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1303 Words
Isabela nunca tinha estado naquela parte da cidade. Enquanto o carro avançava por ruas mais estreitas, com casas simples e muros desgastados pelo tempo, ela percebeu algo que nunca tinha sentido antes com tanta clareza: diferença. Não era julgamento. Era… realidade. Ela diminuiu a velocidade, olhando os arredores com atenção. Crianças brincavam na rua, algumas descalças, rindo como se não existisse preocupação no mundo. Uma senhora varria a calçada. Um rádio antigo tocava ao fundo em alguma casa próxima. Aquilo era… vivo. Mas também era distante do mundo dela. — É aqui. A voz de Lucas, ao seu lado, a trouxe de volta. Ela estacionou. Por um segundo, ficou em silêncio, olhando para a casa dele. Simples. Pequena. Portão antigo. Mas… cuidada. — Vamos? — disse Lucas, já saindo do carro. Isabela assentiu, desligando o motor e saindo logo atrás. --- Assim que entrou, Isabela sentiu a diferença ainda mais forte. O espaço era reduzido, mas organizado. Não havia luxo, mas havia esforço. Cada coisa parecia estar ali por necessidade, não por estética. — Fica à vontade — disse Lucas, já caminhando para dentro. Antes que ela pudesse responder, uma voz infantil ecoou: — Lucas! Um menino correu na direção dele. Pequeno. Magro. Mas com um sorriso enorme. — Ricardo — disse Lucas, ajoelhando-se automaticamente. — Calma, calma… O menino tentou abraçá-lo com certa dificuldade, os movimentos um pouco descoordenados. Isabela observou. Em silêncio. Com atenção. Lucas o ajudou, com naturalidade, sem pressa, sem constrangimento. — Esse é o Ricardo — disse Lucas, olhando para ela. — Meu irmão. Isabela sorriu suavemente. — Oi, Ricardo. O menino sorriu de volta, tímido, mas claramente curioso. — Ela é sua amiga? Lucas hesitou. — Colega. Isabela levantou uma sobrancelha. Mas não disse nada. --- O quarto — Vamos para o meu quarto — disse Lucas. Ela o seguiu. E, ao entrar, percebeu imediatamente: Aquele era o lugar mais… Lucas possível. Pequeno. Organizado. Livros empilhados com precisão. Cadernos alinhados. Uma mesa com computador antigo, mas bem cuidado. Sem distrações. Sem excessos. — Uau… — ela murmurou. — O quê? — Você realmente vive aqui. — Sim. Ela soltou um leve sorriso. — Dá pra perceber. Ele não entendeu completamente o tom, mas ignorou. — Aqui é mais silencioso. — Eu percebi. Eles se sentaram. Dessa vez… sem discussões. --- O primeiro avanço Lucas abriu o caderno. — Vamos tentar integrar sua ideia com uma base técnica. Isabela sorriu de leve. — Finalmente. — Não comemora ainda. — A cada batalha devemos comemorar como se de uma guerra se tratasse. Ele apenas revirou os olhos. Mas… havia algo diferente. Menos resistência. — Explica melhor sua ideia — disse ele. Ela se inclinou um pouco mais perto. — Eu quero que a instalação reaja ao toque… mas não só com luz. Quero que as cores mudem conforme a intensidade, talvez até o tempo de contato… Lucas começou a anotar. — Isso é possível. Ela piscou. — Você disse “possível”? — Sim, eu disse isso — Uau… estou impressionada. — Não se acostuma. Ela riu. E, pela primeira vez… eles estavam interagindo, cooperando e concordando --- Fluxo As ideias começaram a fluir. Lucas traduzia os conceitos dela em lógica. Isabela dava vida ao que ele estruturava. — E se a luz começar suave e depois intensificar? — Precisamos de sensores de pressão ou proximidade. — E som? — Podemos integrar. — Tipo um ambiente… quase emocional? Lucas parou por um segundo. Olhou para ela. — Isso pode funcionar. Ela sorriu. — Eu sei. E naquele momento… houve algo diferente. Não era só parceria. Era… sintonia começando. TOC TOC A batida na porta foi leve. Mas