Estava indo de encontro também, devagar. Parou de sentir medo por alguns instantes, até que o viu sair das sombras com os olhos brilhando vermelhos. Ele era preto e enorme. Não estava fazendo nada além de olhá-la fixamente. No susto, ela parou, se sentindo ameaçada, perdeu a fala. Ele sentiu o medo dela, parou a alguns passos, se deitou e não fez mais nada.
Ela olhou para trás, pensando em correr. Ficou mais de cinco minutos sem saber o que fazer. Quando decidiu sair dali, porque com certeza aquilo não era um sonho, deu um passo para trás apreensiva. Ele se levantou de imediato e a assustou. Ela caiu sentada. Ele voltou a se deitar, mais perto, olhando-a. Ela não sabia o que pensar, mas foi perdendo o medo.
— Você me conhece, não é? — Falou sentindo que já o conhecia.
— Espero que não seja a esposa loba de ninguém.
— Vai me atacar?
Ele choramingou, se mostrando completamente calmo. Ela continuou sentada, de pernas cruzadas, o admirando sentindo o cheiro forte dele, era uma mistura com terra e que ela achou muito familiar.
— O que querem me mostrar?
— Andei pensando e talvez seja algo relacionado àquela armadilha idi.ota.
— Acho que querem a minha ajuda.
— Esses vizinhos não prestam, não é?
— Estão perseguindo sua alcateia? Matando vocês?
— Como vou entender o que quer me mostrar?
Ele se mexeu andando deitado, pouco a pouco indo mais perto, como quem não queria assustá-la de novo. Ela esticou a mão, tremendo, apreensiva.
— Tudo bem, podemos ser amigos.
— Não vou te machucar e, nem se quisesse, poderia.
Começou a acariciar a cabeça dele.
— Porque, olha o seu tamanho… você é tão lindo… ou linda.
— Isso não deve ser real. O que quer me mostrar?
Ele chegou mais perto, a olhou nos olhos e se conectou a ela em segundos. Kaya fechou os olhos e começou a ver flashes de imagens distorcidas: uma casa simples no sítio, crianças brincando no quintal, nadando no rio, brigando também, como bons irmãos. Pareciam lembranças de muitos anos atrás. Ela podia sentir exatamente o que ele sentiu quando viveu aquilo.
Uma das crianças se destacava por ser a mais brava, batendo e apanhando sempre. Quando a mãe deles apareceu, de vestido florido longo, gritando e chamando por Lorian, Kaya se assustou ao vê-la. Ela parecia muito consigo mesma, só que com os cabelos muito compridos, mais escuros e estava grávida.
Foi Kaya quem se afastou confusa, parou de fazer carinho. Ele esfregou a cabeça no braço dela, querendo se aproximar. Ela ficou emotiva, confusa.
— Não é real… eu devia saber.
Se levantou rápido e foi em direção à cerca. Ele permaneceu onde estava, olhando até ela sumir de sua vista.
Évora estava à sua procura, chamando no quintal. Sorriu ao vê-la saindo de trás da estufa.
— Menina, quer me matar do coração?
— Eu jurando pra sua mãe que você é uma mocinha comportada, pra ficar sozinha aqui.
— Achei que tinha fugido.
Percebeu que Kaya estava pálida, enxugando os olhos marejados.
— O que foi? Kaya, o que aconteceu? Você está bem?
Ela se aproximou sem jeito, constrangida, abraçou Évora e começou a chorar, sentida.
— Estou com medo. — Disse sentindo a presença do lobo, perto demais.
— Eu preciso de ajuda.
Évora a levou para dentro, assustada.
— Calma, vou te ajudar. — Disse Évora com pena dela.
— O que aconteceu?
— Está com medo de quê?
— Alguém te fez alguma coisa?
— Veio alguém aqui?
Kaya entrou, fechando e trancando as portas.
— De mim mesma. — Respondeu Kaya nervosa.
— Preciso dos meus remédios, olha só, escuta.
Começou a espiar o quintal pela janela.
— Minha mãe tem razão na maioria das coisas ruins que fala de mim.
Saiu fechando tudo, como quem temia algo lá fora.
— Eu não vou conseguir.
— As coisas ruins acontecem quando eu não tomo.
Confusa, histérica, saiu verificando as trancas das janelas.
— Sei que sou um problema pra elas.
