Sophia
Saio da Foster Technological Solution totalmente desnorteada. Minha mente não encontra lógica para o que está acontecendo. Onde isso começou? Como puderam ser tão sórdidos e insensíveis? Como o homem a quem amei sem nenhum limite me traiu com a minha melhor amiga? E meus pais? Como eles se envolveram nisso? Como puderam-me trair de uma maneira tão suja?
Em meio a esse mar de perguntas, saio do edifício onde fica a Foster e resolvo andar pelas ruas de San Francisco. Não tenho destino. Não estou em condições de dirigir. Quero apenas sair de perto de tudo que me lembra dos escombros em que se tornou a minha vida.
Eu e Emily somos amigas desde sempre. As nossas famílias convivem no mesmo ciclo social. Temos praticamente a mesma idade — sou dois anos mais velha que ela. Sua mãe faleceu quando ela nasceu, e seu pai, Sr. Dimas Backstreet, a criou sozinho. Por sermos muito próximos, minha mãe o ajudou a criá-la. Eu a tinha como uma irmã. Sempre nos demos muito bem, e isso sempre foi motivo de ciúmes da Maya, que muitas vezes dizia que eu preferia a Emily a ela... Agora me sinto até envergonhada diante da minha irmã de sangue. Maya sempre tentou me alertar sobre o quanto eu confiava demais na Emily. E esse sumiço dela? Será que a Maya também sabia do que estava acontecendo e nunca me contou? Seria esse o motivo da irritação dela durante a nossa reunião na última sexta?
Caminhei por muito tempo pelas ruas e avenidas de San Francisco, até perceber que estava próxima ao Twin Peaks. Um dos pontos mais altos da cidade, com vista panorâmica e cercado por trechos abertos. O local era conhecido por seu silêncio — e eu precisava de silêncio para ouvir os gritos que estavam dentro de mim.
Parei ali, no mirante. Era um lugar elevado, onde se podia ter uma vista ampla da cidade. A chuva começou a cair. Fiquei próxima ao parapeito e deixei que as minhas emoções aflorassem, se libertassem. Chorei compulsivamente.
Não estava preparada, tampouco esperava viver algo tão avassalador. Como pude ser tão cega e não ter visto nada disso chegar? Imaginar que todas as pessoas a quem eu amava e confiava estavam me traindo pelas costas. Toda a minha vida estive cercada por eles. Tudo na minha vida envolve a presença deles. Como poderei agora voltar a conviver com cada uma daquelas pessoas sem sentir um amargo na boca e um embrulho no estômago?
Agora me pergunto se a cisma que a Maya tinha com o Simon tinha a ver com isso. Será que ela sabia de algo e nunca me contou? Como ela pôde esconder isso de mim? Sinto-me tão vazia e tão cheia ao mesmo tempo. Tudo isso inundou a minha mente, mas, ao mesmo tempo esvaziou a minha vida.
Como irei prosseguir? Meu trabalho, minha carreira. Toda a minha vida gira em torno da Foster, e meu pai é o sócio maioritário. Simon é um dos diretores, e Emily é filha de um dos sócios, assim como Simon. E não posso esquecer que minha irmã é minha assessora pessoal. Só preciso saber até que ponto ela também está envolvida nessa sujeira.
— Deus! O que vou fazer da minha vida agora? — sussurro, ainda em prantos.
Me deixo levar pela dor, permitindo que as lágrimas rolem sem contenção. Porque, depois que eu chorar tudo o que precisar, será necessário continuar. Só ainda não sei como. Mas não vou permitir que me destruam. Nunca.
Deixei a dor sair. Chorei como nunca havia chorado antes. O meu corpo sentia toda a dor da minha alma. A chuva molhava meus cabelos, minhas roupas estavam ensopadas. Eu não usava casaco e nem me dei conta de que a noite havia caído. Devia já ser bem tarde, e eu não fazia ideia de onde ir. Não queria voltar para aquele apartamento onde vivi com Simon por tanto tempo. Onde passamos muitos momentos juntos, inclusive na companhia da Emy. Ela é... quero dizer: era minha melhor amiga.
