Capítulo 39

1469 Words
Évora disse que Kaya não era assim e que não queria deixá-la só, porque estava com um mau pressentimento havia dias. Ele perguntou se podia fazer algo, ajudá-la com as transformações. Évora respondeu exultante: — Não dá, você precisa focar na sua namorada. Ele concordou e voltou para o chalé. Nilufer já havia levantado. Se arrumou como de costume: maquiagem leve, prendeu o cabelo em um r**o de cavalo, colocou um vestido solto, curtinho, azul-claro, de alça, e sandália rasteira. Estava distraída na cozinha, arrumando a mesa do café, batendo um bolo de chocolate à mão. Ele ficou encostado na porta, olhando-a de costas, pensando no que ia falar. Ela se virou e se assustou, sorriu sem jeito: — Rick! Bom dia, oi. Onde você foi? Ele se aproximou, olhando a mesa: — Bom dia, linda. Dormiu bem? Fui correr um pouco, não quis te acordar. Ela estava virada de lado, se aproximou com uma colher nas mãos, assoprando: — Dormi… e você? Se aproximou para dar um beijinho, mas ele se afastou sutilmente, recuando: — Não muito. Estou todo suado, fedendo. Ela ficou nitidamente frustrada, nem ofereceu a colher. Voltou para a pia de costas: — Tá. Foi ficando emotiva, com a respiração ofegante, engolindo o choro. Ele percebeu, se aproximou sério, mexendo no celular: — Acho que preciso me desculpar por ontem. O modo como agi com você. — Bebi muito, passei dos limites. Sei que isso não é legal. Deu o celular a ela: — Pode olhar, já apaguei tudo. Ignorando-o, ela continuou fazendo as coisas. Derramou algumas lágrimas sutilmente, nem olhou para o celular. Ele se viu perdido e a segurou pelo braço: — Nilufer, fala comigo. Não consigo saber o que você pensa se não falar. — Eu sei que não gostou, te machuquei, estraguei tudo. Ela se virou, emotiva: — Sabe mesmo? Quer conversar? — Não mente pra mim. Por que está agindo assim? — Me trata como prioridade, é gentil e amoroso, mas aí brinca comigo e me usa. — Não o suficiente pra ser algo… não sei o que tem de errado, mas tenho certeza que isso… Se afastou, evitando-o: — Quero ir embora! Você tá fingindo ser o que não é, e eu não entendo o porquê. Foi indo para o quarto: — Minha cabeça me diz o tempo todo que isso não é real. — Eu não costumo me enganar com as pessoas. Ele foi atrás, olhando-a como quem planejava o que dizer: — Nilufer, calma. Vamos conversar. — Não quero brincar com você. Eu me importo, e muito! — Já te pedi desculpas, não vou fazer nada daquilo de novo. Ela começou a arrumar a mala e sorriu irônica: — Conversar? Então olha nos meus olhos e diz que eu tô vendo coisa onde não tem. — Não consigo te entender. Não quero isso pra mim. Ele se aproximou, impedindo-a de mexer nas coisas: — Vai me entender no momento certo. Você não está totalmente errada. Segurou as mãos dela: — Se eu falar, vai parecer loucura. Tenho que mostrar. — Ele disse. — Tartaruga, confia em mim. Ela o olhou nos olhos, confusa: — Mostrar o quê? Você só fala coisa com coisa. — Não tô me sentindo bem. Ele se aproximou, acariciando o rosto dela. Os olhos dele foram mudando de cor, ficando dourados e brilhantes. Falou bem perto, quase beijando: — Vou te mostrar. Ele pôde sentir o que estava crescendo nela, a temperatura aumentando, o corpo mudando, como se estivesse hipnotizada e sendo conduzida. Beijou-a lentamente. Ele mesmo não sabia exatamente o que ia fazer, seguiu o instinto e se conectou a ela. Começou a mostrar o que era: flashes distorcidos da infância e juventude, os pais lhe ensinando sobre os ancestrais, sua primeira transformação e como se sentiu quando precisou escolher o melhor modo de ser, mais humano do que animal. Em instantes, mostrou quando a conheceu. Ela pôde sentir o quanto pareceu atrativa a ele, o cheiro, a aparência, tudo era real e, de algum modo, ela soube. Foi como se, se visse pelos olhos dele. Ele mostrou apenas o que lhe pareceu conveniente, para que ela entendesse que não era fingimento o que estavam vivendo. Também mostrou um pouco de suas inseguranças, especialmente tudo de r**m que sentiu desde que se revelou para