— Você não me conhece, não sabe do que sou capaz.
— É melhor ficar longe de mim também.
— Eu vejo e ouço coisas que não existem.
Se aproximou de Évora, assustando-a.
— Vai pro seu quarto.
— Posso te machucar sem querer.
— Tem algo errado comigo, fica longe de mim.
Preocupada, Évora olhava sem saber o que fazer. Começou a chorar, tentando ajudar.
— Calma, não vai acontecer nada. — Disse Évora nervosa.
— Você não vai me machucar.
— Tudo bem, eu confio em você.
— O que você viu ou ouviu?
Kaya praticamente a empurrou para fora do quarto. Falou alterada, nervosa.
— Por favor, não fica perto de mim.
— Fecha a porta!
Ela estava muito quente, desorientada. Foi para o quarto da mãe, começou a revirar tudo procurando os remédios, falando baixinho, para si mesma.
— Não é real… isso não é nada.
— Vou embora daqui.
Foi desfalecendo com uma enxaqueca forte, quase caiu escorada na cômoda.
— Preciso sair daqui.
Évora, assustada, parada na porta do quarto, temia que ela se transformasse. Ligou para Zay e falou claramente que ia acontecer. Pediu ajuda. Ele aconselhou que se afastasse para não ser atacada e foi para lá às pressas.
Évora trancou Kaya no quarto. Ela revirava tudo procurando os remédios, falando sozinha, repetindo que não era real, pedindo para aquilo parar. Estava ouvindo uma voz masculina que pedia para ela se acalmar, sair dali, porque tudo mudaria e faria sentido.
Lorian também estava preocupado. Não aguentou e foi até a casa. Arranhou a porta do quarto dela pela varanda. Kaya sentia o cheiro dele, a presença, e ficava cada vez mais assustada, certa de que estava alucinando. O corpo todo doía, formigava, como se levasse milhares de agulhadas.
Decidiu abrir a porta, agindo por instinto. Ao vê-lo e perceber que a voz vinha dele, novamente a chamando para sair dali, ficou ainda mais confusa e desmaiou.
Em segundos, ele se transformou, voltando à forma humana, a pegou no colo e saiu correndo mata adentro.
Évora estava no corredor, em pânico. Achou que Kaya tivesse se transformado. Zay chegou e sentiu o cheiro de Lorian. Teve certeza de que ele a levou. Mesmo com receio de ele não ser confiável, preferiu não ir atrás nem contar o que sabia.
Desesperada, Évora abriu a porta perguntando o que iriam fazer. Zay olhou a bagunça do quarto, pensativo.
— Não ficar no caminho dela é a primeira coisa. — Disse ele exultante.
— Se fugir é um hábito, diga que ela fez isso.
— Deve voltar até o amanhecer.
— Se não lembrar do que aconteceu, temos um problema.
— Mas se estiver consciente, essa parte difícil da transição vai ficar para trás.
— Ela precisa saber da verdade.
— O subconsciente dela vai destruir tudo até que esteja como deveria ser. É a natureza dela.
— Ela não acredita em si mesma, tem medo pelos outros.
— Não vai poder ser parte da sua matilha nunca. E nem vai obedecer, a ninguém.
Évora começou a arrumar as coisas, dizendo que só queria ajudar, pelo bem das meninas. Zay sorriu irônico.
— Fazê-las de incubadora para o seu benefício é um belo modo de começar.
— Talvez tenha escolhido a irmã errada.
— Sua previsão foi exatamente como?
Ela se virou, confusa. Respondeu de imediato.
— Você sabe de alguma coisa e não quer falar.
— Por que eu teria escolhido a irmã errada?
— Não fui eu quem fez o jogo.
— Ele realmente gosta dela.
— Rick está louco pela Nilufer, é real.
Zay foi saindo para a varanda.
— Ele sabe mentir até pra si mesmo. — Disse com desdém.
— E vocês não sabem muitas coisas que ele faz.
— Mas, como ex-amigo de péssima influência, vou deixar o tempo mostrar.
— Tenho certeza de que tem vampiros aqui.
— Só não sei atrás do quê.
— Se ela não voltar até o amanhecer, faço um feitiço de localização.
— Vou dar uma volta.
— Odiaria vê-la presa em outra armadilha.
— E Sumayla não vai ser nada gentil se pegar alguém no quintal de casa novamente.