Capítulo Dez — A Calmaria Antes da Tempestade

1384 Words
Sophia Eu não acreditava que estava ali sozinha numa cabana com um estranho absurdamente lindo e estranhamente familiar. Gabriel! Não me lembro de conhecê-lo, mas ele me parece muito familiar. Estou vivendo o pior momento de minha vida e, do nada, me deparo com esse homem imponente, olhar penetrante, frio e misterioso. Me vi tão vulnerável e segura nos braços dele que não resisti em permiti-lo me pegar nos braços e conduzir até seu carro e, consequentemente, até esse lugar lindo, aconchegante e calmo. E calmaria é tudo o que eu precisava para colocar minha mente no lugar, administrar meus sentimentos e pensar nos próximos passos. Fui traída por meu noivo, mas pior que isso, fui traída por minha família. E isso tornava tudo mais doloroso. Eu estava envolvida nos principais projetos da Foster e preciso pensar em como vou seguir de agora em diante. Mas, por ora, só consigo sentir o peso do cansaço, da humilhação e da solidão. O silêncio da cabana é quase reconfortante. O cheiro de madeira, o calor da lareira, o som da chuva batendo no telhado — tudo parece me embalar, como se dissesse que, por algumas horas, eu poderia simplesmente existir, sem precisar ser forte, sem precisar fingir que está tudo bem. Gabriel me observa de longe, respeitando meu espaço. Sinto seu olhar, mas não me sinto ameaçada. Pelo contrário, há algo nele que me transmite segurança, como se ele entendesse exatamente o que é estar quebrado por dentro. O cheiro de chá e pão fresco me traz de volta à realidade. Estou ali, numa cabana desconhecida, com um homem que parece saído de um sonho — ou de um pesadelo. Imponente, misterioso, com um olhar que parece atravessar minha alma. Não sei seu nome, mas sinto que já o conheço de algum lugar. Talvez de outra vida, talvez de algum momento esquecido. Minha mente está um caos. Fui traída pelo noivo, pela melhor amiga, pela família. Tudo o que eu acreditava, tudo o que eu construí, desmoronou de uma vez. E agora, diante desse estranho, sinto uma mistura de medo e segurança. É como se o universo tivesse me jogado ali para me obrigar a encarar meus próprios demônios. — Você mora aqui? — pergunto, tentando quebrar o gelo. Ele balança a cabeça. — Não. Comprei esta cabana há pouco tempo. Vim para descansar, fugir do mundo por uns dias. — Fugir do mundo... — repito, sentindo o peso das palavras. — Acho que é exatamente o que estou tentando fazer. Ele me olha com atenção, como se tentasse decifrar cada nuance do meu rosto. — Às vezes, fugir é necessário. Mas, cedo ou tarde, o mundo nos encontra. Suspiro, sentindo as lágrimas ameaçarem voltar. — O mundo pode esperar. Preciso de um tempo para entender quem sou agora. Gabriel Entendo perfeitamente o que ela diz. Fugir é minha especialidade. Fugi do passado, dos sentimentos, das pessoas. Fugi até de mim mesmo. Mas, ali, diante daquela mulher, sinto que talvez seja hora de parar de correr. — Se quiser conversar, estou aqui — digo, tentando soar menos frio do que de costume. Ela hesita, mas acaba cedendo. — Não sei se consigo. Ainda dói demais. — Não precisa se forçar. Às vezes, o silêncio é tudo o que precisamos. Ela sorri, um sorriso triste, mas agradecido. — Você é diferente. — Diferente como? — Não sei. Só... diferente. O silêncio volta, mas dessa vez é confortável. Ficamos ali, cada um mergulhado em seus próprios pensamentos, ouvindo o som da chuva e do fogo. Sophia Depois do café, tomo um banho quente e visto as roupas que ele havia deixado para mim. O vestido branco de algodão é simples, mas confortável. Sinto-me outra pessoa, como se pudesse recomeçar dali, naquele instante. Quando volto para a sala, ele está sentado diante da lareira, lendo um livro. Sento-me ao seu lado, sem dizer nada. Ficamos assim por um tempo, até que ele fecha o livro e me olha. — Vai ficar tudo bem — diz, com uma convicção que me surpreende. — Você acredita nisso? — Preciso acreditar. É