Lucas acorda com o som do despertador, um tom alto e insistente, quebrando o silêncio pesado da madrugada. Ele já está acordado há algum tempo, mas sempre prefere esperar até o último segundo antes de se levantar. Hoje não seria diferente. A cama é pequena, o colchão já tem o formato do seu corpo, e o quarto, um tanto apertado, está repleto de livros, cadernos e anotações que ele preenche com precisão milimétrica. Não há espaço para distrações.
Ele levanta-se sem fazer barulho, como se fosse uma rotina silenciosa e cronometrada. Não há margem para erros.
O dia começa cedo demais, como sempre. Lucas ainda sente o cansaço nos olhos — noites m*l dormidas, imerso em livros e tarefas. Seu corpo se acostumou a viver assim, com o corpo esgotado e a mente afiada. Ele sabe que o esforço é necessário. Sabe que seu futuro, e o de sua família, depende disso.
Ele desceu as escadas e foi direto para a cozinha. O cheiro de café já estava no ar. Maria, sua mãe, estava lá, de avental, mexendo em uma panela. Ela não era mais jovem, e o tempo parecia se arrastar cada vez mais para ela, que carregava a dor do trabalho duro e da perda. Ela tentava manter o sorriso, mas Lucas sabia que, muitas vezes, o cansaço em seu rosto falava mais alto do que qualquer palavra.
— Bom dia, mãe — disse Lucas, com um sorriso leve, tentando aliviar a tensão que pairava na casa.
Ela olhou para ele, um sorriso tímido surgindo, mas logo se dissipando. Ela sempre tentava esconder o quanto estava cansada, mas Lucas conseguia perceber.
— Bom dia, filho. Já acordou cedo, hein? — Maria comentou, colocando uma xícara de café à sua frente.
— Não poderia ser diferente. Tenho muito para fazer hoje. Vou estudar até mais tarde — respondeu Lucas, pegando o pão que ela havia colocado na mesa.
Maria assentiu, mas seu olhar ficou vagamente distante, como se algo a preocupasse. Lucas sabia o que era. Ela nunca falava sobre isso, mas ele sabia. O salário dela não era o suficiente para cobrir todas as necessidades da casa. E, por mais que ela tentasse não preocupar Lucas com isso, ele sabia que o peso da dívida crescente estava se tornando cada vez mais insuportável.
— Você sabe que pode contar comigo para ajudar com qualquer coisa, né? — Lucas falou, olhando nos olhos dela.
Maria sorriu com tristeza, como se tentasse acalmar o filho.
— Eu sei, Lucas. Mas você não precisa se preocupar com isso. Você tem um futuro brilhante pela frente, só tem que focar nos seus estudos — ela respondeu, tentando disfarçar a preocupação.
Lucas se sentou e começou a comer rapidamente. Ele precisava sair logo. Cada minuto contava. Ele já havia preparado tudo para o dia. Seus livros, cadernos, e também os trabalhos que ele havia aceitado fazer para outros colegas. Ele sabia que isso era essencial para complementar a pouca grana que conseguia. Às vezes, ele explicava algumas matérias para os colegas mais fracos em troca de algum dinheiro extra. Outras vezes, fazia tarefas ou resolvia exercícios para pessoas que estavam muito ocupadas para estudar, ou que simplesmente não se importavam.
O dinheiro nunca era muito, mas era o suficiente para garantir que houvesse algo para pagar as contas no fim do mês.
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De repente, o som da campainha quebrou o silêncio da manhã.
Mel estava ali.
Ele levantou-se rapidamente da mesa e foi até a porta. Mel, sua vizinha, estava sorrindo do lado de fora, segurando uma sacola de papel com algo dentro. Ela sempre fazia isso. Sempre atenciosa, sempre gentil.
— Oi, Lucas! — Ela sorriu, seus olhos brilhando com uma energia contagiante. — Eu preparei uns bolos para você. Pensei que talvez precisasse de algo para o seu dia na faculdade.
Lucas sentiu uma leve pressão no peito. Mel sempre demonstrava essa atenção, algo que ele sempre achava adorável, mas não sabia como lidar. Ela sempre estava lá, trazendo pequenos gestos de carinho e preocupação, e, embora ele fosse grato, havia algo que o impedia de se abrir completamente para ela.
