Ela apenas o olhou cabisbaixa, deu alguns passos se afastando, enxugou os olhos marejados.
— Boa noite! Você trabalha aqui? Né?
Zay sorriu irônico, a encarando fixamente.
— É… quase sempre. Vai passar a noite como acompanhante? Ou?
De braços cruzados, séria, ela respondeu encarando Callum.
— Não. Ele já acordou? Ficou consciente pra valer?
Zay balançou a cabeça que não.
— É claro que queremos a melhora dele, mas também pode não acontecer.
— É tudo muito incerto… as sequelas e danos causados pelo acidente.
— Te vi correndo outro dia, perto de casa. Se precisar de carona ou…
— Sabe que somos meio parecidos, diferentes dos outros. Se quiser conversar algum dia…
Se aproximou, a olhando fixamente nos olhos, sério, a sentindo triste e com medo.
— Sei que está passando por muitas coisas difíceis.
— Esse lugar mexe com a nossa cabeça mesmo. Eu posso te ajudar, te entendo.
Ela o olhou também séria, sem dar muita atenção. Respondeu.
— Não tô mais ficando na fazenda. Voltei pra cidade, minha casa… mas obrigada.
— Não conta pra minha mãe que eu vim aqui, por favor?
— Ela não gosta que eu ande sozinha e tem medo de eu surtar na frente dos outros.
Ele sorriu sutilmente, a acompanhando até a porta. Respondeu pensando um modo, de se aproximar, para tranquilizar ela.
— Não vou contar… e sei que não vai surtar. Mães podem ser bem exageradas às vezes!
Ela o olhou e sorriu sem jeito, desconcertada pelo olhar profundo dele.
— Ah, sabe? Como? Eu sou bem lo.uca, você não faz ideia. Nem me conhece.
Ele sorriu, parou na frente dela mexendo no celular.
— Não tem nada de errado com você. Não é l.ouca só porque não consegue se controlar.
Deu o celular nas mãos dela.
— Essas coisas levam tempo. Me passa seu número, vou te mandar um oi e você salva o meu.
— Se voltar a se machucar e não quiser vir até o hospital, pode me ligar. Se algum dia, estiver sozinha, com problemas, pode me ligar.
Ela salvou, devolveu confusa.
— Você já me atendeu, não é? Seu rosto é familiar… mas não da floricultura. Ou do penhasco.
— Quando e por quê? Eu lembro, você me carregou, e eu sentia muita dor.
Ele ficou sério, respondeu.
— Já sim… quando machucou a perna na minha casa e outro dia na fazenda. A Évora não sabia o que fazer.
— Não tenho nada a ver com as armadilhas… são coisas da minha irmã. Sinto muito.
O chamaram do corredor. Ele disse que já voltava, a convidou pra ir tomar um café e conversar melhor. Ela ficou séria, incomodada, sem acreditar no que ele disse, concordou e foi embora assim que ele se afastou.
Já estava tarde. O carro de Rick ainda estava lá e o de Yesenia também. Kaya foi entrando pelos fundos, tentando não ser notada. Assim que fechou a porta do quarto, levou um susto com Yesenia abrindo.
— Aonde você foi? — Perguntou Yesenia brava.
— Sabe que não pode sair assim. Enquanto morar na minha casa, me deve satisfação.
— Você sempre dá um jeito de piorar tudo. Estava com ele, não é? Com o inútil do seu pai?
Kaya se aproximou, chateada.
— Não… só fui correr porque estava me sentindo sufocada.
— Não quero vê-lo. Ele não é ninguém… acredito em você.
— Me conta o que realmente aconteceu, mãe. Por favor.
Yesenia a segurou pelo braço, apertando, enfiando as unhas.
— Acredita mesmo? Pois eu não acredito em nada que venha de você! Sua mentirosa.
— Por que foi ao hospital? Terminar o que começou?
— Quer saber o que Lorian fez? Me matou, colocando você em mim. Eu perdi tudo.
Jogou Kaya no chão.
— Se sair daqui sozinha de novo, eu juro que te coloco na rua.
— Chora mesmo… quando tudo vier à tona, não vai ter drama que engane a ninguém.
— Pare de manipular a sua irmã, se aproveitando da vulnerabilidade dela.
— Se você não quer mudar, seu lugar é com ele e não conosco.
— Não te quero nem no quintal sozinha. Não saia de casa.
Chorando, Kaya se sentou no chão, confusa, se sentindo acuada.
— Eu não fiz nada… mas você não se importa. — Ela disse triste.
— Qualquer coisa que eu diga, não acredita.
— Talvez o Callum que me machucou… mas você não acreditaria, porque eu sou a pior pessoa do mundo.
— Você nunca, me protegeu.
Yesenia já estava saindo do quarto, voltou e fechou a porta, segurou Kaya pelo cabelo com força.
