Capítulo 17

1929 Words
Évora se aproximou apreensiva, indo em direção à porta. — Calma amiga, nós vamos pensar em um modo de mantê-la segura. — Pense na nossa proposta, elas não precisam saber dos detalhes e também… eu os vi. — Foi uma previsão bem clara, só precisamos deixá-los viver e tudo vai acontecer. — Esse acidente com a armadilha pode chamar a atenção de outros clãs, as bruxas que nos od.eiam, no hospital já estão com fofocas. — Vamos cuidar dela aqui e mantê-la sedada, só nos primeiros dias. Tenho receitas, chás, tudo para lobos. Ela vai ficar bem, aqui. — Vou eu mesma cuidar de tudo, tenho alguém de confiança que pode nos ajudar com a inibição dela. — Até vermos como iremos conduzir isso, deixe-a aqui, nada vai acontecer. Yesenia saiu do escritório dizendo que precisava pensar. Rick estava na sala, sentado. Nilufer estava no quarto com a irmã, vigiando-a dormir. Ele perguntou se precisavam de mais alguma coisa, pois iria embora. Évora agradeceu e pediu que ele desse um tempo a elas. Para não parecer desesperado. Ele foi se despedir, bateu na porta do quarto. Nilufer abriu com aquele olhar triste, arrependido. O abraçou forte, dizendo que deveria estar cuidando da irmã. Enquanto a abraçava com palavras de conforto, ele olhou Kaya na cama e sentiu exatamente o mesmo: culpa, remorso, pena, uma sensação de incompetência que odiava sentir, já que gostava de ser bom em tudo. Pensando nisso, agiu seguindo seus instintos. Se afastou, acariciando o rosto de Nilufer. — Vamos cuidar dela, vocês não estão sozinhas.— Ele disse com um olhar intenso. — Vou precisar viajar e, dessa vez, demorar um pouco, semanas. — Quando voltar, vamos fazer algo legal, com ela junto. — Talvez viajar, ir a festas. — Sempre é bom fazer novas amizades quando a gente se sente incompreendido. Vamos deixá-la bem, aqui. Nilufer sorriu, surpresa. Disse curiosa. — É? Já se sentiu assim, incompreendido? Com um sorriso irônico, ele respondeu que mais vezes do que poderia se lembrar. Pediu para ela se acalmar, disse que tudo mudaria, e muito. A beijou e foi embora, com o pensamento em Kaya, tentando encontrar um jeito de ajudá-la. Algo nela, mexia profundamente com ele, e ele quis acreditar, que era só atração física. Sem muitas opções, com receio de estragar tudo e ser pego mentindo, decidiu pedir ajuda à única pessoa que poderia fazer algo sem expô-lo aos pais. Zay além de vizinho, era um ex-melhor amigo de infância, dotado de poderes que Rick não possuía. Ele não gostava de usá-los à toa. Metódico, era mais humano do que qualquer outra coisa, carregando isso dentro de si. Gostava, de ser "normal", e por isso, nunca foi alvo de ninguém. Rick ligou para marcar um encontro e o surpreendeu. Há muitos anos não se falavam tão diretamente, mesmo com amizades em comum e encontros ocasionais pela cidade. Eles romperam a amizade. Extremamente curioso, Zay aceitou, certo de que o assunto seriam as novas visitantes. Combinaram de se encontrar cedo, no dia seguinte, no lago. Nilufer foi ao encontro da mãe no quarto e pediu que não mandasse a irmã para longe. Yesenia, como sempre sabia manipular as filhas, aproveitou para impor exigências. — Você deixa ela te desestabilizar sempre. — Ela disse a filha. — Vai se manter forte nos seus propósitos com ela aqui? — Não temos condições financeiras para nada, Nilufer. — Achei que vocês iam estudar e trabalhar. Ela interrompeu, chateada. — Mas eu vou, prometo não perder o foco. — Disse Nilufer. — Deixa eu conversar com ela, sei que não quer ir embora, não sozinha. Yesenia arqueou as sobrancelhas com cinismo. Perguntou. — Sabe mesmo? — É o que você não faria, filha, e