O quarto vazio

821 Words
Capítulo 16 — O Quarto Vazio O resto do dia de aulas passou rapidamente. As explicações dos professores pareciam distantes. Os alunos já só pensavam no fim das aulas. Quando o último sinal tocou, a turma começou a arrumar os materiais. Nina fechou a mochila e olhou para Lucas. — Até amanhã! Ele respondeu com um pequeno aceno. — Até amanhã. Ela sorriu e saiu da sala, despedindo-se de alguns colegas pelo caminho. Lucas ficou alguns segundos sentado antes de se levantar. Depois caminhou calmamente até ao portão da escola. O caminho até casa foi silencioso. --- Ao abrir a porta de casa, encontrou os pais na sala. Os dois interromperam a conversa assim que o viram. — Cheguei. — disse Lucas. — Olá, filho. — respondeu a mãe. O pai apenas sorriu. Mas havia algo diferente. Os dois pareciam tensos. Como se estivessem à espera de alguma coisa. Lucas franziu ligeiramente a testa. — Aconteceu alguma coisa? — Não... — respondeu a mãe rapidamente. — Vai descansar. Ele estranhou a resposta. Mesmo assim, não insistiu. Pegou na mochila e subiu as escadas. --- Parou diante da porta do quarto. Respirou fundo. Girou a maçaneta. Abriu a porta. Deu apenas um passo... E ficou completamente imóvel. O quarto estava... diferente. As paredes estavam vazias. O mural tinha desaparecido. Não havia fotografias. Não havia recortes. Não havia anotações. A secretária estava limpa. As caixas com recordações tinham desaparecido. A moldura da fotografia deixara de estar sobre a mesa de cabeceira. Até o diário tinha desaparecido. O quarto parecia o de qualquer adolescente. Por alguns segundos... Lucas não conseguiu reagir. Os olhos percorriam o quarto de um lado para o outro. Como se recusassem a acreditar no que viam. Respirou uma vez. Duas. Três. O peito começou a subir e a descer rapidamente. — Não... A voz saiu baixa. Quase um sussurro. Abriu todas as gavetas. Nada. Olhou debaixo da cama. Nada. Abriu o armário. Nada. Começou a procurar freneticamente. As mãos tremiam. Os livros caíam ao chão. As gavetas eram puxadas com força. Nada. Absolutamente nada. A expressão de espanto transformou-se em raiva. Num movimento brusco, empurrou a cadeira da secretária. Ela caiu no chão com um estrondo. — Não... A respiração acelerou. — Não... Virou-se de repente. Saiu do quarto a passos largos. Desceu as escadas quase a correr. Os pais levantaram-se imediatamente ao ouvi-lo. Lucas entrou na sala. O rosto estava vermelho de raiva. — Onde estão?! A mãe deu um passo à frente. — Filho... — Onde estão as fotografias?! A voz dele ecoou pela casa. — Onde estão as minhas coisas?! A mãe tentou manter a calma. — Lucas, ouve-me... — ONDE ESTÃO?! O pai levantou-se. — Fomos nós. Lucas virou-se imediatamente para ele. — O quê? A mãe respirou fundo. — Guardámos tudo. — Guardaram...? — Sim. — Onde?! A mãe aproximou-se. — Filho, precisávamos de fazer alguma coisa. Estávamos muito preocupados contigo. Lucas deu um passo para trás. — Vocês mexeram no meu quarto... — Fizemo-lo porque te amamos. — Entraram sem a minha autorização! A voz dele tremia de indignação. — Não tinham esse direito! A mãe tentou aproximar-se novamente. — Lucas, por favor, acalma-te... Ele afastou-se. — Não! Ela respondeu, com a voz mais firme do que antes: — Foi para o teu bem, filho! O silêncio durou apenas um instante. Lucas cerrou os punhos. Olhou alternadamente para os dois. A respiração estava pesada. — Vocês não têm o direito de se intrometer na minha vida! A mãe deixou escapar uma lágrima. — Estamos a tentar proteger-te. — Proteger-me?! A voz dele voltou a subir. — Vocês não tinham o direito de entrar no meu quarto! O pai tentou intervir. — Filho, escuta... — NÃO! Lucas apontou para as escadas. — Deitaram fora tudo! — Não deitámos fora. — respondeu o pai rapidamente. — Guardámos tudo num lugar seguro. Lucas ficou em silêncio por um segundo. Mas a raiva continuava estampada no rosto. — Mesmo assim... mexeram nas minhas coisas. A mãe estendeu a mão na direção dele. — Lucas... Ele recuou. Sem dizer mais uma palavra, virou-se. Abriu a porta de casa com força. — Lucas! — gritou a mãe. Ele não respondeu. Saiu para a rua. A porta bateu atrás dele. O silêncio tomou conta da sala. A mãe levou as mãos ao rosto. — Será que fizemos a coisa certa? O pai passou um braço pelos ombros dela. — Não sei... Olhou para a porta ainda fechada. — Mas agora o mais importante é garantir que ele volte para casa em segurança. Depois, vamos precisar conversar com ele com calma e reconstruir a confiança que foi abalada hoje. Lá fora, Lucas caminhava sem rumo pelas ruas, tentando controlar a mistura de raiva, tristeza e sensação de perda que o consumia. A noite começava a cair, e nenhum dos três imaginava como aquela discussão mudaria a r*****o da família dali em diante.
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