Isabela nunca tinha estado naquela parte da cidade.
Enquanto o carro avançava por ruas mais estreitas, com casas simples e muros desgastados pelo tempo, ela percebeu algo que nunca tinha sentido antes com tanta clareza: diferença.
Não era julgamento.
Era… realidade.
Ela diminuiu a velocidade, olhando os arredores com atenção. Crianças brincavam na rua, algumas descalças, rindo como se não existisse preocupação no mundo. Uma senhora varria a calçada. Um rádio antigo tocava ao fundo em alguma casa próxima.
Aquilo era… vivo.
Mas também era distante do mundo dela.
— É aqui.
A voz de Lucas, ao seu lado, a trouxe de volta.
Ela estacionou.
Por um segundo, ficou em silêncio, olhando para a casa dele.
Simples. Pequena. Portão antigo.
Mas… cuidada.
— Vamos? — disse Lucas, já saindo do carro.
Isabela assentiu, desligando o motor e saindo logo atrás.
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Assim que entrou, Isabela sentiu a diferença ainda mais forte.
O espaço era reduzido, mas organizado. Não havia luxo, mas havia esforço. Cada coisa parecia estar ali por necessidade, não por estética.
— Fica à vontade — disse Lucas, já caminhando para dentro.
Antes que ela pudesse responder, uma voz infantil ecoou:
— Lucas!
Um menino correu na direção dele.
Pequeno.
Magro.
Mas com um sorriso enorme.
— Ricardo — disse Lucas, ajoelhando-se automaticamente. — Calma, calma…
O menino tentou abraçá-lo com certa dificuldade, os movimentos um pouco descoordenados.
Isabela observou.
Em silêncio.
Com atenção.
Lucas o ajudou, com naturalidade, sem pressa, sem constrangimento.
— Esse é o Ricardo — disse Lucas, olhando para ela. — Meu irmão.
Isabela sorriu suavemente.
— Oi, Ricardo.
O menino sorriu de volta, tímido, mas claramente curioso.
— Ela é sua amiga?
Lucas hesitou.
— Colega.
Isabela levantou uma sobrancelha.
Mas não disse nada.
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O quarto
— Vamos para o meu quarto — disse Lucas.
Ela o seguiu.
E, ao entrar, percebeu imediatamente:
Aquele era o lugar mais… Lucas possível.
Pequeno.
Organizado.
Livros empilhados com precisão.
Cadernos alinhados.
Uma mesa com computador antigo, mas bem cuidado.
Sem distrações.
Sem excessos.
— Uau… — ela murmurou.
— O quê?
— Você realmente vive aqui.
— Sim.
Ela soltou um leve sorriso.
— Dá pra perceber.
Ele não entendeu completamente o tom, mas ignorou.
— Aqui é mais silencioso.
— Eu percebi.
Eles se sentaram.
Dessa vez…
sem discussões.
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O primeiro avanço
Lucas abriu o caderno.
— Vamos tentar integrar sua ideia com uma base técnica.
Isabela sorriu de leve.
— Finalmente.
— Não comemora ainda.
— A cada batalha devemos comemorar como se de uma guerra se tratasse.
Ele apenas revirou os olhos.
Mas… havia algo diferente.
Menos resistência.
— Explica melhor sua ideia — disse ele.
Ela se inclinou um pouco mais perto.
— Eu quero que a instalação reaja ao toque… mas não só com luz. Quero que as cores mudem conforme a intensidade, talvez até o tempo de contato…
Lucas começou a anotar.
— Isso é possível.
Ela piscou.
— Você disse “possível”?
— Sim, eu disse isso
— Uau… estou impressionada.
— Não se acostuma.
Ela riu.
E, pela primeira vez…
eles estavam interagindo, cooperando e concordando
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Fluxo
As ideias começaram a fluir.
Lucas traduzia os conceitos dela em lógica.
Isabela dava vida ao que ele estruturava.
— E se a luz começar suave e depois intensificar?
— Precisamos de sensores de pressão ou proximidade.
— E som?
— Podemos integrar.
— Tipo um ambiente… quase emocional?
Lucas parou por um segundo.
Olhou para ela.
— Isso pode funcionar.
Ela sorriu.
— Eu sei.
E naquele momento…
houve algo diferente.
Não era só parceria.
Era… sintonia começando.
TOC TOC
A batida na porta foi leve.
Mas suficiente para quebrar o momento.
Lucas franziu o cenho.
