📖 Capítulo 3 — O Quarto dos Segredos
O último sinal do dia ecoou por todos os corredores da escola, um som longo que parecia acordar uma agitação que já vinha crescendo. Os alunos começaram a guardar os cadernos às pressas, empurrando cadeiras, conversando alto sobre provas que tinham dado certo ou errado, sobre trabalhos que ainda faltavam entregar e o que fariam assim que pisassem fora da escola. Alguns combinavam de ir ao parque, outros diziam que só queriam chegar em casa e descansar, mas todos pareciam ter pressa de ir embora.
Nina colocou seus livros na mochila com calma, arrumando cada coisa no seu lugar como sempre fazia. Antes de sair da sala, virou-se para trás e olhou diretamente para Lucas, que já estava pronto, sentado imóvel na sua cadeira como se estivesse esperando exatamente por aquele olhar. Ela sorriu, um sorriso leve e sincero que iluminou todo o seu rosto.
— Tchau, Lucas! Até amanhã!
Lucas apenas fez um pequeno movimento com a cabeça, tão discreto que quase ninguém perceberia. Mas para ele, parecia que tinha feito um gesto enorme.
— Até amanhã.
Nina virou-se e saiu da sala sem imaginar nem por um instante que aquele simples cumprimento, aquelas poucas palavras, ficariam gravadas na mente dele, repetindo sem parar pelo resto do dia, como a coisa mais importante que já tinha ouvido na vida.
Ela caminhou até o portão da escola, colocou os fones de ouvido e seguiu tranquilamente para casa, cantarolando baixinho a música que tocava, sem olhar para trás nem desconfiar de nada ao seu redor.
Lucas esperou alguns minutos, deixando quase todos os alunos saírem, antes de se levantar e sair também. Ele sempre mantinha certa distância, sempre esperava um pouco antes de seguir o caminho dela, nunca fazia nada que pudesse chamar atenção ou que fizesse ela perceber que ele estava ali, sempre cuidando para parecer apenas um aluno qualquer que ia para casa na mesma hora que todos os outros. Depois de confirmar que Nina já estava longe o suficiente para não o ver, ele tomou outro caminho, o caminho que levava para a sua própria casa.
Ao chegar, abriu o portão devagar, sem fazer barulho. Sua mãe estava na cozinha preparando o jantar, o cheiro de comida caseira subia até a entrada da casa.
— Filho, chegou?
— Sim.
— Como foi a escola hoje?
— Normal. Nada de diferente.
— O jantar fica pronto daqui a pouco, vai lavar as mãos enquanto isso.
— Certo.
Seu pai lia o jornal na sala, levantou só um pouco os olhos quando ele passou.
— Como estão as notas? Nenhuma reclamação da professora?
— Continuam boas. Nenhuma reclamação.
— Ótimo. Continue assim.
Lucas subiu as escadas sem dizer mais nada, os passos leves e silenciosos como sempre. Chegou ao corredor, parou diante da porta do seu quarto e olhou para os lados para ter certeza absoluta de que ninguém o observava. Então abriu a porta devagar, entrou e fechou a porta atrás de si com todo o cuidado do mundo, girou a chave na fechadura e guardou-a no bolso da calça.
O silêncio tomou conta do ambiente de uma forma quase absoluta. Era um quarto que parecia perfeito para quem o visse de fora: a cama estava perfeitamente arrumada, nem um único fio de cabelo fora do lugar, a escrivaninha estava limpa e organizada, os livros na estante alinhados por tamanho e cor. Mas havia algo que nem a sua mãe, nem o seu pai, nem ninguém no mundo conhecia — o que realmente havia ali, escondido por trás daquela aparência de normalidade.
