Capítulo 5

1981 Words
O silêncio entre nós era como uma grande elefante azul sentado no meio da sala, assistindo cada um dos nossos movimentos pausados e cheios de suspeita um do outro, ainda que esse receio vindo dele não fizesse qualquer sentido. Jonathan era cerca de quinze centímetros mais alto que eu, seu porte físico definitivamente não entregava sua profissão e aquilo talvez fosse algo digno de ser levado em consideração em minhas pesquisas. Ele não tinha nada a temer estando em seu próprio território e ainda assim: — Caso você tente correr no meio da noite para falar com seu pai, as portas estão trancadas. — ele alertou, seu tom de voz m*l se alterava quando ele me ameaçava e me deixava abertamente em cárcere privado naquele muquifo, mas seu olhos pareciam envergonhados de alcançar os meus naquele momento. — Você é mais sujo que o meu dinheiro. — cuspi o que já estava martelando em minha mente há muito. Que tipo de moralidade ele julgava ter depois de fazer tudo aquilo? — Se eu não o tivesse matado, você o deixaria me levar com ele? Inconsciente? Ou pior, deixaria que ele me matasse como você disse que acha que ele o faria? Ele parecia pensativo do outro lado do sofá de canto. A cabeça apoiada em sua mão e seu cotovelo no braço do sofá como um verdadeiro intelectual. Ele até que se passava para alguém que dificilmente havia terminado o médio: — Não seria meu problema. — ele respondeu por mim, ainda sem me olhar. — Mas eu iria tentar ajudar de alguma forma se fosse possível. — Você está mentindo. — soltei uma gargalhada sarcástica — m*l consegue me olhar enquanto mente. Você adorou me ver naquela situação, você é nojento. — Você iria me ajudar se fosse o inverso, Isabela? — rebateu — Você já ajudou qualquer um que não fosse a si própria na vida? Aposto que não, então considere isso um ato de reciprocidade. — Então esse é o bom moço que me julga. — ri — me poupe. Você realmente tem uma mãe? — Ela morreu há alguns meses. — ele admitiu cabisbaixo. — É difícil de assimilar que ela não está mais aqui, eu não menti lá de propósito. — E ela estava realmente doente? — Muito. Naquela época, eu realmente teria te sequestrado por dinheiro. Infelizmente não tive a sorte de derrubar vinho em uma patricinha m*l-educada mais cedo. — um sorrisinho provocador brotou no canto de seus lábios que pareciam estar sempre naturalmente corados. — Eu já fui ao Grace outras vezes. Você teve suas chances. — dei de ombros. — E eu não fazia mínima ideia de quem você era até então. Sinceramente, você usava tantas coisas da Louis Vuitton que até pareciam ser falsificadas. — ele riu mostrando os dentes brancos como o tapete sob seus pés. — Ninguém usa tantas coisas de marca juntas fora do tapete vermelho. — Não me diga que você me confundiu, logo eu, com alguma dessas garotas que vai a Piazza fingindo ser da alta sociedade! — exclamei revoltada. O que em mim poderia dar tal impressão? — Isso sim eu consideraria ofensivo o suficiente para chamar a CIA para se livrar de você. Ele deu uma risadinha um pouco envergonhada. — Foi exatamente o que achei que você fosse. —  falou entre risos. — Vou te deixar dormir com isso. Jonathan se levantou e cruzou a sala até mim, do outro lado do sofá com uma caixa de pizza vazia ao meu lado, apenas as azeitonas restaram porque eu detestava, mas não o deixei vir pegar simplesmente porque sim. Ele merecia uma lição e aquele alto de rebelião era tudo que eu poderia fazer por hora. Ele estava vestido com uma calça moletom preta e uma camisa da mesma cor ou quase, uma vez que essa estava desbotada de umas mil lavagens: — Eu vou trazer um cobertor pra- — Espera. Você não acha que eu vou dormir no sofá certo? Esse nem confortável é! — me coloquei de pé para colocar alguma força nas minhas palavras, mas ainda assim tinha que virar meu pescoço e olhar para cima para olhá-lo nos olhos. — É exatamente onde você vai dormir. — ele repousou uma mão sobre meu ombro, um ato demasiadamente íntimo que me fez dar um passo para trás. — Até amanhã, Isabela. — Eu não vou dormir no sofá! — Então o chão é todo seu. Fique à vontade. — ele me deu as costas e se pôs a andar em direção às escadas. — Volta aqui, seu bastardo! — Segui-o até o início da escada, enchendo suas costas de tapas até que ele se virasse para mim. — Você já está me mantendo em cárcere, então ao menos me dê um lugar decente para dormir! — Exatamente! Você está em cárcere eu quem dito as regras. Regra número um: Isabela dorme no sofá. — sentenciou ele como se estivesse atuando em uma peça. — Eu vou gritar na frente da sua porta a noite toda. — ameacei. — Você não vai dormir no meu quarto sozinha. — Tem algo a esconder? — eu sabia que tinha — Me deixe dormir no quarto da sua mãe então. — Não vou manchar a memória dela com alguém como você. — ele parecia verdadeiramente enojado. — Então durma comigo no quarto, oras! — sugeri sem antes pensar no que isso implicava — Você no chão obviamente. — me corrigi. Ele pareceu cogitar. — Eu não quero ouvir uma palavra de você pelo resto da noite ou você vai dormir com o Bansky. — ele deferiu. — E trate de respirar em silêncio. Entramos em seu quaro pela segunda vez aquela noite e pela última na minha vida, eu esperava internamente. Meu cabelo já estava seco e caia em ondas marrons sobre meus ombros. Eu prontamente prendi as madeixas em coque para dormir e me joguei na cama, definitivamente longe de ser tão macia quanto a minha, pelo