— Um segundo.
Ele levantou-se e abriu a porta.
E lá estava ela.
Mel.
Com um sorriso tímido.
E uma pequena sacola nas mãos.
— Oi… desculpa incomodar — disse ela. — Eu só… trouxe um lanchinho pra você.
Lucas relaxou imediatamente.
— Mel… você não precisava.
Isabela, dentro do quarto, observava em silêncio.
Analisando.
— Eu sei… mas eu quis — disse Mel, com um sorriso gentil.
Ela então olhou para dentro do quarto.
E viu Isabela.
Por um segundo…
o sorriso dela vacilou.
Mas voltou rápido.
— Ah… você está ocupado.
— Sim — disse Lucas. — Estamos trabalhando.
Ele abriu mais a porta.
— Mel, essa é a Isabela. Minha colega da faculdade.
Isabela levantou a mão levemente.
— Oi.
Mel assentiu.
— Oi.
Havia algo ali.
Sutil.
Mas perceptível.
— Eu já vou — disse Mel. — Só queria deixar isso.
Ela entregou a sacola.
— Obrigado.
— Boa sorte com… o trabalho.
Ela se virou.
E foi embora.
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Silêncio… e observação
Lucas fechou a porta.
Voltou para dentro.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas Isabela estava olhando para ele.
Com um olhar… diferente.
— O quê? — ele perguntou.
Ela inclinou a cabeça.
— Ela gosta de você.
Lucas franziu o cenho imediatamente.
— O quê?
— A tua vizinha.
— Mel?
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Lucas…
— Não.
Ela cruzou os braços.
— Eu vi.
— Viu o quê?
— O jeito que ela te olha.
— Ela é assim com todo mundo.
— Não, não é.
— Você nem conhece ela.
— Não preciso.
Ele soltou um suspiro, já irritado.
— Isso não faz sentido.
— Faz todo.
— Ela é como uma irmã pra mim.
Isabela soltou uma pequena risada.
— Vocês homens sempre dizem isso.
— Porque é verdade.
— Porque é conveniente.
— Porque é real.
Ela o encarou.
— Você é muito ingénuo.
— E você vê coisas onde não existem.
— Eu vejo pessoas.
— Eu vejo fatos.
Silêncio.
De novo.
Mas dessa vez…
com tensão.
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Algo mudou
— Você ficou incomodada — disse Lucas de repente.
Isabela arregalou os olhos.
— O quê?
— Você.
— Eu não, é só que ela pareceu não ter gostado nada de me ver
— Besteira, você vê coisas onde não existem
— Eu sei muito bem o que eu vejo- disse emburrada
— E isso ti deixa irritadinha?
— Lucas, por favor, menos!
— Quer dizer que a Mel deixou a senhorita, dona da felicidade irritada ?- ele estava se divertindo com aquilo
Ela abriu a boca.
Mas não responde
Isabela desviou o olhar.
— Vamos continuar o trabalho.
Lucas a observou por alguns segundos.
Mas assentiu, voltando a seriedade
— Certo.
Eles voltaram.
Mas…
o clima não era mais o mesmo.
Era mais sério , a Isabela bem humorada tinha ido embora dando espaço a outra, séria e precisa.
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O avanço real
Apesar da tensão, o trabalho avançou.
E dessa vez, de verdade.
— Precisamos de um nome — disse Isabela.
— Ainda não.
— Tudo precisa de nome.
— Primeiro a estrutura.
— Chato.
— Focado.
— Insuportável.
— Eficiente.
Ela sorriu de leve.
— Eu odeio admitir isso… mas és realmente eficiente e com a minha mente brilhante, nosso projeto será o melhor.
Lucas riu da sua convicção, não respondeu.
Mas pensou o mesmo.
Realmente o projeto não estava tão m*l e Isabela não era tão burra e irritante quanto ele imaginou
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Fim do dia
Quando Isabela saiu da casa, o céu já estava começando a escurecer.
Ela entrou no carro.
Ficou parada por alguns segundos.
Em silêncio.
Depois ligou o rádio.
Uma música começou a tocar — “Calm Down” de Rema.
Ela apoiou a cabeça no banco.
— Ele é tão… difícil.
Pausa.
— …e tão diferente, mas só algumas semanas e eu me livro dele
Ela suspirou.
E deu um leve sorriso.
— E ainda tem aquela garota, ela definitivamente não foi com a minha cara... Decidiu deixar esses pensamentos para lá e escutar a música