Capítulo 47

2224 Words
Kaya ficou séria o encarando. Monaylle disse que elas não queriam participar, ele sorriu tentando puxar assunto. — Tem medo de altura, Kaya? Tudo bem? Irritada, Kaya se afastou sem responder. Nilufer se aproximou encarando Zay. — Aqui não é tão bem frequentado, né? Foi até a irmã, Rick parou para conversar com Zay. Falou rindo. — Ignora ela, valeu por me ajudar. — Tem certeza que ela não se lembra? — Porque viu vocês e perguntou sobre a festa. Zay respondeu sério: — Não fiz por você. Ouvi ela perguntando e interrompi. — Pensa bem no que está fazendo. Não vai poder mentir para sempre. — E não adianta vir pedir favores, porque não vou fazer. Olhou na direção delas duas. — Não é certo mexer com a cabeça de ninguém dessa forma. — Ela não vai ficar bem enquanto continuar assim. Rick disse que estava tentando ajudar. Eles dois estavam ouvindo as conversas e sentindo as emoções dela, cada vez mais fortes. Nilufer estava falando sobre Kaya tirar a blusa, disse que não tinha ninguém lá além dela com manga comprida. Kaya começou se sentir envergonhada e insegura. — É… duvido que tenham cicatrizes como as minhas também. — Não quero que fiquem reparando. Você sabe, que eu não gosto de mim. Meu corpo. Nilufer respondeu hostil, incomodada: — Quem mandou cortar os pulsos? Também tenho cicatriz e não fico com drama. — Você não é o centro das atenções aqui. Goste ou não, agora é só mais uma. Kaya ficou chateada, sorriu com os olhos marejados. — Eu não tentei me matar… por que não vai lá aproveitar com seu namorado e me deixa? — Sou só mais uma mesmo. Se afastou e foi sentar mais longe. Rick se aproximou de Nilufer. — Ela quer ir embora? — Ele perguntou. Ela arqueou as sobrancelhas com ironia. — Sei lá o que ela quer, acabamos de chegar. — Às vezes acho que, na verdade, nada nunca será bom o suficiente pra ela. O abraçou, beijou sutilmente. — É só deixar ela de canto que vai ficar bem. — Por que eu odeio tanto o seu vizinho? Estavam olhando Zay pular do penhasco. Rick disse que devia ser por causa das armadilhas. Foram convidados para jogar cartas, era uma festa bem normal e animada. Tinha até competição de braço de ferro, os juízes estavam anotando pontos. De longe, observando, Kaya pôde perceber quais eram os grupos competindo uns contra os outros. Os lobos eram os mais animados, medindo forças. Nilufer e Rick pularam do penhasco. Uma das meninas foi oferecer refrigerante para Kaya, se apresentou, pareceu gentil, perguntou de qual grupo ela fazia parte. Quando ela ia responder, um rapaz se aproximou todo molhado, só de shorts, balançou a cabeça molhando elas e sorriu com graça. — Não é do nosso, pode ter certeza. — Queria me desculpar por ontem. Se abaixou na frente dela. — Não era sério. Se meus irmãos souberem que te contei, me matam. Ela ficou olhando sem entender. Perguntou. — Ontem? Ele olhou fixamente para ela, mudou os olhos de cor. — É… seu pai pediu pra te dar um empurrãozinho. — Se estivesse sozinha, talvez teria conseguido. — Que as bruxas não ouçam, mas eu as acho super intrometidas e m*l-educadas. Alguma bruxa, ou bruxo, nos afastou de você. Esticou a mão. — Sou o Kan. Estava ansioso pra te conhecer oficialmente. — Achei que talvez fosse me farejar aqui. Não sente nada ainda? Ela se levantou, não apertou a mão dele. Falou brava. — Fizeram aquilo de propósito? Porque o meu pai pediu? Ele se levantou sem jeito. Respondeu. — É… mas não íamos te machucar. Era só pra te ajudar a conseguir se trans… Ela respondeu irritada: — Não é desse tipo de ajuda que estou precisando. Você é muito babaca… todos vocês são. Empurrou ele, o derrubando sentado. — Que ódio! Ficou muito nervosa que nem prestou atenção exatamente em tudo o que ele disse. Foi até Nilufer e a chamou de canto, disse que ia voltar para o chalé. Começou ter a impressão de que estavam falando sobre ela nos grupinhos, ficou se sentindo acuada, com medo, insegura. Nilufer perguntou se não podiam ficar só mais um pouco, porque não a deixaria ir embora sozinha. Kaya estava cada vez mais agitada internamente. A noite anterior começou passar por sua cabeça como um filme, os lobos a atacando e Lorian bêbado. Respondeu