— Mel, você não precisava. — Lucas sorriu timidamente. — Você está sempre se preocupando com isso.
— Não é nada, Lucas. Eu sei que você tem muito trabalho e estudo pela frente. Achei que poderia te ajudar um pouco, sabe? — Ela estendeu a sacola para ele. — Aqui, é só um lanche para o seu dia. Eu sei que você vai ficar por aí o dia todo, então pensei em te dar um pouco de energia.
Lucas pegou a sacola com um suspiro, um pouco incomodado por sentir que Mel gostava mais dele do que ele gostaria de admitir. Era um carinho sincero, mas ele não sabia se estava pronto para corresponder da maneira que ela queria. Ele gostava dela, mas de uma forma mais fraternal.
— Obrigado, Mel. Você sempre me lembra dessas coisas, viu? — Lucas sentiu um pequeno aperto no peito ao perceber o carinho dela. Ele nunca soubera o que responder. O que ele sentia por ela era algo que ele não sabia como lidar, especialmente com tantos outros problemas na cabeça.
Ela sorriu mais uma vez, um sorriso suave que quase o fez querer dizer algo mais. Mas ele sabia que não podia. Havia uma linha tênue entre o que ele queria ser para ela e o que ela queria dele.
— De nada, Lucas. Boa sorte no seu dia. — Ela disse com a voz baixa, como se realmente desejasse que ele se saísse bem.
Lucas a observou por um momento. Mel sempre acreditou nele, mais do que ele acreditava em si mesmo. Aquilo era uma pressão silenciosa, mas ele não sabia se estava pronto para corresponder à altura.
— Obrigado , Mel. — Ele sorriu e fechou a porta.
Enquanto caminhava de volta para a mesa, a sacola de bolos nas mãos, Lucas sentiu uma sensação estranha, como se um novo peso tivesse sido colocado sobre ele. Ele tinha a sensação de que, de alguma forma, ele não estava sendo honesto consigo mesmo sobre o que sentia, mas a sua mente estava muito ocupada para dar atenção a isso.
Lucas pegou a sacola e se apressou para sair. A faculdade estava logo ali, e ele ainda tinha uma longa jornada pela frente. A última coisa que ele queria era perder tempo com questões emocionais. O que ele precisava agora era se concentrar no que estava à sua frente.
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O caminho até o ponto de ônibus foi rápido, mas, enquanto o trajeto se estendia pela cidade, Lucas não conseguia tirar a imagem de Mel da cabeça. Ela estava sempre lá, sempre fazendo mais por ele do que ele podia retribuir. Mas ele não tinha tempo para pensar nisso agora.
O ônibus estava lotado como sempre. Os estudantes pareciam apressados, cada um com seu próprio fardo, mas Lucas não se importava com isso. Seu pensamento estava focado no futuro — o futuro que ele estava criando para si e para sua família.
Ao chegar à faculdade, ele desceu apressado, os livros e a sacola de bolos em mãos. Enquanto caminhava pelos corredores, os murmúrios e risos de outros estudantes começavam a desaparecer, à medida que ele se concentrava no seu objetivo.
E então, ao entrar no prédio da universidade, ele ouviu uma conversa que fez sua mente imediatamente começar a trabalhar.
— Eu ouvi dizer que a faculdade está oferecendo um projeto interdisciplinar. O prêmio? Um estágio remunerado e um valor considerável em dinheiro. Parece que quem conseguir fazer um bom trabalho vai se sair bem — uma voz comentou com entusiasmo.
Lucas parou por um momento, pensando na possibilidade. O estágio seria uma chance real de melhorar sua situação financeira e, talvez, até garantir um futuro melhor para sua família. E o dinheiro... bem, dinheiro sempre foi uma necessidade, mas nunca algo garantido para ele.
— Dinheiro é sempre bem-vindo, não é? — outro estudante comentou, com um sorriso. — E o estágio pode abrir muitas portas.
Lucas sentiu uma onda de motivação. O projeto parecia ser a oportunidade que ele esperava. Ele sabia que, se conseguisse se destacar ali, isso poderia mudar tudo.
Com o lanche de Mel nas mãos e a ideia do estágio rondando sua mente, Lucas sentiu que aquele poderia ser o momento que ele tanto esperava.
Ele precisava agarrar essa chance.