ela, expondo um lado que lhe causava vergonha. Ela não hesitou nem teve medo, apenas ficou muito surpresa. Quando abriu os olhos, estavam brilhantes, iguais aos dele. Sorriu confusa, olhando-o de perto: — Eu sinto algo sobrenatural sempre que sinto seu beijo. — Por isso tem me evitado? O que acontece? Quando vai acontecer? Ele sorriu e a encheu de beijos no rosto, boca e pescoço: — Vamos descobrir juntos. Pelo que dizem, é como um casamento… estar com a pessoa certa, tão intimamente. — Causa uma ligação, um elo, algo único. — Não é só sobre se.xo. Eu te quero, e muito, mas antes disso preciso que você tenha certeza. — Você é quase igual a mim. Quando se entender, vai se surpreender com o quanto é incrível. Ela ficou séria, se afastou e foi olhar no espelho: — Também sou diferente, não é? O que eu sou? Começou a olhar as mãos e o rosto, corada, sentindo o corpo diferente, formigando. Ele se aproximou e a abraçou por trás: — Você é muito especial, e sua irmã também. — São híbridas. Não sei exatamente como, mas são diferentes, eu imagino. — Você é uma lobinha linda e também uma bruxinha maravilhosa. — Durante todo esse tempo, sua mãe fez coisas pra proteger vocês. Inibindo tudo. — Ela vai te contar tudo quando voltarmos. É uma bruxa e, por vocês, abriu mão disso. — As lendas sobre a cidade não são tão lendas assim. — É muito complexo, mas tudo vai fazendo sentido. — Minha mãe era bruxa até me ter, e abriu mão disso também. Meu pai é um lobo. Ela o olhou pelo reflexo do espelho e os olhos dela também mudaram, ficando brilhantes: — Tem algo errado comigo… como eu paro com isso? Ele a levou pela mão até a sacada do quarto: — Não tem nada errado. As primeiras vezes podem ser complexas, vai doer e dar medo. Abraçou-a por trás, acariciando seus braços: — Respira fundo e tenta sentir o que tem de diferente em você. Seus sentidos vão começar a mudar. — É bom gastar energia, como eu com meus esportes. — Pode ter dores de cabeça, irritação, muita fome por carne e umas vontades… — Desejos de viver coisas que ainda não fizemos por completo. Tem sido bem difícil me conter com você. Ela se virou de frente para ele, emotiva: — Me trouxe aqui só por isso, não é? — Queria me mostrar, longe dos outros? — Posso machucar alguém? Perder o controle? — Eu sempre soube que tinha algo diferente em mim, mas não queria acreditar. Ele a beijou sutilmente e enxugou as lágrimas do rosto quente: — Eu queria te mostrar e acompanhar tudo, porque pode ser difícil. — Você não vai me machucar. Vai ficar tudo bem. — Quando anoitecer, vou me transformar, e acredito que você também. — Estando longe isso enfraquece, mas aqui, com lobos e bruxas por perto, tudo vem à tona. — Talvez por isso vocês tenham enfrentado tantas dificuldades. Não dá pra impedir pra sempre. — Aqui as crianças já sabem o que são. Sua mãe retardou isso tempo demais. — Quando for o momento, você vai sentir. Não tem como controlar, por isso é importante não estar sozinha. Ela ficou séria, pensativa: — Então hoje é pra acontecer? — E a minha irmã? Vai passar por isso sozinha? — Ela sabe, não é? Isso explica tudo… o comportamento dela, se metendo em tantos problemas. Entrou e pegou o celular: — Preciso falar com ela. Ele se aproximou, exultante: — Ela sabe. Espera… não fale nada ainda, não sobre isso. — Sua irmã é diferente. Não sabemos o quanto. — Ela encontrou o pai no dia em que você precisou dormir na casa da minha tia. — Sua mãe tem medo de que ele influencie a Kaya de uma maneira r**m. Ele é um híbrido. Lobo, vampiro. — Ela vai querer ir ficar com ele, e nós não podemos ir. Somos diferentes, você entende? — Como cães, matilhas… cada um tem seu lugar. O pai dela é sozinho e perigoso, não pra ela, só pros outros. — Ela tem encontrado ele. Sua mãe não gostou, mas acho que não é escolha, Kaya só sente que precisa disso. Nilufer sentou na cama, olhando a conversa com Kaya: — Não vou conseguir ficar longe dela. Você não a conhece como eu. — Vamos embora, por favor. — Não consigo pensar em mais nada.
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