As paredes estavam cobertas por fotografias de Nina. Centenas delas, de todos os tamanhos e feitios, coladas com cuidado milimétrico, sem nenhuma ficar torta. Fotos dela caminhando pelo pátio da escola com os cabelos ao vento. Sentada na biblioteca com a cabeça apoiada na mão, lendo um livro com toda a atenção. Rindo de algo que uma amiga tinha dito, com os olhos brilhando. Sorrindo para a câmera durante as apresentações da turma. Recortes do jornal escolar onde ela aparecia nas notícias de eventos. Bilhetes de festas e feiras em que ela esteve presente. Pequenos papéis dobrados que ela tinha jogado fora e ele tinha recolhido, ou que ela tinha deixado cair sem perceber.
Em um grande mural preso na parede oposta à cama havia diversas listas escritas com uma letra perfeita e bem cuidada. Comidas favoritas dela, as que ela escolhia sempre na cantina. Livros preferidos, os que ela falava com entusiasmo. Cores de que ela gostava e cores que ela dizia não gostar nem um pouco. Filmes que ela tinha comentado durante as aulas ou no intervalo. Coisas que ela dizia que a deixavam feliz e coisas que a deixavam triste ou irritada. Datas importantes para ela, como o aniversário dela, o aniversário da mãe, o dia em que ela tinha ganhado uma medalha de natação. Cada informação ali estava escrita com uma calma e uma atenção que mostravam que ele tinha passado horas e horas a observar ela, a ouvir cada palavra que ela dizia, a guardar cada detalhe como se fosse ouro.
Sobre a cama havia uma almofada estampada com uma fotografia dela sorrindo durante um festival da escola, com o rosto brilhante de alegria. Na mesa, o computador permanecia ligado, a imagem de fundo era outra fotografia dela, tirada durante uma feira cultural, quando ela estava distraída a olhar para um trabalho de arte. Lucas tirou o celular do bolso do casaco; na tela de bloqueio, havia uma foto dela olhando pela janela da sala de aula, sem perceber que estava sendo fotografada, com o sol batendo suavemente no seu rosto.
Ele ficou ali parado, alguns segundos encarando aquela imagem, como se precisasse decorar cada traço dela outra vez. Então... começou a rir baixinho. Uma risada baixa, contida, quase infantil, que m*l saía dos seus lábios.
— Heh...
Levantou a cabeça e olhou para a parede cheia de fotos, como se estivesse falando diretamente com ela.
— Nina...
Sua voz saiu num sussurro tão baixo que só ele podia ouvir.
— A Nina falou comigo... duas vezes...
Levou uma das mãos ao rosto, passando os dedos devagar pela própria bochecha, tentando conter o sorriso que crescia cada vez mais nos seus lábios.
— Ela falou comigo duas vezes... e olhou para mim...
Andou lentamente pelo quarto, passando o olhar por cada fotografia, como se estivesse revivendo cada momento que elas representavam.
— Hoje você estava tão linda... mais linda do que nunca... o sol batia no seu cabelo e parecia que brilhava...
Parou bem em frente ao mural com todas as anotações.
— Seu sorriso... eu poderia passar a vida toda só olhando para ele... nunca me cansaria...
Fechou os olhos por um instante, respirando fundo como se pudesse sentir o cheiro dela ali no quarto.
— Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo conversando... você não me ignorou... você falou comigo como se eu fosse uma pessoa normal... como se eu fosse importante...
Seu coração batia tão forte que ele podia ouvir o som dele no próprio peito, só de lembrar de cada palavra que ela tinha dito. Ele puxou a cadeira da escrivaninha e sentou-se devagar, abrindo uma gaveta que ficava sempre trancada. Lá dentro, protegido de tudo, havia um caderno de capa preta, sem nome nem título nenhum, com um pequeno cadeado que ele já tinha destrancado. Era o seu diário, o lugar onde ele guardava tudo o que sentia e tudo o que descobria sobre ela.