suficiente para quebrar o momento. Lucas franziu o cenho. — Um segundo. Ele levantou-se e abriu a porta. E lá estava ela. Mel. Com um sorriso tímido. E uma pequena sacola nas mãos. — Oi… desculpa incomodar — disse ela. — Eu só… trouxe um lanchinho pra você. Lucas relaxou imediatamente. — Mel… você não precisava. Isabela, dentro do quarto, observava em silêncio. Analisando. — Eu sei… mas eu quis — disse Mel, com um sorriso gentil. Ela então olhou para dentro do quarto. E viu Isabela. Por um segundo… o sorriso dela vacilou. Mas voltou rápido. — Ah… você está ocupado. — Sim — disse Lucas. — Estamos trabalhando. Ele abriu mais a porta. — Mel, essa é a Isabela. Minha colega da faculdade. Isabela levantou a mão levemente. — Oi. Mel assentiu. — Oi. Havia algo ali. Sutil. Mas perceptível. — Eu já vou — disse Mel. — Só queria deixar isso. Ela entregou a sacola. — Obrigado. — Boa sorte com… o trabalho. Ela se virou. E foi embora. --- Silêncio… e observação Lucas fechou a porta. Voltou para dentro. Como se nada tivesse acontecido. Mas Isabela estava olhando para ele. Com um olhar… diferente. — O quê? — ele perguntou. Ela inclinou a cabeça. — Ela gosta de você. Lucas franziu o cenho imediatamente. — O quê? — A tua vizinha. — Mel? — Sim. — Não. — Sim. — Não. — Lucas… — Não. Ela cruzou os braços. — Eu vi. — Viu o quê? — O jeito que ela te olha. — Ela é assim com todo mundo. — Não, não é. — Você nem conhece ela. — Não preciso. Ele soltou um suspiro, já irritado. — Isso não faz sentido. — Faz todo. — Ela é como uma irmã pra mim. Isabela soltou uma pequena risada. — Vocês homens sempre dizem isso. — Porque é verdade. — Porque é conveniente. — Porque é real. Ela o encarou. — Você é muito ingénuo. — E você vê coisas onde não existem. — Eu vejo pessoas. — Eu vejo fatos. Silêncio. De novo. Mas dessa vez… com tensão. --- Algo mudou — Você ficou incomodada — disse Lucas de repente. Isabela arregalou os olhos. — O quê? — Você. — Eu não, é só que ela pareceu não ter gostado nada de me ver — Besteira, você vê coisas onde não existem — Eu sei muito bem o que eu vejo- disse emburrada — E isso ti deixa irritadinha? — Lucas, por favor, menos! — Quer dizer que a Mel deixou a senhorita, dona da felicidade irritada ?- ele estava se divertindo com aquilo Ela abriu a boca. Mas não responde Isabela desviou o olhar. — Vamos continuar o trabalho. Lucas a observou por alguns segundos. Mas assentiu, voltando a seriedade — Certo. Eles voltaram. Mas… o clima não era mais o mesmo. Era mais sério , a Isabela bem humorada tinha ido embora dando espaço a outra, séria e precisa. --- O avanço real Apesar da tensão, o trabalho avançou. E dessa vez, de verdade. — Precisamos de um nome — disse Isabela. — Ainda não. — Tudo precisa de nome. — Primeiro a estrutura. — Chato. — Focado. — Insuportável. — Eficiente. Ela sorriu de leve. — Eu odeio admitir isso… mas és realmente eficiente e com a minha mente brilhante, nosso projeto será o melhor. Lucas riu da sua convicção, não respondeu. Mas pensou o mesmo. Realmente o projeto não estava tão m*l e Isabela não era tão burra e irritante quanto ele imaginou --- Fim do dia Quando Isabela saiu da casa, o céu já estava começando a escurecer. Ela entrou no carro. Ficou parada por alguns segundos. Em silêncio. Depois ligou o rádio. Uma música começou a tocar — “Calm Down” de Rema. Ela apoiou a cabeça no banco. — Ele é tão… difícil. Pausa. — …e tão diferente, mas só algumas semanas e eu me livro dele Ela suspirou. E deu um leve sorriso. — E ainda tem aquela garota, ela definitivamente não foi com a minha cara... Decidiu deixar esses pensamentos para lá e escutar a música
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