Capítulo 38

1113 Words
Ela estava toda marcada, tomou banho calada, sorriu ao sair do box e o deixou lá. Colocou uma camisola branca florida de alcinha e deitou, como se já fosse dormir. Quando ele saiu do banheiro, colocou a cueca e perguntou se ela queria água ou comer alguma coisa. Fingindo estar sonolenta, ela resmungou que não, se deitou de bruços, escondendo o rosto, se sentindo envergonhada e suja. Não entendeu o que de fato ele queria, já que não foi para os finalmentes, mesmo ela fazendo tudo o que ele quis. Quando ele voltou, teve certeza de que passou dos limites, se arrependeu e não soube exatamente como ela se sentia, porque, diferente da maioria, ela não o deixava sentir suas emoções. Completamente inseguro, apagou a luz e deitou, olhando-a de costas. Nem boa-noite trocaram e foram dormir sem conversar. Já era tarde e Kaya não havia voltado para a fazenda ainda. Se sentindo confusa e irritada, preferiu ficar sozinha, com receio de machucar alguém. Ela viu boa parte do que aconteceu entre Nilufer e Rick na casa delas. Só foi embora quando achou que realmente iriam tra.nsar, porque, assim como ele fez, se imaginou lá, vivendo aquilo no lugar da irmã. E se odiou por isso. Sem ter para onde ir ou a quem chamar, e sem dinheiro pra nada, só pensou no pai e no quanto queria estar com ele. Andando sem rumo pela cidade, passou perto do hospital onde Yesenia trabalhava e entrou. Era a folga dela. Sentou no fundo da sala de espera. Tinha bastante gente até, pelo horário. Lá era calmo e ninguém reparou nela indo sentar sem fazer a ficha na recepção. Na televisão começou a passar um filme sobre assalto a bancos. Sem vontade de fazer absolutamente nada e muito triste com a sensação de estar perdendo a irmã, ela começou a assistir atenta, até largou os fones de ouvido. Yesenia não havia ligado ou enviado mensagens. Diferente de sempre, não falou nada. Ela tinha certeza de que Kaya estava com o pai e isso só a deixou mais irada ainda. Já era mais de meia-noite. Zay estava trabalhando, não precisou passar muito perto para sentir Kaya e sua tristeza exalando. Foi até a recepção procurando, pensou que talvez ela tivesse se machucado de novo. Quando a viu sentada no cantinho, séria, assistindo, pensou que pudesse estar acompanhando alguém. Ele sabia que Yesenia não estava lá. Kaya nem olhou para ele ou para qualquer pessoa que andava por ali. Ele foi conversar na recepção, começou a perguntar quem havia chegado primeiro, olhou os prontuários e viu que ela não estava esperando atendimento. Muito curioso, queria saber o motivo de ela estar ali. Foi atender outros pacientes e voltou quase uma hora depois. O filme já havia acabado, ela estava do mesmo jeito e o sentimento mais forte era insegurança e medo. As horas foram passando noite adentro e todas as vezes em que ele foi espiar, viu basicamente a mesma coisa. Ela perdeu a noção do tempo, passou a noite toda ali acordada. Quando estava amanhecendo, foi embora caminhando, pensando na bronca que iria levar da mãe. Zay saiu do trabalho e foi pra casa, passou por ela na estrada e até pensou em oferecer carona, mas desistiu. Ele estava cada vez mais confuso, intrigado e com medo, do que ela poderia levar a ele, a família. Évora havia ido dormir em casa com Otelo. Quando chegou cedo à fazenda, sentiu a falta de Kaya. Completamente indiferente, Yesenia disse apenas que não a via desde o dia anterior. Preocupada, Évora ligou. Quando Kaya ia atender, o sinal caiu. Ela estava na beira da estrada e decidiu correr para chegar mais rápido, com os fones no último volume. Não sabia nem o que inventar, estava com o pensamento distante, pensando no pai. Quase chegando à fazenda, levou um susto com um carro que saiu do nada de uma estrada. Por centímetros não bateu forte, apenas encostou. Ela se assustou e caiu ao se afastar, evitando o impacto. Furiosa, Sumayla freou bruscamente, buzinou e gritou ao ver quem era: — Não olha por onde anda, garota? Sua idi.ota! Nem desceu do carro, gritou da janela: — Machucou? Tão irritada quanto, Kaya mostrou o dedo do meio e saiu correndo, sem falar nada. Dentro do carro, as crianças ficaram surpresas com a grosseria das duas. O mais velho disse que ela era uma gata, a do meio perguntou por que não ajudaram. Sumayla só falou que aquela ali era uma péssima pessoa e não merecia ajuda alguma. Quando Kaya chegou à fazenda, foi entrando apreensiva. Évora saiu na varanda preocupada, perguntou se ela estava bem. Cabisbaixa, ela disse que sim. Yesenia estava na cozinha e ficou olhando séria, com aquele julgamento de sempre. — Aqui não é hotel. Por que não vai logo embora com ele? — Yesenia disse. — Duvido que ele vá te tolerar, dando trabalho e sendo inconsequente como é. — Apesar que são iguais. Kaya se aproximou, chateada: — Eu não estava com ele, por que você não… Yesenia interrompeu: — Arrume as suas coisas. Évora já nos ajudou o bastante. — Você não vai ficar mais aqui. Saiu de perto e disse para Évora que ia para a cidade cuidar da reforma da casa. Ignorou Kaya completamente quando ela perguntou se podia ir junto para conversarem. Constrangida e se sentindo um estorvo, Kaya foi para o quarto, tomou banho e deitou. Sem os remédios, tudo estava ficando diferente. A sensação de estar ouvindo e vendo coisas estava voltando. Os cheiros eram mais fortes, seus olhos estavam mais sensíveis. Muito cansada, dormiu desejando ver o lobo marrom de novo. Começou a sonhar com a mata, o rio, mas ele não estava lá. Ainda era bem cedo. Rick não tinha dado notícias. Os pais dele estavam ansiosos para saber se ele tinha revelado algo a Nilufer ou não. Ele levantou antes dela. Ainda culpado e arrependido, odiava a sensação de estar errado ou perdendo. Foi correr e aproveitou para conversar com a mãe. Mentiu dizendo que a viagem estava ótima e garantiu que à noite iria fazer o que era preciso, porque a lua estaria cheia e Nilufer não ia precisar de esforço algum para entender tudo. Évora estava insegura, perguntou como ele podia ter tanta certeza. Rick respondeu confiante: — Porque eu a sinto. Bom, de uma maneira ou de outra, vai dar certo. — E a Kaya? Não acha que ela pode ficar perigosa hoje? — Para você e a mãe dela, é melhor ficarem longe. — Depois de ter tido contato direto com o pai, ela vai ficar cada vez mais forte e instável.
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