mantê-la aqui e segura. — Não tenho como te agradecer por tudo. — Me manda a lista e eu mesma vou me encarregar de fazê-la tomar. — A mãe dela a convenceu de que tem esquizofrenia desde os primeiros sinais e a coitada realmente acredita. — Tenho tanta pena dela. Ele reparava no corpo dela, nas marcas, e notou uma cicatriz diferente na barriga, que não estava ali na noite anterior, quando ele a socorreu. Começou a anotar em um bloco de notas, a lista. — A essa altura, não vai adiantar tentar burlar a natureza dela. — Vai acontecer, ela querendo ou não. — A primeira flor é para a perna e a outra para todo o resto. — Se precisar de alguma coisa, me liga. Évora guardou os papéis no bolso e o acompanhou até o corredor. — Você é um rapaz de ouro, até poderia brilhar no sol, como os vampiros daquele filme. — Da próxima vez que vier aqui, vou fazer aquele bolo de cappuccino que você gostava tanto. Ele saiu rindo. — Não recebo convites há muito tempo, mas ainda adoro o bolo. — Tchau! Espero que ela fique bem. Mais aliviada, Évora voltou para o quarto, terminou de trocar Kaya e foi atrás do que precisava para preparar algo e tentar ajudá-la. Zay foi embora com a sensação de estar errando. Ele havia visto novamente e sentido mais do que qualquer outra pessoa ali o quanto ela estava sofrendo. Não apenas viu as memórias que apagara pela visão dela, como sentiu tudo o que Kaya sentiu quando as viveu. Tudo nela era frio, triste, confuso, ela se sentia insegura, rejeitada. E sentir tudo, fez ele se sentir ainda mais, ligado a ela. Algo nela, o atraía, aumentava o desejo de proteger, ajudar, estar lá. O resto do dia Kaya dormiu. Quando Yesenia chegou com Nilufer, Évora já havia dado o chá e inventou mentiras, dizendo que Kaya havia acordado se sentindo melhor. Yesenia foi trabalhar. Nilufer estava preparando o jantar, distraída, conversando por ligação com Rick, contando sobre o curso e o quanto estava ansiosa. Kaya se levantou sorrateiramente, realmente se sentindo melhor e foi até a cozinha, sentindo-se confusa. Quando Nilufer a viu, ficou sem jeito, com os olhos marejados. — Minha irmã acordou, depois a gente se fala. — Tchau, beijos. Desligou o celular e se aproximou, amparando Kaya. — Oi… como você está se sentindo? — Não força a perna, vem, cuidado. A sentou à mesa. — Quer água? Kaya? — Você está pálida! Ela apenas balançou a cabeça que sim, pegou o copo com as mãos trêmulas. Perguntou confusa. — O que aconteceu? — Não consigo lembrar. — Fiz algo errado? Nilufer se aproximou, prendendo o cabelo dela. Respondeu. — Não. — Você foi correr e se machucou, um vizinho te trouxe ontem. — Não sei que tipo de gente põe armadilha no quintal, mas te ajudaram. — Por causa de tudo o que aconteceu com a gente, acharam melhor não ir para o hospital. Ele é médico, e cuidou da sua perna. Sentou ao lado dela, reparando nas mãos geladas e no olhar apático. — Está com dor? — Quer alguma coisa? Kaya olhava fixamente para o copo quando levantou os olhos e viu Évora entrando na cozinha. — Não, obrigada. — Kaya falou baixinho. Évora se aproximou apreensiva. Mas gentil. — A bela adormecida acordou. — Deve estar faminta. Começou a mexer na geladeira. — Vou terminar o jantar. — Nilufer, ajuda ela a tomar banho. — Querem filé de frango ou bife acebolado? Kaya permaneceu calada, vidrada nos potes, o cheiro parecia estar mais forte, suculento. Nilufer respondeu: — Pode ser frango pra nós duas, por favor. Évora destampou outro recipiente e tirou um bife de carne. — Ah, eu prefiro esse. — Em casa somos carnívoros demais. Kaya parecia enfeitiçada, olhando a carne, levantou-se devagar. — Quero esse também, por favor. — Posso tomar banho sozinha, eu consigo. Nilufer permaneceu próxima, prestativa. — Sei que consegue, mas me deixa te ajudar. Kaya concordou. Foi tomar banho com o pensamento distante. Olhou-se nua no espelho, reparando nas novas cicatrizes. Pensou que estava piorando mentalmente, com lapsos de memória cada vez maiores. Sentiu-se impotente, uma ameaça para todos, um fardo do qual não queria mais ser. Nilufer estava no quarto esperando. Separou a roupa, ficou observando, achando tudo estranho, a irmã estava calma demais. Kaya se vestiu e foi jantar calada, comeu muito bem, diferente de quase sempre: dois bifes, arroz, feijão, salada. Foi