Capítulo 8 — No Silêncio do Quarto
O caminho até casa pareceu mais curto do que o habitual.
Lucas caminhava em silêncio, com as mãos nos bolsos, enquanto revivia cada momento do festival.
"Ela sorriu quando recebeu o peluche."
"Ela disse que se divertiu."
"Ela chamou-me de amigo."
Essas frases repetiam-se na sua mente.
...
Quando chegou a casa, abriu a porta.
— Filho, chegaste? — perguntou a mãe da cozinha.
— Sim.
— Como foi o festival?
Lucas tirou os ténis.
— Foi bom.
A mãe sorriu.
— Fico contente. Pareces... mais tranquilo hoje.
Ele apenas fez um pequeno aceno.
— Vou para o quarto.
— Está bem. Quando o jantar estiver pronto, eu chamo-te.
Lucas subiu as escadas.
Entrou no corredor.
Parou diante da porta do quarto por alguns segundos.
Depois abriu-a.
Assim que entrou, fechou a porta cuidadosamente.
O quarto ficou em silêncio.
As fotografias de Nina continuavam organizadas no mural, exatamente como ele as tinha deixado.
Na secretária estavam vários cadernos, livros e caixas com recordações da escola, todas arrumadas de forma impecável.
Lucas pousou a mochila no chão.
Foi até à cadeira e sentou-se.
Permaneceu alguns instantes sem dizer uma palavra.
Depois abriu lentamente a gaveta.
Retirou o diário de capa preta.
Passou a mão pela capa antes de o abrir.
Na última página escrita, havia o relato do dia em que Nina lhe pedira para serem amigos.
Ele respirou fundo.
Pegou na caneta.
Começou a escrever.
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Sábado
"Hoje foi o festival da escola.
A Nina convidou-me para passar o dia com ela.
Cheguei cedo.
Ela disse que eu ficava diferente sem o uniforme.
Passeámos pelas barracas.
Ela riu muitas vezes.
Perdeu num jogo de argolas.
Ganhei um coelho de peluche e ofereci-lho.
Ela ficou muito feliz.
Pintámos vasos.
Comemos bolo.
Ela disse que eu não era tão assustador como parecia.
Também disse que eu era o amigo dela.
No fim do dia, despediu-se com um sorriso.
Foi um bom dia."
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Lucas pousou a caneta.
Ficou alguns segundos a olhar para aquelas palavras.
Depois fechou o diário com cuidado e voltou a guardá-lo na gaveta.
Levantou-se.
Olhou pela janela.
Lá fora, o sol começava a desaparecer no horizonte.
Pela primeira vez em muito tempo, pensou menos em controlar tudo o que acontecia à sua volta e mais na conversa que tinham tido.
A amizade com Nina ainda era recente e frágil.
Ele percebeu que, se quisesse continuar ao lado dela, teria de aprender a respeitar o espaço e as escolhas dela.
No piso de baixo, a voz da mãe interrompeu o silêncio.
— Lucas! O jantar está pronto!
Ele respirou fundo.
— Já vou.
Apagou a luz do quarto, abriu a porta e desceu as escadas, enquanto o diário permanecia guardado na gaveta, com mais uma página dedicada ao dia que jamais esqueceria.