contrário, a queda foi até dolorosa. Assisti Jonathan pegar no guarda-roupa um outro cobertor e roubar da cama dois de seus travesseiros, me deixando com apenas um. Quando fiz a menção de reclamar, ele colocou o indicador a frente dos lábios, lembrando-me do nosso acordo. Enfurecida, virei-me de costas para ele e escutei uma risadinha atrás de mim como resposta. Virei-me de volta. Ele já não sorria. Eu o encarava com a mesma desconfiança que eu o fitava de volta, nossos olhares raivosos não se apartavam por nem um segundo sequer como em um jogo de quem pisca primeiro que duraria a noite inteira se ele não tivesse fechado os olhos quatro horas trás enquanto eu permaneci acordada e repetindo os acontecimentos das últimas horas na minha cabeça como se pudesse encontrar alguma falha nos fatos que indicasse um pesadelo, mas tudo parecia perfeitamente real. Meu pai vai me matar... O pensamento quase me escapa os lábios, mas me contenho a tempo por não ter muito interesse em descobrir quem é Bansky no meio da madrugada. Talvez seja uma capivara cheia de pulgas... nunca se sabe o que esses pobres gostam de fazer de pets. Quando ele acordar, discutiríamos os últimos detalhes de seu plano e da minha mentira para colocá-lo dentro de minha casa. Engulo a seco o medo de tudo aquilo desmoronar sobre minha cabeça. Com tantas coisas acontecendo, não tive exatamente o tempo para digerir que eu tirei uma vida essa noite, uma vida que queria tirar a minha, mas ainda assim uma vida. Se a realidade tivesse ao menos um pouco do que Supernatural me ensinou, então não demoraria muito para que o fantasma do brutamontes aparecesse nos espelhos da minha casa ou nas sombras dos móveis. Me encolho na cama com o pensamento. Talvez ele já esteja aqui, observando cada movimento meu com a mesma astúcia que ele tinha em vida, esperando o momento certo para atacar. Talvez o momento seja agora, quando estou sozinha e Jonathan dorme profundamente no chão. Viro a cabeça rapidamente na expectativa de encontrar um fantasma atrás de mim, mas só vejo o escuro do quarto fracamente iluminado pela lua e a iluminação pública da rua. Ele certamente está jogando com a minha confusão, fazendo-me ficar louca, mas isso não iria funcionar. Será que ele tinha família? Filhos que chorariam em seu enterro? Meu coração dói como se alguém o estivesse apertando e as lágrimas se espremem para fora dos meus olhos. Essa criança vai crescer sem um pai e talvez ele fosse um ótimo pai ao contrário do meu. Um soluço gutural escapa da minha garganta e depois outro. Eu simplesmente não consigo parar: — Eu te falei que você vai dormir com o Bansky. — Jonathan resmunga. — Quer parar de fazer bar- — ele para ao perceber que estou me afogando em lágrimas. — O que aconteceu? — Ele pode ter filhos. — explico entre soluços. — E a esposa dele nem deve saber o que ele fazia. Ela deve estar preocupada agora se o IML não telefonou ainda. Jonathan senta na beirada da cama e me puxa para um abraço que não sou capaz de recusar com minha mente dando voltas em torno do meu primeiro, e espero que único, assassinato. Envolvo seu tórax em meus braços e repouso minha cabeça em seu peito, sufocando meus soluços naquele abraço: — O jeito que a vida dele acabou só é culpa dele próprio. — sussurra — Você não pode tentar assassinar alguém como você e esperar sair ileso. — Você espera. — Eu não estou planejando te m***r. — s********r e chantagear é quase tão r**m quanto. — Eu sei. — E mesmo assim está disposto a terminar como ele? Por quê? — Só vou terminar como ele se você estiver planejando me m***r. Está? — Eu só preciso da minha faca de volta. — deixo escapar uma risadinha. — Nesse caso ela vai ficar bem segura comigo. — Eu espero também estar segura com você. — tento escutar seu coração para descobrir alguma mentira. — Eu tecnicamente sou seu segurança, não sou? — Você poderia muito bem estar trabalhando com aqueles caras e isso tudo aqui ser uma armação dentro da armação. — suspiro. — Você vai ter que confiar em mim nessa. Sabe quem eles são e por que estavam atrás de você? — indaga, desvencilhando-se do abraço para me fitar e nunca havia visto antes olhos tão intensos quanto os dele agora, como se ansiasse pela resposta mais do que tudo. — Você está com medo de que eu saiba que você trabalha com eles? — franzo o cenho. — Eu não estou com eles. — afirma seriamente, olhando-me no fundo dos olhos. — Eu não sei, nunca vi aquele homem na minha vida. — omito a parte da sua tatuagem familiar — Provavelmente é alguém enviado por um inimigo político do meu pai. Esse tipo de coisa sempre acontece, por isso eu não deveria estar em lugares como aquele sozinha. — Para a sua sorte eu vou ser sua sombra agora. — Sorte? Eu nem sei se você sabe fazer alguma coisa além de r****r damas da sociedade. — provoco — Posso estar ainda mais em perigo. — Vai ter que pagar pra ver. — Espero que não com a vida. — Deixe-me adivinhar, porque você ainda não adquiriu a nova coleção da Prada e não pode ser velada com a da linha passada. — ele forçou uma imitação minha. — Eu não falo assim, i****a. — Fala sim. — Sai da minha cama! — Minha cama e não saio. — ele se deitou confortavelmente, empurrando-me para o outro lado. — Esse vai ser o pior trabalho da sua vida, Jonathan. — viro-me de costas para ele, tentando manter o máximo de distância possível entre nós dois. — Sem dúvidas.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD