Capítulo 54

1558 Words
Ela apenas o olhou cabisbaixa, deu alguns passos se afastando, enxugou os olhos marejados. — Boa noite! Você trabalha aqui? Né? Zay sorriu irônico, a encarando fixamente. — É… quase sempre. Vai passar a noite como acompanhante? Ou? De braços cruzados, séria, ela respondeu encarando Callum. — Não. Ele já acordou? Ficou consciente pra valer? Zay balançou a cabeça que não. — É claro que queremos a melhora dele, mas também pode não acontecer. — É tudo muito incerto… as sequelas e danos causados pelo acidente. — Te vi correndo outro dia, perto de casa. Se precisar de carona ou… — Sabe que somos meio parecidos, diferentes dos outros. Se quiser conversar algum dia… Se aproximou, a olhando fixamente nos olhos, sério, a sentindo triste e com medo. — Sei que está passando por muitas coisas difíceis. — Esse lugar mexe com a nossa cabeça mesmo. Eu posso te ajudar, te entendo. Ela o olhou também séria, sem dar muita atenção. Respondeu. — Não tô mais ficando na fazenda. Voltei pra cidade, minha casa… mas obrigada. — Não conta pra minha mãe que eu vim aqui, por favor? — Ela não gosta que eu ande sozinha e tem medo de eu surtar na frente dos outros. Ele sorriu sutilmente, a acompanhando até a porta. Respondeu pensando um modo, de se aproximar, para tranquilizar ela. — Não vou contar… e sei que não vai surtar. Mães podem ser bem exageradas às vezes! Ela o olhou e sorriu sem jeito, desconcertada pelo olhar profundo dele. — Ah, sabe? Como? Eu sou bem lo.uca, você não faz ideia. Nem me conhece. Ele sorriu, parou na frente dela mexendo no celular. — Não tem nada de errado com você. Não é l.ouca só porque não consegue se controlar. Deu o celular nas mãos dela. — Essas coisas levam tempo. Me passa seu número, vou te mandar um oi e você salva o meu. — Se voltar a se machucar e não quiser vir até o hospital, pode me ligar. Se algum dia, estiver sozinha, com problemas, pode me ligar. Ela salvou, devolveu confusa. — Você já me atendeu, não é? Seu rosto é familiar… mas não da floricultura. Ou do penhasco. — Quando e por quê? Eu lembro, você me carregou, e eu sentia muita dor. Ele ficou sério, respondeu. — Já sim… quando machucou a perna na minha casa e outro dia na fazenda. A Évora não sabia o que fazer. — Não tenho nada a ver com as armadilhas… são coisas da minha irmã. Sinto muito. O chamaram do corredor. Ele disse que já voltava, a convidou pra ir tomar um café e conversar melhor. Ela ficou séria, incomodada, sem acreditar no que ele disse, concordou e foi embora assim que ele se afastou. Já estava tarde. O carro de Rick ainda estava lá e o de Yesenia também. Kaya foi entrando pelos fundos, tentando não ser notada. Assim que fechou a porta do quarto, levou um susto com Yesenia abrindo. — Aonde você foi? — Perguntou Yesenia brava. — Sabe que não pode sair assim. Enquanto morar na minha casa, me deve satisfação. — Você sempre dá um jeito de piorar tudo. Estava com ele, não é? Com o inútil do seu pai? Kaya se aproximou, chateada. — Não… só fui correr porque estava me sentindo sufocada. — Não quero vê-lo. Ele não é ninguém… acredito em você. — Me conta o que realmente aconteceu, mãe. Por favor. Yesenia a segurou pelo braço, apertando, enfiando as unhas. — Acredita mesmo? Pois eu não acredito em nada que venha de você! Sua mentirosa. — Por que foi ao hospital? Terminar o que começou? — Quer saber o que Lorian fez? Me matou, colocando você em mim. Eu perdi tudo. Jogou Kaya no chão. — Se sair daqui sozinha de novo, eu juro que te coloco na rua. — Chora mesmo… quando tudo vier à tona, não vai ter drama que engane a ninguém. — Pare de manipular a sua irmã, se aproveitando da vulnerabilidade dela. — Se você não quer mudar, seu lugar é com ele e não conosco. — Não te quero nem no quintal sozinha. Não saia de casa. Chorando, Kaya se sentou no chão, confusa, se sentindo acuada. — Eu não fiz nada… mas você não se importa. — Ela disse triste. — Qualquer coisa que eu diga, não acredita. — Talvez o Callum que me machucou… mas você não acreditaria, porque eu sou a pior pessoa do mundo. — Você nunca, me protegeu. Yesenia já estava saindo do quarto, voltou e fechou a porta, segurou Kaya pelo cabelo com força. — Cala a sua boca. Sei bem o que