A Servida

1406 Words
POV: Daphne ​Há um tipo de silêncio que não acalma, mas sufoca. É o silêncio que antecede o bote. ​Enquanto o elevador privativo subia em direção à cobertura da Alencar Holdings, meus próprios batimentos cardíacos ecoavam nos meus ouvidos como uma marcha fúnebre. Olhei para o reflexo no espelho de metal polido. O vestido de seda vermelha que me forçaram a usar parecia uma piada de mau gosto — a cor do sangue que minha família derramaria se eu desse um único passo em falso. ​Eu não era mais uma pessoa. A partir desta noite, eu era uma Servida. Um pedaço de carne jogado aos leões para manter uma trégua que nenhum daqueles monstros realmente queria. ​As portas se abriram com um bipe suave. O andar inteiro exalava poder e dinheiro. Chão de mármore escuro, obras de arte minimalistas e janelas imensas que iam do chão ao teto, revelando a tempestade violenta que lavava a cidade lá fora. Mas o que realmente me fez parar foram os cheiros. O ar ali em cima era denso, carregado de uma eletricidade estática que arrepiou cada pelo do meu corpo. ​— Ande, Daphne. Eles não gostam de esperar — a voz de Gideon, o chefe de segurança, surgiu atrás de mim. Seu tom era firme, mas havia uma nota de aviso ali. Ele sabia o que estava prestes a acontecer. ​Dei o primeiro passo para dentro da sala de reuniões. ​O espaço era dominado por uma enorme mesa de carvalho escuro. Sentado a ela, organizando papéis com uma calma cirúrgica, estava Daniel, o auditor da matilha. Mas ele era apenas o cenário de fundo. O verdadeiro perigo estava nas duas figuras que controlavam a sala. ​À esquerda, perto do vidro açoitado pela chuva, estava Gabriel Alencar. O terno sob medida parecia uma armadura nele. Postura impecável, ombros largos, as mãos nos bolsos e um perfil que parecia esculpido em gelo. Ele era a ordem, o cálculo, o Alfa que comandava um império legítimo sem nunca sujar as mãos de terra — apenas de sangue. ​À direita, jogado de forma insolente em uma das cadeiras de couro, estava Malakai Rostov. A antítese de Gabriel. As mangas da camisa preta estavam dobradas, revelando as tatuagens escuras que subiam pelos seus braços e sumiam sob o colarinho entreaberto. Ele girava um copo de uísque com os dedos, um sorriso cínico desenhado nos lábios, mas seus olhos... seus olhos eram puro caos. ​Quando dei o segundo passo para dentro da sala, o tempo simplesmente parou. ​Gabriel virou a cabeça devagar. No segundo em que seus olhos escuros cruzaram com os meus, o ar sumiu dos meus pulmões. Vi o exato momento em que suas pupilas se dilataram, engolindo a cor dos seus olhos. Um calafrio violento subiu pela minha espinha. ​Ao mesmo tempo, o barulho do copo de Malakai batendo contra a mesa estalou no ambiente. Ele ficou de pé em um movimento tão rápido e fluido que meu cérebro m*l conseguiu acompanhar. O sorriso cínico dele desapareceu instantaneamente, substituído por uma expressão de fome tão crua e predatória que me fez recuar instintivamente contra a porta. ​O cheiro na sala mudou. Não era mais apenas uísque e perfume caro. Era testosterona, posse e o rosnado abafado de dois lobos que acabavam de encontrar algo que queriam arrancar do mundo. ​ POV: Gabriel Alencar ​Eu passei os últimos dez anos da minha vida construindo paredes. Paredes de lógica, de contratos, de controle absoluto. Uma matilha não sobrevive no mundo moderno se for governada por impulsos selvagens; ela sobrevive se for governada como uma corporação de elite. O tratado com os Rostov era estritamente comercial. Uma divisão de território necessária para evitar que as ruas da cidade virassem um necrotério. ​A garota era apenas a assinatura no final da página. O tributo. ​Mas no segundo em que a porta se abriu e o cheiro dela atingiu o meu nariz, todas as minhas malditas paredes desmoronaram. ​Jasmim. Baunilha selvagem. E algo mais profundo, algo puramente ancestral que atingiu o meu lobo interior como uma descarga elétrica