ela não é você. — Vamos mantê-la sedada até amanhã. — O vizinho prestativo medicou o suficiente para essa perna não doer tão cedo. — Vá arrumar suas coisas, vamos sair bem cedo. — Você precisa terminar o curso. — Também acho bom ficar com seu pai no hospital um pouco. Nilufer se sentou próxima e a abraçou afetuosa. — Tá bom, vou fazer isso. — Obrigada por não desistir dela. — Sei o quanto é cansativo se preocupar e cuidar de tudo. Yesenia a colocou deitada, com a cabeça em seu colo, acariciando seus cabelos. — Sabe por que sinto o mesmo? — Disse Yesenia. — Sem você eu já teria desistido de tudo. — Nunca vou me esquecer do dia em que você nasceu, como um sol na minha vida. — Quer me contar o que anda te fazendo brilhar mais que o normal? — Passeio noturno, flores, convites românticos? Envergonhada, Nilufer disse que estava confusa, que era tudo demais e que não sabia como parar. Yesenia sorriu, e perguntou curiosa. — Parar? — Qual é o problema dessa vez? Sem jeito, Nilufer se sentou, respondeu. — Eu, né mãe… claro que gostei dele, mas não imaginava assim. — Tão sério e comprometido, isso é estranho. — Achei que iríamos só conversar e fazer amizade. Yesenia a interrompeu, puxando-a para deitar novamente. — E fizeram o quê além disso, menina? Nilufer riu. — Nada demais… — Só não acho que vou conseguir acompanhá-lo. — Minha irmã tem razão, na verdade. Ficou chateada. Continuou desabafando. — Hoje ela disse que não temos nada a ver e que ele vai me usar. — Ela tem medo de que eu me machuque, me vê como a menininha frágil de sempre. — Às vezes acho que sou mesmo. Yesenia respirou fundo, continuou acariciando seus cabelos. Falando afetuosa. — Querida, você não é frágil. — Sei o quanto é forte e capaz de fazer o que quer. — Por que não aproveita esse momento m.aluco que estamos vivendo e fica m.aluca também? — Só não saia por aí cometendo crimes. — Sou sua mãe e não é fácil ser melhor amiga, mas vou te dar um conselho. — Não dê ouvidos a ninguém, siga apenas seu coração. — Na sua idade eu já era mãe e não tive um romance assim. — Acho que o Rick tem feito bem a você. — Desde que ele te respeite e te trate como a preciosidade que é, não vejo problema em tentar. — Sente borboletas no estômago? Emocionada, Nilufer riu, enxugando os olhos marejados. — Sinto formigas pelo corpo todo. — Ele me respeita, é engraçado, gentil. — Me sinto à vontade perto dele, como se já nos conhecêssemos… quem sabe de outras vidas. — Acho fofo, o fato da Évora, ter falado que ele, iria ser seu genro um dia, desde nossa infância. Yesenia disse que não duvidava. Ficou ouvindo tudo sobre os dois. Não tocou no assunto mais temido por Nilufer, virg.indade. Foram dormir tarde, depois de conversarem muito. Durante a madrugada, Yesenia colocou seu plano em prática. Aproveitando que Kaya estava sedada, usou um objeto de magia n***a que a impediria de ser usada como plano B. Doloroso, como um ato de tortura, fez até o corpo dela reagir aos estímulos, mesmo inconsciente. Ela estava a m.altratando, impedindo de gerar um bebê para Évora e Otelo. No dia seguinte, bem cedo, depois de um plantão noturno, Zay que era médico, foi encontrar Rick. Desceu do carro com um sorriso de superioridade, segurando um copo de café. — Bom diaaaa. — Dormiu aqui? — Deve estar realmente aflito para acordar cedo e me encontrar. — Disse Zay. Rick estava sentado no porta-malas, com a expressão fechada. Respondeu. — Bom dia. — Não tive muitas opções. — E você me deve uma há muito, muito tempo. Zay ficou sério. Falou incomodado. — Vá direto ao assunto. — O que você quer comigo? Rick se levantou, foi fechando o porta-malas. — Quero