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1204 Words
Lucas acorda com o som do despertador, um tom alto e insistente, quebrando o silêncio pesado da madrugada. Ele já está acordado há algum tempo, mas sempre prefere esperar até o último segundo antes de se levantar. Hoje não seria diferente. A cama é pequena, o colchão já tem o formato do seu corpo, e o quarto, um tanto apertado, está repleto de livros, cadernos e anotações que ele preenche com precisão milimétrica. Não há espaço para distrações. Ele levanta-se sem fazer barulho, como se fosse uma rotina silenciosa e cronometrada. Não há margem para erros. O dia começa cedo demais, como sempre. Lucas ainda sente o cansaço nos olhos — noites m*l dormidas, imerso em livros e tarefas. Seu corpo se acostumou a viver assim, com o corpo esgotado e a mente afiada. Ele sabe que o esforço é necessário. Sabe que seu futuro, e o de sua família, depende disso. Ele não tem tempo para fraquejar. --- Lucas é o mais velho de quatro filhos, e a responsabilidade nunca foi algo que ele pudesse evitar. A morte do pai, há três anos, colocou sobre seus ombros o peso de cuidar de uma casa que, antes, parecia apenas uma representação simples de uma família comum. Agora, era o seu mundo. Sua mãe, Maria, trabalhava como empregada doméstica, fazendo o possível para dar conta das contas da casa. Seus irmãos mais novos, Bruna, Júlio, e Ricardo, ainda estavam tentando encontrar seus caminhos. Júlio, o do meio, era aquele típico adolescente rebelde, e Ricardo, o mais novo, ainda precisava de cuidados especiais — um menino de 9 anos com deficiência cognitiva, que exigia atenção constante. Para Lucas, a frase que mais ecoava em sua mente era: "Eu não posso falhar." Ele sabia que não podia falhar. Não podia decepcionar sua mãe, não podia decepcionar os irmãos. Eles dependiam dele. Ele desceu as escadas e foi direto para a cozinha. O cheiro de café já estava no ar. Maria, sua mãe, estava lá, de avental, mexendo em uma panela. Ela não era mais jovem, e o tempo parecia se arrastar cada vez mais para ela, que carregava a dor do trabalho duro e da perda. Ela tentava manter o sorriso, mas Lucas sabia que, muitas vezes, o cansaço em seu rosto falava mais alto do que qualquer palavra. — Bom dia, mãe — disse Lucas, com um sorriso leve, tentando aliviar a tensão que pairava na casa. Ela olhou para ele, um sorriso tímido surgindo, mas logo se dissipando. Ela sempre tentava esconder o quanto estava cansada, mas Lucas conseguia perceber. — Bom dia, filho. Já acordou cedo, hein? — Maria comentou, colocando uma xícara de café à sua frente. — Não poderia ser diferente. Tenho muito para fazer hoje. Vou estudar até mais tarde — respondeu Lucas, pegando o pão que ela havia colocado na mesa. Maria assentiu, mas seu olhar ficou vagamente distante, como se algo a preocupasse. Lucas sabia o que era. Ela nunca falava sobre isso, mas ele sabia. O salário dela não era o suficiente para cobrir todas as necessidades da casa. E, por mais que ela tentasse não preocupar Lucas com isso, ele sabia que o peso da dívida crescente estava se tornando cada vez mais insuportável. — Você sabe que pode contar comigo para ajudar com qualquer coisa, né? — Lucas falou, olhando nos olhos dela. Maria sorriu com tristeza, como se tentasse acalmar o filho. — Eu sei, Lucas. Mas você não precisa se preocupar com isso. Você tem um futuro brilhante pela frente, só tem que focar nos seus estudos — ela respondeu, tentando disfarçar a preocupação. Lucas se sentou e começou a comer rapidamente. Ele precisava sair logo. Cada minuto contava. Ele já havia preparado tudo para o dia. Seus livros, cadernos, e também os trabalhos que ele havia aceitado fazer para outros colegas. Ele sabia que isso era essencial para complementar a pouca grana que conseguia. Às vezes, ele explicava algumas matérias para os colegas mais fracos em troca de algum dinheiro extra. Outras vezes, fazia tarefas ou resolvia exercícios para pessoas que estavam muito ocupadas para estudar, ou que simplesmente não se importavam. O dinheiro nunca era muito, mas era o suficiente para garantir que houvesse algo para pagar as contas no fim do mês. Lucas sabia que o tempo não era amigo de ninguém, e ele precisava fazer mais. Não podia simplesmente ser mais um aluno na universidade. Ele tinha que ser o melhor, não apenas por ele, mas por todos aqueles que contavam com ele. --- O caminho até a universidade era sempre o mesmo. Ele pegava o transporte público, um ônibus lotado e barulhento, onde o cheiro de suor e a pressa dos passageiros criavam um cenário de agitação e desconforto. Mas, para Lucas, isso era apenas uma parte do processo. Ele estava acostumado. Nada ali o afetava mais do que o que ele deixava para trás — sua casa, sua mãe e seus irmãos. As dificuldades que ele enfrentava todos os dias eram apenas mais um lembrete de que ele precisava se sair bem. Chegando à universidade, ele caminhou pelos corredores lotados, os passos firmes e rápidos, ignorando as conversas e as risadas ao seu redor. A universidade era seu refúgio, mas também sua prisão. Ele estava lá, sim, para estudar. Mas a pressão de ser o primeiro de sua família a conseguir uma educação superior, a de tirar a família da pobreza, o fazia sentir que estava sempre em dívida com o mundo. — Lucas! — alguém o chamou, interrompendo seus pensamentos. Era João, um colega de classe. Ele estava segurando um caderno aberto, cheio de anotações. — Você pode me ajudar com esses exercícios? Não consigo entender essa parte aqui — João disse, apontando para uma das equações. Lucas olhou para o caderno. A equação era simples, mas João parecia ter dificuldades. Lucas não hesitou. — Claro, deixa eu dar uma olhada — ele respondeu, pegando o caderno e começando a explicar calmamente. Era isso o que ele fazia: ajudava os outros a entenderem, porque, para ele, a inteligência não era apenas uma ferramenta para se destacar, mas uma responsabilidade. Ele sabia que ajudar os outros significava também garantir algum dinheiro extra, e isso fazia toda a diferença para ele e para sua família. --- O dia foi longo, como sempre. Entre aulas, explicações e trabalhos, Lucas m*l teve tempo para respirar. Quando a tarde finalmente chegou, ele se dirigiu para a biblioteca. Lá, ele estudava com mais afinco, organizando suas notas, resolvendo mais exercícios e criando planos para o futuro. Ele não podia errar. Em casa, Maria já estava de volta do trabalho, exausta. As noites dela eram longas, e Lucas sentia o peso de cada um dos seus passos. Ela estava sempre sorrindo para ele, mas ele sabia que havia algo mais por trás daquele sorriso. Ela não queria que ele visse o quanto ela sofria, o quanto ela temia pelo futuro da família. Mas ele via. E isso era o suficiente para ele. --- Naquela noite, Lucas estudava mais uma vez para um exame crucial, ele tinha uma missão. E essa missão, acima de tudo, exigia que ele fosse forte. Porque ele não poderia falhar.
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