sem dar muita atenção a Nilufer: — Não dá… pode ficar. Eu vou… — Nilufer, me deixa. Ia se afastar, Nilufer a segurou pelo braço, impedindo. — O que foi Kaya? Fala comigo! — Espera, e a gente já vai. — Por que toda vez você tem que transformar tudo em drama? Kaya ficou sentida, puxou o braço com força. — Você tá me machucando. — Não é drama. Como eu vou falar alguma coisa se não quer ouvir? — Fico feliz por você e sua nova realidade… mas não é a minha. — Se você soubesse… Rick se aproximou desconcertado. — É melhor te levar embora. Eles podem sentir… você não tá bem. — Nilufer, vamos. Aqui tem muita gente. Kaya disse que podia ir embora sozinha. A verdade é que ela queria ir tirar satisfação com Lorian. Completamente frustrada, Nilufer disse que só ia se despedir do pessoal. Rick foi junto e pediu para Kaya esperar no carro. Kaya foi indo sozinha, encostou atrás do carro quase escondida, de cabeça baixa, cobrindo o rosto com o braço. Se sentiu mais decepcionada ainda com o pai. Zay estava de saída, passou por ela sentindo sua tristeza. Tentou se aproximar, com pena. — Dia difícil? Tudo bem? Ela levantou a cabeça, engolindo o choro. — Uma vida toda. Difícil. — Mas não é da sua conta. Ele ficou parado a encarando fixamente, sério. — Não mesmo… tem razão. Espero que tudo se resolva. — Se algum dia, precisar conversar ou qualquer coisa. Pode me procurar. Foi indo para a moto, ela ficou olhando, reparando, no corpo dele, sarado, ele estava de shorts sem camisa. Ele foi embora querendo fazer algo, era ele, quem estava a protegendo a semanas. Rick pediu para Nilufer ter paciência, super descontente, ela foi entrando no carro dizendo que ia cozinhar para eles. Kaya ficou quieta o trajeto todo. Quando chegaram no chalé, desceu do carro rápido, foi direto para o quarto, fechou a porta e sentou no chão. Estava com as mesmas sensações de quando era taxada como esquizofrênica. Com medo de si e dos outros, não queria ficar perto de ninguém. Começou desenhar no caderno atrás das folhas já ocupadas na frente, porque não tinham mais folhas limpas. Os primeiros desenhos foram lobos diferentes, Lorian preto, o marrom, os da noite anterior, depois natureza, flores e árvores. Já havia passado mais de uma hora. Nilufer estava arrumando as coisas na cozinha, também irritada, nem quis ficar conversando com Rick. Ele estava pensando no que fazer, começou ter medo de Kaya se lembrar do que aconteceu entre eles. Quando o almoço ficou pronto, Nilufer foi ao quarto, bateu e entrou. — Vem comer… podemos ir no rio depois, só a gente. Kaya balançou a cabeça que não, nem olhou para a irmã, estava parecendo histérica, nervosa, desenhando rápido. Nilufer não disse nada e desceu. Foi sentar na mesa do quintal com Rick. — Ela não quer comer… o que a gente faz? — Ela falou. Ele começou a se servir, exultante. — Ahhhh, dá um tempo, deixa ela. — Vamos comer e jogar… xadrez ou cartas? Ela disse que os dois. Almoçaram juntos, rindo das histórias sobre as amizades dele, ela estava super curiosa com todos. Depois foram ficar na sala, jogaram várias vezes, deitaram abraçados no sofá-cama à tarde. Kaya estava com fome e sede, muita dor de cabeça, desceu sorrateiramente sem saber onde estavam, os viu abraçados dormindo e aproveitou a oportunidade para sair de lá. Foi andando até a beira do rio, comendo um bolo e frutas. Deitou embaixo de uma árvore pensando no quanto tudo iria mudar, sua maior preocupação era a irmã, na verdade, e o medo de a perder. Acabou pegando no sono e começou sonhar com a mata. Já de início percebeu que tinha algo diferente com a visão e os sentidos. Estava sol e quente no sonho também, ao chegar na beirada da água pôde ver seu reflexo. A primeira reação foi encostar sutilmente o focinho e tentar beber. Tudo estava calmo, muito tranquilo, sem sentimentos fortes, emoções confusas, medo ou dor, era só o momento acontecendo e parecia muito real. Uma sombra se aproximou lentamente, acompanhada de um cheiro conhecido. Ela pôde ver pelo reflexo, reconheceu o lobo marrom dos sonhos. Se afastou entrando na água devagar, ele choramingou se aproximando, chegou mais perto se esfregando nela. Sem nem