Évora ficou desesperada. Inventou toda uma história de que o carro havia quebrado e pediu para Nilufer dormir na cidade, na casa de uma familiar deles.
Decidiu esconder tudo de Yesenia até a hora dela chegar, cedo, no dia seguinte.
Lorian levou Kaya para longe, pela mata, até sua antiga casa perto de um rio. Ela não se transformou e nem acordou, e ele mesmo não estava entendendo como aquilo não havia acontecido.
A colocou deitada em uma cama antiga, cheia de poeira. Ficou ao lado sentindo o corpo dela queimar febril. Decidiu entrar na mente dela e mostrar o que queria de uma vez por todas.
Sentado, com a cabeça dela em seu colo, começou a acariciar seus cabelos e o rosto. Retomou as memórias desde a infância, quando sua mãe grávida o chamava no quintal. Ele corria até ela e levava um beliscão de repreensão, seguido de um abraço apertado, afetuoso, cheio de beijos.
Ele também a abraçava e enchia a barriga de carinho. Na maioria das vezes tudo parecia normal. Eram apenas as crianças e ela. Pareciam dias, semanas. A barriga crescia e o amor dele também. Kaya podia sentir o quanto ele admirava a mãe e o bebê.
Com os outros irmãos era diferente. Até havia amor, mas não tanto. Lorian se sentia completamente conectado ao bebê, queria proteger a qualquer custo.
As coisas mudaram quando um homem chegou. Em instantes, os sentimentos de Lorian mudaram para tristeza, medo e inveja. Ele vinha do rio e, ao vê-lo ali, murchou completamente. Cabisbaixo, foi cumprimentar, chamando-o de “papai”.
Sua mãe estava sentada no colo dele, recebendo carinho na barriga. Sorriu afetuosa, como sempre. Lorian, ao se aproximar para subir no colo também, levou um leve empurrão do pai, que disse que ele estava molhado e iria sujar a mãe. Tristonho, se afastou e passou o resto do dia distante, apenas observando o quanto o pai o desprezava.
Max parecia adorável, pelo menos com os outros. Exceto com Lorian. Ficava nítido que ele era o homem da casa. Muito bonito e elegante para a época, também parecia completamente apaixonado por Coraline.
Durante todas as lembranças em que ele esteve presente, não houve um único sentimento bom vindo de Lorian. Aos poucos, ele quase não se aproximava mais da mãe e da barriga.
A gestação parecia estar chegando ao fim. À medida que as memórias passavam, algo mudava dentro de Lorian. Ele se afastava cada vez mais de casa, solitário e cheio de raiva.
Em um desses passeios, foi muito longe e fez novos amigos. A semelhança era assustadora. Yesenia era exatamente igual a Nilufer. De todos, foi quem mais se manteve próxima dele, muito gentil e simpática. O fez perder a noção das horas e, quando voltou, percebeu que algo estava acontecendo.
Seus irmãos estavam trancados do lado de fora, chorando. Disseram que o bebê ia nascer e que a mãe estava gritando muito.
Desobediente, Lorian arrombou uma janela e entrou. Podia sentir que algo muito r**m havia acontecido. Ao ver a mãe desacordada na cama, coberta de sangue, não teve reação.
Max também estava sujo de sangue, com o bebê nos braços. Mandou Lorian sair, hostil. Lorian se aproximou da mãe e soube, naquele instante, que ela estava morta. Pálida. Gelada.
Se deitou sobre o corpo, chorando, desejando morrer junto. Ao ouvir o irmão chorar, a única coisa que conseguiu sentir foi raiva. Olhou o bebê com todo o ódio que carregava.
Max parecia não se importar com nada além do recém-nascido. Foi frio e indiferente com Lorian. O empurrou para fora do quarto, mandando cavar uma cova. Lorian retrucou, agressivo, gritando que queria ficar com a mãe. Max o pegou pela garganta, levantando-o do chão, e disse que atearia fogo nela e na casa se a cova não fosse feita, e rápido.
O jogou longe. Chamou os outros filhos para se despedirem e mandou arrumarem as malas, porque iriam embora. Nenhum deles questionou nada. Eram menores e, tristes, fizeram o que o pai mandou.
Sozinho, Lorian cavou a cova. Pegou água do rio para limpar a mãe. Chorando, foi retirando os lençóis manchados de sangue. Observou os outros arrumando as coisas e viu o bebê sozinho, em um caixote. Se aproximou, sem perceber que estava prestes a se transformar. Aconteceu sem que ele tivesse qualquer controle.
Max interveio, o agrediu com uma pancada na cabeça e o fez desmaiar. Partiu, deixando Lorian para trás, desacordado.
Quando acordou, desorientado e ferido, correu até o quarto. O corpo ainda estava lá, exatamente como ele havia deixado.
Sozinho, terminou de arrumar tudo. Arrastou a mãe até a cova e a enterrou, com a certeza de que uma parte de si estava indo junto.
Nos primeiros dias, passou dia e noite ao lado da cova, esperando que alguém voltasse. Isso não aconteceu.
Quando a fome se tornou insuportável, foi pescar. Sobreviveu com frutas do quintal e água do poço. Foram semanas sofrendo com o luto. Nada fazia sentido. Não entendia por que havia sido abandonado daquela forma.
Meses se passaram até que alguém apareceu. Eram meninos explorando as terras. Lorian se escondeu, observou e roubou tudo o que pôde do barco deles: roupas, comida.
Eles se assustaram e foram embora às pressas. Depois de semanas, retornaram com um plano de vingança. Fizeram até uma camuflagem para pegar o ladrão, levando ainda mais coisas como isca.
Lorian era muito mais esperto e rápido. Achou graça. Observou tudo e os roubou pelo rio, enquanto acreditavam que o pegariam pela mata.
Só perto de irem embora perceberam que haviam sido roubados. Um deles se revoltou e quis queimar a casa.
Havia quase um ano que Lorian não falava com ninguém. Resolveu aparecer para defender a casa, dizendo que mataria os dois. Foi surpreendido ao vê-los se transformando. Eram lobos. Naquela época, Lorian nem sabia o que eram.
Correu o máximo que pôde, com medo. Ao ser mordido por um deles, caiu rolando e se transformou também.
Assustado, sem entender o que estava acontecendo, correu para longe e pulou de um penhasco no rio. Quase se afogou e machucou o braço. Passou o resto da noite chorando de dor. Acordou confuso, sem compreender como havia feito aquilo.
Com medo de ser encontrado, se escondeu na mata por dias. Estava ferido e aquilo só piorava. A ferida infeccionou.
Quando voltou para casa, achou que morreria sozinho, sem ter a quem recorrer e sem motivos para lutar. Cavou uma cova rasa ao lado da de sua mãe, se deitou ali, no auge do m*l-estar, e esperou que o pior acontecesse.