deitar cedo e dormiu após tomar mais chá. Nilufer ficou preocupada, acordou várias vezes para vigiar o sono da irmã. Foi uma noite tranquila. Quando Yesenia chegou cedo, já foi medicar Kaya, acordou-a com os comprimidos e um copo d’água. Falou fria. — Acorde, como está sua perna? — Vou levar sua irmã na cidade, quero que vá comigo. — Depois vamos passar em casa, pegar algumas coisas. No susto, Kaya despertou, tomou os comprimidos, apenas concordou e se trocou para sair. Camiseta folgada de banda, shorts de malha curto agarrado, prendeu o cabelo de qualquer jeito. Estava fazendo o curativo sozinha na perna quando Nilufer entrou no quarto. Sorrindo apreensiva. — Oi Kay, bom dia, você tá bem? Se aproximou para ajudar. — Sei fazer isso de olhos fechados, é um desaforo não me pedir ajuda. Kaya sorriu sutilmente, entregando a faixa. — É claro que sabe. — Vai voltar pro curso? Nilufer estava uniformizada, começou a ajudar. — Vou, eu te disse. Quando acabar, já tenho trabalho garantido! — Depois as coisas vão melhorar, meu pai está melhorando. — Vão começar a reformar nossa casa. Yesenia entrou no quarto interrompendo. — Andem logo as duas. — Tomem café bem rápido. As duas foram juntas para a cozinha. Évora estava mexendo no celular, serviu uma xícara de chá para Kaya. — Tome logo, não está quente. — Quer geleia com torradas? — Sua irmã gosta de frutas. E você? Kaya disse que não gostava tanto, tomou rápido o chá, agradeceu e saiu comendo as torradas. Assim que entraram no carro, Nilufer começou a falar sobre a vontade de começar a estagiar, virou-se para trás olhando Kaya. — Vai me deixar dar pontos no seu próximo corte? Kaya sorriu, revirou os olhos. Respondeu. — Não vou me cortar mais, só pra não deixar isso acontecer. Não te darei, esse prazer. Nilufer sorriu irônica. — Ataaa, como se conseguisse, né? — Mãe, pode pegar mais sapatos e o meu porta-joias? Por favor? Yesenia respondeu que era para ela fazer uma lista de tudo o que queria, porque não estava fácil ficar sendo Uber e era muito incômodo pedir coisas para Évora, abu.sando da hospitalidade. Foram direto para o hospital. Yesenia precisava assinar alguns documentos para fazerem um tratamento diferente, intensivo e mais caro em Callum, e pegar muletas para Kaya. Desceram as três juntas. Nilufer disse que queria falar com o pai rapidinho. Kaya perguntou confusa, com espanto: — Ele acordou? Você não disse nada! Yesenia respondeu hostil. — Não acordou, mas vai. Logo, logo. Kaya ficou um pouco para trás com Nilufer ajudando. Yesenia entrou na frente. Logo as encontrou. Uma enfermeira foi chamar Kaya para pegar as muletas, levou-a sozinha para escolher e depois a acompanhou até o quarto de Callum. A cada passo que a aproximava de vê-lo, o nervosismo aumentava. Tentava se lembrar do que havia acontecido, pois tinha tido pesadelos horríveis, com ele. Parou perto da porta, apreensiva. Ele estava sedado, muito machucado, quase irreconhecível. Nilufer conversava, contando sobre o curso, os planos. Yesenia se aproximou de Kaya, falando baixinho: — O que foi? — Está com medo dele abrir os olhos e dizer que foi você? Kaya foi ficando emotiva, chateada. Respondeu nervosa. — Não fiz nada. — Se tivesse que fazer, teria feito há muito tempo atrás. — Por que insiste em me culpar por tudo de errado que acontece com vocês? Yesenia a puxou para sair do campo de visão de Nilufer. — Venha, você tem exames para fazer. — Duvido muito que foi abus.ada, acho que a qualquer momento vai aparecer um vídeo seu fazendo tudo por vontade própria, com várias pessoas. — Assim como aqueles boatos da escola, onde fazia bo.quete no banheiro. — E não é culpa sua? — Tudo o que dá errado com a nossa família? — Quem quebrou a perna da sua irmã e a deixou manca? Toda complexada? — Quem a fez de alvo em todas as escolas que passou? — Quem fez cada vizinho decente nos odi.ar? — Eu poderia listar tantas coisas de fato. — Não ouse chorar e me envergonhar no meu trabalho. Pararam em uma recepção. Kaya estava extremamente triste, enxugou os olhos marejados, sentindo-se acuada, com medo. Yesenia começou a falar com uma enfermeira, super simpática, e pediu para Kaya ir sentar e esperar ser chamada, porque ela ia levar Nilufer e já voltava para buscá-la.
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