entender como, ela soube exatamente o que fazer, correspondeu ao carinho e logo começou brincar. O mordeu sutilmente. Ela tentou falar algo, disse que estava com saudades, perguntou o nome dele, onde morava, sem obter resposta, achou graça de si, porque estava achando que, de alguma forma, poderiam se comunicar, como Lorian fez com ela. Começaram a brincar e correr. Logo a brincadeira não estava tão saudável ou amigável, ainda que com dor, levando a pior, ela não hesitou. Correu até não aguentar mais e venceu ele em uma corrida. Exaustos, deitaram próximos trocando carinho. Ainda achando que ele não fosse entender, ela começou falar “mentalmente”. — Obrigada por continuar voltando… se eu pudesse viveria só essa vida aqui. — Queria saber se é real… quem sabe não pode me encontrar fora dos meus sonhos também? — Será que vou saber quando te ver? Ele latiu uma vez, que significava sim. Começou lamber trocando carinho, ela ficou feliz por não estar só. Permaneceu encostada nele, disse que queria o encontrar daquele jeito todas as próximas vezes. Já estava escurecendo. Nilufer levantou e saiu procurar Kaya. A encontrou dormindo no mato, se abaixou e acariciou sutilmente. — Acorda… vamos entrar. Vou fazer um bolo pra você! Inicialmente Kaya despertou sorrindo, depois foi ficando séria. — Oi… o que houve? Nilufer sorriu a ajudando levantar. — Nada, eu acho. Vamos entrar! — Desculpa por ter sido grossa com você na festa… só queria te entender. — Quero que a gente volte a ser como antes. Sei que não faz as coisas de propósito… pelo menos a maioria. — Quando nos perdemos ao ponto de parecermos duas estranhas? Estavam caminhando de volta ao chalé. Kaya respondeu séria. — Foi de propósito, e você sabe. Às vezes mente tanto que até acredita. — Não sei o que vai acontecer daqui pra frente… mas tenho medo de mim. Nilufer sorriu irônica. Respondeu. — Vai ver aprendi com você a mentir tão bem. — Sei que não queria me machucar, foi um acidente. Hoje isso nem importa… a Nilufer não está mais limitada a nada. Kaya sorriu chateada. Falou triste. — Sempre vai importar… eles não esquecem nunca. Se eu pudesse voltaria naquele dia e faria tudo diferente. — Nunca vou me perdoar por ter machucado você. Nilufer foi andando de costas, em tom de brincadeira. — Mas eu já te perdoei há muito tempo. Vai ver surtou e acha que é culpada de algo… coitadinha dela, se culpa pelo que não fez. — Nunca vou contar a ninguém. Acho que eles mudaram porque você mudou. — Não foi me ver no hospital nenhuma vez e depois… bom, virou outra pessoa. — Sinto falta de quem você era antes disso. Também me sinto m*l, só que porque me deixou de canto. — Eu nunca me afastaria porque a mãe mandou ou sei lá… você não acredita, né, que eu não contei? Chegaram no chalé. Kaya respondeu encarando a jacuzzi fixamente. — Você não tem nada melhor pra fazer… do que terapia comigo? Nilufer mudou os olhos, se abaixou e jogou um pouco de água nela. — Vou ficar ofendida… não quer a minha companhia? — Está sentindo algo? Eu sinto… vai aumentando como um som, um chamado, não sei explicar. Sentou com os pés na água, esticou a mão. — Tenta… vem aqui, me dá a mão. Não vou morder! — Ah, para de ter medo. Se eu consigo, você também pode. — Aposto que andou fazendo várias coisas com aquele homem… vai, me conta tudo. — Como o encontrou? Ele te ajudou a virar alguma coisa? Kaya sentou ao lado, segurou a mão dela, entrelaçando. — Só sinto dores de cabeça… o que sabe sobre ele? O Lorian? Nilufer se deitou olhando o céu. — Sei que abandonou vocês e nunca quis ser seu pai. Não sei muito mais do que você. — Mas tenho certeza que ele não presta. Se a mãe quisesse contar mentiras sobre ele, teria feito isso antes. — O silêncio dela diz muito… lembra como ela odiou saber que iria voltar pra cá? — Tem muitas coisas que eu também não entendo, principalmente sobre o meu pai. Se sentou séria. — Promete que não vai deixar ele afastar a gente? — Não somos mais crianças e agora tudo vai mudar. Ninguém vai te obrigar a fazer nada. — Você não pode ficar vendo ele… não é real. Nós somos a sua família, ainda que muito falha.
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