No silêncio do quarto

470 Words
Capítulo 8 — No Silêncio do Quarto O caminho até casa pareceu mais curto do que o habitual. Lucas caminhava em silêncio, com as mãos nos bolsos, enquanto revivia cada momento do festival. "Ela sorriu quando recebeu o peluche." "Ela disse que se divertiu." "Ela chamou-me de amigo." Essas frases repetiam-se na sua mente. ... Quando chegou a casa, abriu a porta. — Filho, chegaste? — perguntou a mãe da cozinha. — Sim. — Como foi o festival? Lucas tirou os ténis. — Foi bom. A mãe sorriu. — Fico contente. Pareces... mais tranquilo hoje. Ele apenas fez um pequeno aceno. — Vou para o quarto. — Está bem. Quando o jantar estiver pronto, eu chamo-te. Lucas subiu as escadas. Entrou no corredor. Parou diante da porta do quarto por alguns segundos. Depois abriu-a. Assim que entrou, fechou a porta cuidadosamente. O quarto ficou em silêncio. As fotografias de Nina continuavam organizadas no mural, exatamente como ele as tinha deixado. Na secretária estavam vários cadernos, livros e caixas com recordações da escola, todas arrumadas de forma impecável. Lucas pousou a mochila no chão. Foi até à cadeira e sentou-se. Permaneceu alguns instantes sem dizer uma palavra. Depois abriu lentamente a gaveta. Retirou o diário de capa preta. Passou a mão pela capa antes de o abrir. Na última página escrita, havia o relato do dia em que Nina lhe pedira para serem amigos. Ele respirou fundo. Pegou na caneta. Começou a escrever. --- Sábado "Hoje foi o festival da escola. A Nina convidou-me para passar o dia com ela. Cheguei cedo. Ela disse que eu ficava diferente sem o uniforme. Passeámos pelas barracas. Ela riu muitas vezes. Perdeu num jogo de argolas. Ganhei um coelho de peluche e ofereci-lho. Ela ficou muito feliz. Pintámos vasos. Comemos bolo. Ela disse que eu não era tão assustador como parecia. Também disse que eu era o amigo dela. No fim do dia, despediu-se com um sorriso. Foi um bom dia." --- Lucas pousou a caneta. Ficou alguns segundos a olhar para aquelas palavras. Depois fechou o diário com cuidado e voltou a guardá-lo na gaveta. Levantou-se. Olhou pela janela. Lá fora, o sol começava a desaparecer no horizonte. Pela primeira vez em muito tempo, pensou menos em controlar tudo o que acontecia à sua volta e mais na conversa que tinham tido. A amizade com Nina ainda era recente e frágil. Ele percebeu que, se quisesse continuar ao lado dela, teria de aprender a respeitar o espaço e as escolhas dela. No piso de baixo, a voz da mãe interrompeu o silêncio. — Lucas! O jantar está pronto! Ele respirou fundo. — Já vou. Apagou a luz do quarto, abriu a porta e desceu as escadas, enquanto o diário permanecia guardado na gaveta, com mais uma página dedicada ao dia que jamais esqueceria.
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