apagar memórias. — Minha mãe não pode ajudar, não precisa saber. Estendeu a mão. — São poucas. — Nada grave. — Ela precisa esquecer. Vou te mostrar tudo. Zay se aproximou, perguntou intrigado. — Fez algo errado com sua namorada? Segurou a mão dele. — Não sei se posso ajudar. — Não faço isso há muito tempo. Eu não devo mais nada, a ninguém. Rick o encarou, pensando no que queria apagar da mente de Kaya. Respondeu já esperando as críticas. — Dispenso seus julgamentos, Zay! Rick começou a sentir dores fortes na cabeça e caiu de joelhos. Zay viu tudo: Kaya dançando na festa, andando no labirinto, nadando, cenas íntimas com Rick, flashes das memórias dele. Em seguida, mostrou a conversa em que foi rude e a ameaçou. Rick soltou a mão de Zay, levantou irritado. — Não deveria doer assim. — Você não muda. Zay sorriu, irônico, respondeu. — Não doeria se sua cabeça não resistisse tanto, ao feitiço. — Como vou chegar até ela? Não a quero, no meu quintal. Rick foi para o carro. — Não sei por quê, mas minha mãe confia em você. — Diga que Kaya viu algo na sua casa e peça para ajudá-la. — Ela não faz ideia do que é. — A mãe inibe tudo por medo. A enfeitiçou desde criança, está evitando o inevitável. — Hoje a casa estará livre. — Faça uma visita médica. Cordial. Entrou no carro. — Posso confiar em você? Isso, é muito importante. Eu não sabia, quem ela era. — Minha cunhada. Zay se aproximou sério. Falou intrigado. — Não tenho opção. — Você está cobrando uma dívida. — Vou apagar e só. — Minha família não pode saber. Rick concordou, agradeceu e foi embora apreensivo. Zay seguiu direto para a fazenda. Yesenia e Nilufer já haviam saído. Évora estava lendo quando atendeu a ligação e o deixou entrar. Ele disse que queria ver as feridas, garantir que o antídoto funcionaria, pois a armadilha estava envenenada. Inventou uma história sobre a irmã ser extremista e disse não concordar com aquilo. Évora o levou até o quarto de Kaya, lamentando os afastamentos dele e de Rick, pedindo desculpas pela invasão das terras. Quando chegaram à porta, ouviram um barulho alto vindo de dentro. Évora entrou às pressas. — Cuidado, ela deveria estar sedada! Pode querer nos atacar. O quarto estava vazio e bagunçado. Foram ao banheiro. Kaya estava caída, desmaiada, como se tivesse tido uma convulsão, com a cabeça machucada por ter batido no box. Eles a socorreram. Zay tocou nela. — A febre está alta. Ela quer se transformar, o corpo dela, quer. Pediu toalhas e a bolsa do carro. Évora correu buscar. Ele colocou a mão no rosto e na nuca de Kaya, foi apagando as memórias como pedido. Sentiu a dor atravessar o corpo dela, viu-a se contorcer como se estivesse sendo torturada, ele não entendeu qual era o problema dela, mas sentiu magia n***a. Ao terminar, pediu desculpas, acariciando o rosto dela, colocou o cabelo para trás. — Vai ficar tudo bem. — Ele disse baixinho. Por segundos, Kaya abriu os olhos desesperada, segurou a mão dele como quem pedia socorro, começou a sufocar, como se alguém a estivesse enforcando. Évora voltou nervosa. Zay pegou uma injeção e aplicou em Kaya. — Não sei o que está acontecendo. — Tem algo errado, com ela. Ela desmaiou novamente. Foi desfalecendo nos braços dele. — Nunca vi algo assim. — Ele disse intrigado. — Pode ser reação ao veneno da armadilha. — Precisamos baixar a temperatura. — Ou ela vai se transformar, ficar fora de si. — Precisamos colocá-la na água. Évora abriu a porta que dava para a varanda. Foi saindo desesperada. — Coloque-a na jacuzzi. — Vem comigo. — Ela não vai conseguir se controlar. — Isso não pode acontecer.
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