— Cala a sua boca. Sei bem o que quer… afastar sua irmã de nós.
— Se ela souber que você o atacou, nunca vai te perdoar. O Callum sempre cuidou de você como um pai.
— Tem tolerado tudo o que fez nos últimos anos e não desistiu de você.
— Não é a pior pessoa do mundo… é a filha dele. Seu pai, é um monstro.
— Nem que eu tenha que ir embora junto, mas não vou deixar você acabar com a felicidade da sua irmã de novo.
A encheu de tapas, a jogou no chão e saiu, também chorando, nervosa. Foi para seu quarto e se trancou. Rick estava acordado, ouvindo tudo no quarto de Nilufer, com ela dormindo profundamente, ele ficou angustiado, com dó da cunhada. Podia ouvi-la chorando, sentida, e a sentiu esgotada, como quem fosse desistir de tudo e fazer algo muito r**m a qualquer momento.
Kaya começou arrumar as coisas, pensando que longe não traria mais problemas para Nilufer. Pegou tudo o que deu e colocou na mochila. No meio da madrugada saiu escondida, foi procurar Lorian para o confrontar sobre a verdade e pedir dinheiro.
Assim que saiu de casa, o viu parado perto, encostado na moto. Ele estava a encarando fixamente, sério. Esticou a mão, dando um capacete.
— Você queria me ver, docinho?
— Sinto muito.
Ela o olhou com os olhos marejados.
— Pelo quê? Não me chame assim! Não finja, que se importa.
Ele foi colocando o capacete.
— Por tudo. Vamos logo, antes que alguém tente impedir!
— Eu disse que saberia como me chamar quando precisasse de mim. Sou o seu pai.
Ela também colocou o capacete, subiu na garupa e foi com ele. Foram para a casa dele. Kaya ficou séria, calada, foi entrando confusa. Ele mostrou um dos quartos.
— Arrumei pra você. Ainda não está pronto, pode ficar o quanto precisar.
Acendeu velas.
— Tem água, umas comidas, uma cama de verdade.
— É tudo novo, não tem energia, mas tem água.
Ela colocou a mochila em cima da cama, reparando em tudo.
— Não vou ficar. Preciso de dinheiro… você pode me dar?
Ele ficou olhando como quem tinha muito o que dizer, respirou fundo.
— Sim, claro. O quanto quiser.
— Tenta descansar. Vai te fazer bem ficar um pouco longe delas.
— Se precisar de mim, estou na sala.
Ele podia sentir o quanto a decepcionava. Foi deitar sem saber como conversar e ajudar. Ela se deitou extremamente triste, com medo de ser a decisão errada deixar a família.
Assim que adormeceu começou a sonhar com o quintal. Foi até o rio e começou chorar, desejando que tudo simplesmente acabasse. Subiu o penhasco pensando em pular da parte mais alta.
Quando estava criando coragem, o lobo marrom apareceu entrando na frente, choramingando afetuoso, esfregando a cabeça nela como quem pedia carinho. Ela se abaixou, o acariciando, chateada.
— O que foi? Acha que vai me ajudar?
Ele latiu uma vez (que significava sim), a enchendo de lambidas. Ela se sentou, o abraçando.
— Achei que estivesse bravo comigo.
Ele latiu duas vezes, deitou. Ela deitou quase que em cima dele, abraçada.
— Não gosta de mim do outro jeito? Prefere esse?
Ele latiu uma vez. Ela sorriu, o acariciando.
— Ainda acho que você faz parte de mim… é o meu lobo interior, com certeza.
— Sabe… tem sido bem difícil. Aconteceram tantas coisas.
— Vou embora amanhã… vai ser melhor pra todos.
— Espero que me acompanhe. Você é meu único amigo.
— Só queria que me respondesse, pra me ajudar.
— Não tem espaço pra mim aqui… meu padrasto vai acordar e ir pra casa.
— Ele não gosta de mim. Faz coisas que me machucam… eu sempre tive medo dele fazer com a minha irmã e por isso aguentei tudo calada.
— Agora ela tem alguém que vai impedir isso. Na verdade eu não gosto dele, não muito… mas é alguém legal.
— Sei lá… acho que não serve pra ela, porque são diferentes e eu sempre vou ter medo.
— Se você tem irmãos mais novos, vai entender. Tenho medo dele ferir ela, decepcionar… não consigo aceitar que ela cresceu e não vai mais precisar de mim.
Começou chorar sentida.
— Ela é tudo o que eu tenho de bom. Me mantém sã, sabe? É meu porto seguro e não desiste de mim.
— Não sei como ficam as coisas sem ela… porque eu não sei gostar de ninguém, e qual seria o meu propósito?
— Eu nunca tive um… tenho tanto medo de ser o que a minha mãe fala.
— Sempre soube que tinha algo errado dentro de mim.