Lucas abriu na primeira página que estava em branco. Centenas de páginas antes já estavam preenchidas com as suas anotações, cada dia com uma data, cada linha falando só de Nina, de cada detalhe que ele tinha visto ou ouvido. Ele pegou uma caneta preta, segurou-a com firmeza e começou a escrever devagar, com todo o cuidado do mundo, como se cada palavra fosse algo muito valioso.
Segunda-feira
"Hoje foi diferente. Foi o melhor dia da minha vida até agora.
A professora nos colocou na mesma dupla para fazer o trabalho de história. Eu nem conseguia acreditar quando ela disse os nossos nomes. Nina sentou-se ao meu lado e eu podia sentir o calor que vinha dela, podia sentir o cheiro do seu perfume suave que ficou no ar por muito tempo depois.
Nina conversou comigo pela primeira vez de verdade. Não foi só um cumprimento rápido. Ela falou sobre a matéria, perguntou se eu sabia responder a uma pergunta, explicou o que ela tinha entendido. Ela sorriu várias vezes durante o trabalho, e cada vez que ela sorria para mim eu sentia como se o mundo parasse de girar.
Disse que a minha letra era bonita. Disse que nunca tinha visto uma letra tão bem feita como a minha. Também disse que eu parecia uma pessoa muito legal e muito calma. Ninguém nunca me disse isso antes. Ninguém nunca reparou em mim como ela reparou.
No intervalo, ela tropeçou no degrau da escada. Eu estava bem ali perto, e segurei o seu braço antes que ela caísse no chão. A pele dela era tão macia... eu senti o seu toque durante todo o resto do dia. O cadarço do seu tênis tinha desatado, e eu me abaixei para amarrar ele direito. Ela ficou ali parada olhando para mim, e eu quase não conseguia respirar.
Ela agradeceu sorrindo, e disse que eu era muito gentil.
Na saída da biblioteca, ela sorriu para mim outra vez, quando eu segurei a porta para ela passar.
Antes de ir embora, virou-se para mim e disse: 'Até logo, Lucas.'
Ela sabe o meu nome. Ela lembrou-se do meu nome sem ninguém ter dito nada.
Hoje foi o melhor dia desde que eu comecei a estudar naquela escola. Eu não vou esquecer nem um segundo de tudo o que aconteceu."
Ele terminou a última frase, fez um pequeno risco para marcar o fim do dia e ficou olhando para aquelas palavras por vários segundos, como se quisesse gravar elas na própria pele. Depois fechou o caderno com todo o cuidado, guardou-o novamente na gaveta e trancou ela com a chave, colocando a chave num lugar que só ele conhecia.
Levantou-se outra vez e olhou para o mural de fotografias, passando o olhar por cada uma delas. O sorriso que tinha no rosto foi desaparecendo devagar, até ficar completamente sério, com uma expressão que misturava determinação e algo muito mais profundo e forte. Em voz baixa, quase como uma promessa que ele nunca iria quebrar, murmurou:
— Amanhã... vou descobrir exatamente do que você gosta de comer no intervalo. Vou saber tudo o que você faz, tudo o que você pensa, tudo o que você sente. E um dia... você vai ser só minha. Ninguém mais vai chegar perto de você. Ninguém mais vai te fazer m*l.
No andar de baixo, a voz da sua mãe chamou outra vez, mais alta agora:
— Lucas! O jantar já está pronto! Desce depressa antes que esfrie!
Ele respondeu sem tirar os olhos da parede cheia de fotos dela, a voz calma e sem mostrar nada do que sentia ali dentro.
— Já vou.
Respirou fundo uma última vez, apagou a luz do quarto, saiu e trancou a porta atrás de si, guardando a chave no bolso. Nenhuma pessoa naquela casa, nem mesmo os seus pais que o conheciam desde pequeno, imaginava o que existia escondido naquele cômodo... nem o quanto os pensamentos de Lucas já estavam crescendo cada vez mais, consumindo cada pedacinho da sua vida, e nem o quão longe ele iria para conseguir o que queria.