Capítulo 49

1681 Words
Rick se aproximou rápido, entrando no meio, pediu para Nilufer se acalmar. Ela saiu para o quintal chorando nervosa, disse que estava tentando ajudar, dar o seu melhor, não conseguiu manter o controle sobre si e se transformou. Kaya também ficou nervosa, começou chorar. Rick estava no meio das duas, pediu para ela se afastar. Cada vez mais indisposta, com o corpo se alterando, Kaya foi desfalecendo, pedindo ajuda, e desmaiou na cozinha. Ele se aproximou confuso, a pegou no colo e levou para a sala. Nilufer se aproximou a lambendo, ele chamou atenção de forma hostil, a afastou. — Vai pra fora, você não está ajudando. — Machucou ela! Também confusa e assustada, Nilufer foi saindo choramingando, precisava se acalmar para voltar à forma humana. Ele mesmo não sabia o que fazer, ficou sentado na beirada do sofá olhando Kaya, sentindo como se estivesse desligada, e cada vez mais quente. Começou a se preocupar. Quase uma hora depois, quando ia ligar para Évora, Nilufer voltou preocupada, entrou pedindo desculpas. Ele se levantou. — Não é pra mim que precisa pedir. — Vou colocar ela na jacuzzi, liga pra minha mãe. Foi saindo com Kaya no colo, entrou junto na água a segurando. Nilufer saiu também, disse que não podiam ligar, porque Yesenia ia se meter. Ele ficou quieto alguns instantes, colocou a mão no peito de Kaya, em cima do coração. — Acho que ela está voltando… quer mesmo se desculpar ou é da boca pra fora? — Se tentar entrar na cabeça dela mentindo, ela vai sentir. — Tem que ser sincera. Quer tentar? Nilufer foi entrando também. — Não sou mentirosa. Você não sabe de nada… tudo o que já fiz por ela! Ele estava sentado com Kaya no meio de suas pernas, disse que Nilufer ia sentir como fazer aquilo, que era para se desculpar, mostrar o quanto queria ajudar. Ela se ajoelhou próxima, segurou as mãos de Kaya e fechou os olhos, tentou se acalmar e a sentir. Foi pensando em coisas boas que viveram juntas, desde a infância, tudo o que gostava na irmã, como tinha medo de a perder. Sem querer, acabou mostrando o quanto vivia decepcionada e cansada com os problemas que tinham. Rick estava sentindo o coração e a respiração de Kaya atento, disse que estava funcionando. Nilufer abriu os olhos e a abraçou forte. — Me desculpa por sempre perder a cabeça com você… prometo que vou melhorar. — Nada nem ninguém vai mudar o amor que temos uma pela outra. Kaya foi despertando, estava conectada, vendo e sentindo tudo de um modo que Nilufer não poderia mentir nem esconder o quanto no fundo estava brava. Ela correspondeu ao abraço, fez o mesmo, mostrando o quanto se sentia culpada e cansada de ser um problema. Pôde também mostrar o quanto amava e admirava Nilufer. Rick se afastou, as soltando, teve medo de ser descoberto. As duas se olharam com os olhos brilhantes, sorriram espontaneamente. Nilufer se afastou, indo sentar encostada na borda. — Vem, vou cuidar de você. Sem dizer nada, Kaya se aproximou e sentou próxima. Nilufer a abraçou, fazendo carinho, falou. — Eu não ligo pro que você pode ou não ser… desde que para sempre seja minha irmã. Kaya ficou cabisbaixa, envergonhada, falou constrangida. — Me desculpa por sempre tornar tudo mais difícil. — Eu só queria ser boa o suficiente pra vocês. Rick foi saindo da jacuzzi. — Eu já volto… se comportem. Nilufer disse que não ia prometer. Ao ficarem a sós, começou falar que não estava se vendendo e até se ofendia com isso, porque não era assim. Kaya interrompeu, sentida: — Não foi o que eu quis dizer… eu fico preocupada e não entendo. — É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. — Só quero o seu bem… sempre fomos nós duas contra o mundo. Nilufer ficou mexida. — E ainda seremos. Ninguém vai te obrigar a nada, a nossa mãe perdeu o poder sobre nós. — Agora é a nossa vida e escolhas. Se ela não concordar, não vai ter espaço. — Amanhã ela vai ter que contar tudo. Rick passou perto, foi arrumando a mesa de fora, disse que queria ver as duas comendo. Nilufer saiu e foi pegar a caixa de curativos. Ele deu um roupão para Kaya, foi ajudando a colocar. Falou gentilmente. — Ela também está passando por um momento de transição. É comum que sintam raiva e até briguem. — Depois isso melhora… você vai entender quando acontecer. — A não ser que não queira. Ela foi sentar na mesa olhando o corte na mão. — Obrigada… como foi com você? Ele começou fazer os pratos deles, sorriu pensativo. — Ahhhh… dolorido e confuso, digo mentalmente. — Não foi tão r**m. Eu era novo, meio menino. — Por aqui as crianças já sabem o que são, aprendemos tudo com as nossas famílias, temos amigos parecidos. Nilufer sentou à mesa, começou fazer o curativo em Kaya. — Nós não sabemos nada… a nossa vida toda foi uma grande mentira. — Nilufer disse. Kaya sorriu sutilmente, respondeu. — Nós somos reais. Me deixou te sentir… eu nunca te vi dessa forma. — Posso ter descoberto seus segredos. Nilufer sorriu limpando o ferimento, fazendo arder. — E eu os seus. No fundo, sempre soube que tinha perdido o meu anel de quinze anos. — Como pode negar tanto? Kaya recuou a mão, disse que não lembrava de ter perdido e se desculpou. Nilufer a puxou para continuar. — Não duvido que tenha esquecido, já que não foi você. — Disse rindo com malícia. — Às vezes me subestima demais… a Nilufer é tão certinha, né? — Eu vendi, o anel, mas realmente você pegou, estava jogado nas suas coisas. — Sabe o quanto eu odeio que mexa nas minhas. — De qualquer forma, você perderia. Kaya ficou olhando, desacreditada. — É sério isso? Eu fiquei sem mesada por meses, pagando aquela porcaria. Nilufer começou a rir. — É… e eu te dei quase toda a minha, para compensar. — Se não tivesse pego sem pedir, isso não teria acontecido. Começou a comer, ofereceu uma garfada na boca de Kaya. — Ahhhh, vai ficar chateada? — Está vendo por que eu nunca te conto nada? — Só você pode errar, né? Kaya recusou a garfada, começou a comer sozinha, pensativa. Rick estava reparando nas duas, começou a contar como foi sua primeira transformação, passou o jantar todo falando muito, ainda que prestando atenção nelas. Kaya se calou, estava pensando nas coisas ruins que sentiu ao ter emoções trocadas com a irmã, refletindo o quanto Nilufer estava brava e chateada na maior parte do tempo, sempre escondendo isso, como se tivesse um escudo. Rick estava percebendo o quanto Kaya estava mudando, repleta de tristeza e arrependimento, queria ajudar e já não sabia mais como. Sugeriu que fossem nadar no rio ou jogar xadrez, talvez correr, ofereceu um drink. Ela apenas agradeceu a tudo e balançou a cabeça que não. Quando levantou para tirar o prato da mesa e foi à cozinha, ele disse baixinho que provavelmente não ia acontecer, porque já estava tarde. Nilufer perguntou como ele podia não ser tão influenciado pela lua e tudo mais. Ele se levantou rindo, mudou os olhos. — Tenho experiência, né… já pensou se eu fosse sair latindo, uivando a cada lua cheia? Ele estava entrando na cozinha, Kaya estava encostada na bancada. Viu os olhos dele e ficou surpresa, em segundos ele desviou o olhar, evitando-a, pois estava se sentindo muito atraído, e teve medo dela se lembrar. — Ainda falta a sobremesa… gosta de brigadeiro? — Ele perguntou. Ela ficou o encarando fixamente, perguntou sem jeito: — Pode fazer de novo… os olhos? Ele sorriu, apreensivo, encostou ao lado dela lavando uma panela. — Quer tentar você? — Os meus, ficam dourados… os seus não. Olhou-a nos olhos, ela sorriu espontaneamente, admirando. — Eu não consigo… você gosta, não é? De ser você? Ele ficou constrangido, sentindo-a em eufórica, parou de olhar. — É… quase sempre. E você? Gosta de ser quem é? Ela sorriu sem jeito. — Acho que não… tipo, nunca. Nilufer entrou na cozinha, perguntou se realmente não queriam ir nadar no rio. Foi sentando na bancada. Kaya disse que queria ir deitar, brincou disfarçando o quanto estava chateada. — Não vou virar abóbora ou c****a… nada de nada. Não foi dessa vez. — Estou meio indisposta… preciso dormir. Nilufer não precisa ficar de babá. Nilufer esticou a mão, puxou-a para perto. — Tem certeza que quer ir deitar? Posso dormir com você. — Não vai esperar a gente dormir e sair escondida, né? Kaya disse que não, beijou-a, abraçou e saiu dando boa noite para os dois. Foi direto ao banheiro e começou a vomitar, até ficar fraca, sem aguentar com o próprio corpo. Rick pediu para Nilufer subir para ver como ela estava, enquanto ele limpava a cozinha. Ela disse que ia esperar no quarto, quando foi verificar a irmã, ouviu o chuveiro ligado. Bateu na porta perguntando se estava tudo bem, ofereceu ajuda, Kaya gritou dizendo que estava bem. Nilufer até tentou abrir, mas a porta estava trancada. Foi para seu quarto e entrou tomar banho. Quando saiu do banheiro, Rick entrou, perguntou como Kaya estava. Ela disse que a irmã queria ficar sozinha. Maliciosa, se arrumou para Rick, colocou uma calcinha de renda pink com babados ao lado, ficou no meio da cama esperando de joelhos, cobrindo os se.ios com o cabelo. Quando ele saiu do banheiro, começou a rir. Aproximou-se enrolado na toalha. — Acho que vou ganhar sobremesa. — Será que mereço mesmo… tudo isso? Ela se aproximou na beirada da cama, foi tirando a toalha dele. — Não sei… e eu mereço? Começou a beijar lentamente, ele estava sentindo Kaya perto, exalando tristeza e medo. Começou a ouvi-la chorar baixinho, foi ficando difícil ignorar. Já quase perdendo o clima, ele afastou Nilufer, puxando-a pelo cabelo para levantar. — Tartaruga… precisamos conversar. — Você não tem mais dúvidas… sobre nós? — Agora confia em mim?
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