quer… afastar sua irmã de nós. — Se ela souber que você o atacou, nunca vai te perdoar. O Callum sempre cuidou de você como um pai. — Tem tolerado tudo o que fez nos últimos anos e não desistiu de você. — Não é a pior pessoa do mundo… é a filha dele. Seu pai, é um monstro. — Nem que eu tenha que ir embora junto, mas não vou deixar você acabar com a felicidade da sua irmã de novo. A encheu de tapas, a jogou no chão e saiu, também chorando, nervosa. Foi para seu quarto e se trancou. Rick estava acordado, ouvindo tudo no quarto de Nilufer, com ela dormindo profundamente, ele ficou angustiado, com dó da cunhada. Podia ouvi-la chorando, sentida, e a sentiu esgotada, como quem fosse desistir de tudo e fazer algo muito r**m a qualquer momento. Kaya começou arrumar as coisas, pensando que longe não traria mais problemas para Nilufer. Pegou tudo o que deu e colocou na mochila. No meio da madrugada saiu escondida, foi procurar Lorian para o confrontar sobre a verdade e pedir dinheiro. Assim que saiu de casa, o viu parado perto, encostado na moto. Ele estava a encarando fixamente, sério. Esticou a mão, dando um capacete. — Você queria me ver, docinho? — Sinto muito. Ela o olhou com os olhos marejados. — Pelo quê? Não me chame assim! Não finja, que se importa. Ele foi colocando o capacete. — Por tudo. Vamos logo, antes que alguém tente impedir! — Eu disse que saberia como me chamar quando precisasse de mim. Sou o seu pai. Ela também colocou o capacete, subiu na garupa e foi com ele. Foram para a casa dele. Kaya ficou séria, calada, foi entrando confusa. Ele mostrou um dos quartos. — Arrumei pra você. Ainda não está pronto, pode ficar o quanto precisar. Acendeu velas. — Tem água, umas comidas, uma cama de verdade. — É tudo novo, não tem energia, mas tem água. Ela colocou a mochila em cima da cama, reparando em tudo. — Não vou ficar. Preciso de dinheiro… você pode me dar? Ele ficou olhando como quem tinha muito o que dizer, respirou fundo. — Sim, claro. O quanto quiser. — Tenta descansar. Vai te fazer bem ficar um pouco longe delas. — Se precisar de mim, estou na sala. Ele podia sentir o quanto a decepcionava. Foi deitar sem saber como conversar e ajudar. Ela se deitou extremamente triste, com medo de ser a decisão errada deixar a família. Assim que adormeceu começou a sonhar com o quintal. Foi até o rio e começou chorar, desejando que tudo simplesmente acabasse. Subiu o penhasco pensando em pular da parte mais alta. Quando estava criando coragem, o lobo marrom apareceu entrando na frente, choramingando afetuoso, esfregando a cabeça nela como quem pedia carinho. Ela se abaixou, o acariciando, chateada. — O que foi? Acha que vai me ajudar? Ele latiu uma vez (que significava sim), a enchendo de lambidas. Ela se sentou, o abraçando. — Achei que estivesse bravo comigo. Ele latiu duas vezes, deitou. Ela deitou quase que em cima dele, abraçada. — Não gosta de mim do outro jeito? Prefere esse? Ele latiu uma vez. Ela sorriu, o acariciando. — Ainda acho que você faz parte de mim… é o meu lobo interior, com certeza. — Sabe… tem sido bem difícil. Aconteceram tantas coisas. — Vou embora amanhã… vai ser melhor pra todos. — Espero que me acompanhe. Você é meu único amigo. — Só queria que me respondesse, pra me ajudar. — Não tem espaço pra mim aqui… meu padrasto vai acordar e ir pra casa. — Ele não gosta de mim. Faz coisas que me machucam… eu sempre tive medo dele fazer com a minha irmã e por isso aguentei tudo calada. — Agora ela tem alguém que vai impedir isso. Na verdade eu não gosto dele, não muito… mas é alguém legal. — Sei lá… acho que não serve pra ela, porque são diferentes e eu sempre vou ter medo. — Se você tem irmãos mais novos, vai entender. Tenho medo dele ferir ela, decepcionar… não consigo aceitar que ela cresceu e não vai mais precisar de mim. Começou chorar sentida. — Ela é tudo o que eu tenho de bom. Me mantém sã, sabe? É meu porto seguro e não desiste de mim. — Não sei como ficam as coisas sem ela… porque eu não sei gostar de ninguém, e qual seria o meu propósito? — Eu nunca tive um… tenho tanto medo de ser o que a minha mãe fala. — Sempre soube que tinha algo errado dentro de mim.
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