o que me mantém vivo. — E se não ficar? Ele sorri, um sorriso triste. — Então a gente aprende a sobreviver. A conversa é simples, mas carregada de significado. Sinto que estou à beira do abismo, assim como ele já esteve tantas vezes. Quero confiar, mas não sei se sou capaz. — O que você faz? — pergunto, curiosa. Ele hesita, pensa por alguns segundos. — Trabalho com tecnologia. Projetos grandes, muita responsabilidade. — Imagino que seja difícil. — É. Mas, ultimamente, tudo parece pequeno diante do que aconteceu. — O que aconteceu? Ele me olha, os olhos brilhando de dor. — Fui traído. Por quem mais confiava. Perdi tudo de uma vez. Sinto um aperto no peito. Sei exatamente como é perder tudo. Sei como é ser traída por quem mais confiava. — Sinto muito. Ele sorri, um sorriso amargo. — Não precisa sentir. Só preciso aprender a lidar. A sinceridade dele me toca. É raro encontrar alguém que não tente minimizar minha dor, que não venha com frases feitas ou conselhos vazios. Ele apenas ouve, e isso é tudo o que eu preciso. — E você? — ele pergunta, querendo saber mais sobre mim. Hesito, pondero o quanto devo revelar. — Também trabalho com tecnologia. Projetos, investimentos, viagens. Nada muito interessante. — Não parece ser só isso. Rio, um som breve. — Talvez não seja. Mas, por enquanto, é tudo o que posso dizer. O mistério entre nós é quase palpável. Sinto que há algo mais, algo que nos conecta além daquele encontro improvável. Gabriel O tempo passa devagar. Conversamos sobre coisas banais, sobre o clima, sobre livros, sobre música. Evitamos falar de nomes, de empresas, de famílias. É como se ambos soubessem que o anonimato é necessário, que revelar demais poderia estragar aquele momento de paz. Mas, por trás da calma, há uma tensão crescente. Sinto que ela quer mais do que consolo. Sinto que, assim como eu, ela precisa de uma resposta, de uma saída para a dor. — Você já pensou em se vingar? — pergunto, quase sem querer. Ela me olha, surpresa. — Vingança? — Sim. Às vezes, a única forma de seguir em frente é fazer justiça com as próprias mãos. Ela fica em silêncio, ponderando. — Não sei. Nunca fui vingativa. Mas, agora... agora tudo parece diferente. — A dor muda as pessoas. — E você? Já se vingou de alguém? Sorrio, lembrando de tudo o que passei. — Já pensei. Mas nunca tive coragem. Talvez porque, no fundo, eu ainda acreditava que as pessoas podiam mudar. — E agora? — Agora, não acredito mais. A conversa sobre vingança me assusta, mas também me atrai. Quero justiça. Quero que todos que me machucaram sintam o mesmo que estou sentindo. Mas, ao mesmo tempo, tenho medo de me perder nesse caminho. — Não sei se sou capaz — digo, sincera. — Ninguém sabe até tentar. O silêncio volta, mas dessa vez é carregado de possibilidades. Sinto que, juntos, poderíamos fazer algo grande. Algo que mudasse tudo. A noite cai, e a chuva aumenta. Ele prepara o jantar, uma sopa quente e pão fresco. Comemos em silêncio, cada um mergulhado em seus próprios planos. Sei que ele está pensando em vingança, assim como eu. Sei que, de alguma forma, nossos destinos estão entrelaçados. Depois do jantar, sentamos diante da lareira. Me aproximo, encosto a cabeça no ombro dele. Ele me abraça, sentindo o calor do meu corpo contra o dele. É um gesto simples, mas carregado de significado. — Obrigada — murmuro. — Por quê? — Por me deixar sentir que ainda posso confiar em alguém. — Não sei se sou digno de confiança. — Ninguém é. Mas, por enquanto, você é tudo o que eu tenho. O abraço dele é firme, seguro. Sinto que posso me entregar, que posso deixar a dor sair. Choro, e ele apenas me segura, sem dizer nada. É tudo o que eu preciso. — Você vai me ajudar? — pergunto, quase num sussurro. — A fazer o quê? — A mostrar para todos que não podem me destruir. Ele sorri, um sorriso sombrio. — Vou ajudar. Mas, antes, precisamos planejar. — Planejar o quê? — A vingança.
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