A chuva ficou mais forte. Não posso passar a noite aqui, mas também não quero ir a nenhum lugar onde eles possam me encontrar.
O vento sopra forte e um frio percorre meu corpo. Sinto-me desequilibrar e penso que estou prestes a cair. Estou muito próxima ao muro que faz barreira para evitar o abismo. É uma mureta baixa, e eu estava escorada nela.
Sinto mãos firmes me segurarem e sou puxada para trás. Alguém me segura forte e eu, levada pelo susto, me permito ser abraçada. Deixo mais uma vez o choro fluir. Será que esse pesadelo nunca vai acabar?
O meu rosto está colado ao peito de alguém — grande, forte e absurdamente cheiroso. Ele me abraça com tanto cuidado, e isso me faz sentir tão segura. Quero olhar para ele, mas não consigo. Estou com tanta vergonha.
Gabriel
Desembarquei em San Francisco e fui direto para as instalações da holding para verificar as reformas. Queria adiantar tudo: reuniões, visitas às obras e o que fosse necessário para que eu pudesse passar o resto do tempo na minha cabana. Sem telefone, sem internet. Sozinho.
Aluguei um carro para facilitar meu deslocamento até Twin Peaks. Uma forte chuva começou a cair. Havia pedido que limpassem a cabana e deixassem suprimentos necessários para que eu não precisasse me deslocar a lugar algum. Quero me desligar do mundo. Ficar eu e a minha companhia.
Ao passar pelo Mirante Twin Peaks, algo me chamou a atenção. Freio bruscamente o Audi A8 Sedan que dirijo. Desço devagar, olhando para a borda que dá para o abismo. Vejo uma mulher. Meu coração acelera, e eu até entendo o porquê. E... não pode ser! Esses cabelos de fogo, a pele clara, o corpo esguio. É ela. A garota do bar em Londres. O que ela faz aqui?
Me aproximo com passos lentos e cuidadosos. Não sei qual a intenção dela ali, tão perto da borda. Percebo que está chorando. O rosto está marcado por lágrimas incessantes, as bochechas úmidas e avermelhadas. Os olhos inchados parecem perder o brilho, transmitindo um cansaço profundo e uma dor silenciosa. Os lábios tremem, às vezes entreabertos em soluços contidos, enquanto o peito sobe e desce em respirações irregulares.
A suas mãos apertam os braços, numa tentativa de se proteger do impacto da tristeza. Os ombros curvados denunciam o peso da dor, e a postura retraída revela alguém tentando se recolher dentro de si, buscando forças para suportar algo que a magoa profundamente.
Por algum motivo, me comovi com a sua dor. Me aproximei e percebi que ela não havia me notado. O vento sopra forte e a vejo desequilibrar-se. Num impulso, a puxo para os meus braços.
Eu a abraço forte. Seu choro, antes contido, agora se deixa fluir, e o meu coração fica ainda mais apertado, doído por vê-la assim. O que pode ter acontecido para deixá-la tão vulnerável?
A sua pele está fria, as roupas encharcadas. Não posso deixá-la aqui, sozinha nesse estado. Ela se agarra a mim, o seu rosto colado ao meu peito, e chora compulsivamente.
Tomo uma decisão. A pego nos braços e a levo até o meu carro. O seu corpo é leve, mas firme. Com dificuldade, consigo abrir a porta do lado do passageiro e a coloco no banco, ajustando o cinto de segurança. Ela não resiste. Se deixa levar, cabeça baixa, olhando para o chão do carro. Fecho a porta e sigo para o volante. Estou todo encharcado também, mas isso agora é o de menos. Só precisamos sair dessa chuva.
Enquanto dirijo em silêncio pelas curvas molhadas de Twin Peaks, percebo que o destino me trouxe até ela — não por acaso, mas por urgência. Há dores que não se enfrentam sozinhas, e talvez, por mais improvável que pareça, eu seja o abrigo que ela precisa esta noite. E ela, sem saber, pode ser o que faltava para me fazer querer ficar.