direta no coração. Meu peito inflou. Uma queimação violenta subiu pela minha garganta e eu precisei cravar as unhas nas palmas das minhas mãos, dentro dos bolsos, para não rasgar o terno e reivindicá-la ali mesmo, na frente de todos. ​Minha. O lobo rosnou na base do meu crânio, arranhando a minha consciência com uma força que eu nunca tinha sentido antes. Nossa. ​Olhei para ela. Ela estava assustada, os lábios entreabertos, a pele clara contrastando de forma obscena com o vestido vermelho. O tecido colava nas curvas dela de um jeito que me fez querer matar o estilista que o desenhou. Ela era perfeita. E ela estava no meu território. ​Mas o estalo da cadeira de couro do outro lado da sala me trouxe de volta à realidade perigosa. ​Malakai estava de pé. A postura dele mudou da arrogância de sempre para a rigidez de um predador pronto para saltar. Seus olhos, normalmente cinzentos e debochados, agora brilhavam com um tom dourado doentio. Ele estava farejando o ar. Ele estava farejando a minha fêmea. ​Uma fúria possessiva, preta e sufocante, subiu pelos meus pulmões. Dei um passo à frente, colocando meu corpo de forma milimétrica entre a linha de visão de Malakai e Daphne. O ar entre nós ficou tão pesado que Daniel, na ponta da mesa, parou de mexer nos papéis. O silêncio na sala agora era um campo minado. ​— O que significa isso, Daniel? — minha voz saiu mais baixa do que o normal, um rosnado áspero que arranhou o fundo da minha garganta, os dentes de trás travados. — O cheiro dela... Isso não estava no relatório médico da linhagem dela. ​Eu queria respostas, mas o que eu realmente queria era mandar Gideon tirar todos daquela sala para que eu pudesse trancar a porta e ensinar àquela garota a quem ela pertencia. ​ POV: Malakai Rostov ​Eles acham que eu sou o problema. Gabriel Alencar me olha do topo do seu império de vidro e terno de grife achando que eu sou apenas o lobo da rua que não sabe seguir regras. Mas a verdade é que eu vejo o mundo exatamente como ele é: um lugar de dentes e garras, onde o mais forte pega o que quer. E eu sempre pego o que eu quero. ​Eu vim para esta reunião entediado, pronto para assinar mais um acordo de paz de merda que nós dois provavelmente quebraríamos em seis meses. ​Então, ela entrou. ​O cheiro dela não apenas entrou pelas minhas narinas; ele queimou o meu sangue. Foi como se alguém tivesse jogado gasolina pura no meu lobo. Fiquei de pé antes mesmo de processar o comando. Meus olhos se fixaram na curva do pescoço dela, bem onde a artéria pulsava rápido, cheia de pânico. Minhas garras ameaçaram romper a ponta dos meus dedos. ​Aquela garota não era um tributo de paz. Ela era um gatilho para uma guerra. ​Vi o engomado do Alencar dar um passo à frente, tentando escondê-la de mim. Um rosnado baixo, vibrante, subiu pelo meu peito. O territorialismo dele acendeu o meu. Quem ele achava que era? Ele achava que podia esconder aquela preciosidade de mim? ​— Ela é a garantia de ambos, Gabriel — interrompi, dando a volta na mesa de mogno com passos lentos, felinos, medindo cada centímetro de reação dele. Minha voz saiu rouca, arrastada pelo instinto que tentava assumir o controle. — O contrato que o seu auditor de estimação escreveu diz muito claramente: o tributo serve ao território unificado. Ela serve a nós dois. ​Fiquei a menos de dois metros de Gabriel. Dava para ouvir a respiração acelerada de Daphne atrás dele. O cheiro dela estava me deixando louco, me fazendo querer empurrar o Alencar pela janela de vidro e cravar meus dentes na pele dela até deixá-la marcada como minha. ​Olhei fixamente nos olhos de Gabriel, vendo o reflexo dourado nos olhos dele. Ele queria me matar. E eu queria que ele tentasse. ​— Vamos ver — continuei, soltando um sorriso sombrio, os olhos descendo para o corpo de Daphne que tremia de leve — se o seu terno caro aguenta o tranco quando dividirmos o mesmo prêmio.
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